Países debatem no Mali a soberania alimentar da população

Bru Rovira
enviado especial a Selingué, Mali

"O mercado não resolve a fome, esta cresce no mundo apesar dos excedentes de produção", dizem os organizadores. Tomemos como exemplo o leite e o arroz. O governo de Mali fez há alguns anos uma campanha para promover a produção local de leite e dedicou investimentos para melhorar o rebanho animal, ao mesmo tempo em que modernizava o cultivo de forragem. Também se organizaram cooperativas de produtores locais e se construiu uma central leiteira.

Quando tudo isso estava implementado, o governo, pressionado e aconselhado pelo Banco Mundial, aceitou privatizar a central leiteira para melhorar seu funcionamento, e a nova empresa proprietária, uma firma da Líbia, não demorou a descobrir que era mais rentável comprar leite em pó da União Européia do que utilizar o leite dos criadores locais.

Assim, deixou de comprar o leite em Mali e começou a utilizar a central leiteira para transformar o leite em pó proveniente dos excedentes europeus em leite engarrafado. Logo, o leite em pó, muito menos nutritivo, se transformou no leite que a população consome habitualmente, já que o leite fresco local é quase duas vezes mais caro. E os produtores locais viram-se arruinados.

O caso do arroz é parecido: o governo construiu exatamente nesta localidade de Selingué uma represa no rio Níger com a finalidade de, além de produzir eletricidade, melhorar os cultivos de arroz. O arroz que se planta nessa região atingiu grande qualidade, mas a obrigação de abrir os mercados, imposta pelas instituições econômicas mundiais aos países do sul, fez o arroz tailandês quebrar o mercado local, pois seu preço é muito menor e não importa que a qualidade seja inferior. A subsistência é o único termômetro que os malineses, num dos países mais pobres do planeta, podem se permitir na hora de comprar. Aqui até as maçãs são vendidas em unidades.

Esses dois exemplos, que nos explica o dirigente camponês Dionkunda Taore, ilustram, na opinião de Paul Nicholson, um dos organizadores do fórum, como "as políticas neoliberais impostas pela Organização Mundial do Comércio, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, deterioram cada vez mais as condições de vida das populações em um mundo onde a metade da população ainda vive do campo ou da pesca".

A idéia de fazer chegar a comida ao preço que for às populações necessitadas é conhecida como segurança alimentar, e é contra esse conceito que o fórum luta para propor a idéia de soberania alimentar, conceito lançado em 1996 pelo movimento Via Camponesa na cúpula mundial sobre alimentação realizada em Roma.

"Todos os dias comprovamos que o mercado não resolve os problemas da fome, que aumenta cada vez mais no mundo apesar dos excedentes de produção", diz Nicholson. "A segurança alimentar destrói, mais que resolve. O dumping (concorrência desleal com produtos subvencionados) e as grandes multinacionais arruínam as economias locais e são nocivos ao meio ambiente e ao desenvolvimento sustentável. Temos o direito de decidir o que comemos, quem o produz e como se produz. A isso chamamos soberania alimentar", afirma Nicholson.

O Fórum de Segurança Alimentar se propõe não somente a analisar o conceito de soberania alimentar e estabelecer alianças entre as diversas organizações sociais convidadas - da Tailândia ao Nepal, Brasil e Moçambique -, como pretende terminar no próximo dia 5 com a aprovação de uma proposta política e uma agenda de longo prazo que dinamize os movimentos sociais e envolva os governos e organismos internacionais.

Os temas de debate foram divididos em sete capítulos, nos quais se inclui a política do comércio internacional e os mercados locais, o conhecimento local e a tecnologia, o acesso e controle dos recursos naturais, compartilhar territórios e terras, conflitos e desastres, condições sociais e migração forçada e modelos de produção.

A domesticadora de sementes

O Fórum para a Soberania Alimentar decidiu escolher Nyeleni como nome que o representa. Nyeleni foi uma agricultora de Mali, nascida há 300 anos, que segundo a lenda domesticou as sementes e os animais e criou um modelo de vida auto-suficiente. Também se desejou que o fórum fosse realizado em um país africano exatamente por ser um continente onde 75% da população ainda vivem da agricultura e sofrem mais as conseqüências negativas do livre mercado. Poderia ter-se realizado em um hotel da Europa, explicam os organizadores. "Mas quisemos fazê-lo na África e num dos países mais pobres do mundo, o Mali, para compartilhar em campo a realidade da pobreza", dizem.

Organizar o fórum aqui não foi fácil, pois foi preciso construir um povoado com casas tradicionais e habilitar banheiros e chuveiros para os 500 convidados provenientes de 98 países, além dos organizadores. Nem todos os serviços funcionam, mas os delegados suportam estoicamente as condições de vida deficientes, agravadas pelo vento que enche de pó o ambiente, enquanto os jornalistas disputam a única linha de Internet, que se conecta e desaparece sem qualquer consideração pelo entusiasmo que provoca uma reunião tão cosmopolita às margens do rio Níger. Exigem que a liberalização dos mercados não afete seus sistemas de produção e consumo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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