A vez dos "boliburgueses"

Joaquim Ibarz
Enviado especial a Caracas

Ao revisar a identidade de 50 beneficiários de programas educacionais do governo, pesquisadores da Universidade Central da Venezuela (UCV) descobriram que quatro pessoas que supostamente cursam o segundo grau morreram há vários anos, e outras quatro têm mais de 100 anos. Em outro grupo localizaram 291 maiores de 125 anos, sete dos quais estariam cursando programas de treinamento profissional.

O presidente Hugo Chávez alardeia que na Venezuela não se investe um centavo sem que se conheça seu destino. No entanto, os pesquisadores da UCV questionam os resultados dos programas sociais (conhecidos como "missões") de seu governo. E denunciam que os números são inchados para desviar milhões de euros.

Nos oito anos em que Chávez ocupa o poder, a Venezuela recebeu entre US$ 175 bilhões e US$ 225 bilhões graças ao petróleo e a novo endividamento.

Gustavo Coronel, ex-diretor da Petróleos de Venezuela (PDVSA), diz que a transparência diminuiu na medida em que entrava dinheiro. "A corrupção envolve todos os níveis da sociedade venezuelana", afirma Coronel. Desde 2004 o Banco Central da Venezuela transferiu para o exterior cerca de US$ 22,5 bilhões, dos quais se desconhece o paradeiro de cerca de US$ 12 bilhões.

A corrupção favoreceu o aparecimento da burguesia revolucionária, os chamados "boliburgueses". Centenas de colaboradores de Chávez vivem nos bairros mais elegantes, compram caminhonetes de luxo, freqüentam os restaurantes mais caros, abrem contas no exterior, distinguem-se pela ostentação.

Basta examinar os aumentos exagerados nas vendas de carros e mansões para corroborar a voracidade do consumo de uma nova casta disposta a exibir símbolos de riqueza. Por isso a oposição fala em "roubolução". Os parentes de Chávez são os novos-ricos de Barinas, seu estado natal, do qual seu pai é governador.

Depois de oito anos com Chávez no poder, a Venezuela é considerada o país mais corrupto da América (superado somente pelo Haiti). O último Índice de Percepção de Corrupção (IPC) da organização Transparência Internacional mostra que o país caiu do 130º lugar em 2005 para 138º em 2006, de um total de 163 países. Em 2001 ocupava a 70ª posição entre os países mais corruptos.

"A impunidade é total. Apesar das muitas denúncias, muito poucos foram para a prisão, todos de escalão menor. Há milhares de casos em que não se sabe o que aconteceu, e ninguém investiga. Muitos militares estão envolvidos, porque em todos os ministérios há uniformizados. Temos um governo militar e não percebemos. Qualquer denúncia pode ser vista como um ato contra-revolucionário", declara Mercedes de Freitas, diretora-executiva da Transparência Venezuela.

Os escândalos questionam a gestão de um presidente assediado pelas mesmas mazelas que prometeu combater. Nessa transmutação de valores, as denúncias envolvem civis e militares. Já são centenas os casos de corrupção não-resolvidos e sem castigo que caíram no esquecimento.

Um caso abafa o outro e a capacidade de espanto se esgota. Os escândalos mais ruidosos somam centenas de milhões de euros. Um caso recente é o da Fondafa: a ministra da Economia Popular foi denunciada por seus irmãos de pretender cobrar deles uma comissão milionária por alguns contratos.

Ninguém cometeria o atrevimento de dizer que a corrupção começou com Chávez. Porém, nos governos anteriores a pilhagem era objeto de censura social, mesmo que sem sanções exemplares. Agora a questão mudou. O analista Carlos Blanco indica que com o "socialismo do século 21" a corrupção não é corrupção, "mas o mecanismo por meio do qual a primazia do revolucionário reclama sua 'ajuda de custo' dos que têm a sorte de ser contratados pelo Estado". Não há roubo, mas "redistribuição forçada da propriedade estatal graças à intermediação de empreiteiras que devem lavar seus pecados por meio de uma mordida de 15% a 30%".

O problema do avanço da corrupção, diz Carlos Blanco, é que o exemplo se propaga. Pouco a pouco se instala a idéia de que a verdadeira revolução consiste em que a "piñata" [o prêmio] agora é de todos; a corrupção torna-se um trabalho, e como todo trabalho esforçado exige remuneração. O chamado Imposto Processual de 15% (pode chegar a 30%), mecanismo quase institucionalizado, é o valor da mordida que corresponde em contratos de obras com o Estado, para "ajudar no processo". Venezuela é o segundo país mais corrupto da América, segundo a Transparência Internacional Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos