Norma Aleandro, atriz, a noiva de 'O Filho da Noiva': "Muita gente ganha na loteria e não percebe"

Ima Sanches

Tenho 70 anos. Nasci e vivo em Buenos Aires. Estou casada há 35 e tenho um filho, um neto de 20 anos e outro de 2. Aos 9 anos comecei a atuar. Hoje, salvo honrosas exceções, estão no poder as piores pessoas de cada lugar; souberam tramar, negociar e enganar. Todos sabemos quando fazemos algo bem ou mal, não preciso de religiões.

AFP 
A atriz argentina Norma Aleandro com Héctor Altério, em cena do filme 'O Filho da Noiva'

A entrevista:

Norma Aleandro - Não existe uma única realidade, mesmo que vivamos como se só existisse a realidade cotidiana.

La Vanguardia - Como?

Norma -
Coisas que não têm nada a ver com a razão; são mundos sutis, como os sonhos, que transcorrem em paralelo.

LV - Já percebeu esses mundos?

Norma -
Sim, como a grande maioria das pessoas. Há quem não lhes dê importância, quem dê demasiada e os que, como eu, os vive e desfruta. Apesar de terem me assustado até os 25 anos, até que alguém muito sábio me fez ver que era uma sorte percebê-los.

LV - Pode me dar um exemplo?

Norma -
Sempre tive premonições e a capacidade de perceber a energia das outras pessoas e sua maneira de ser, suas intenções, sem necessidade de falar.

LV - O que a senhora demorou para entender?

Norma -
Que, apesar do que acabo de dizer, ninguém é previsível, começando por si próprio. Certas circunstâncias fazem aflorar coisas insuspeitadas de nossa natureza. De repente nos descobrimos muito mais corajosos ou muito mais covardes do que pensávamos, mais generosos ou mais miseráveis.

LV - Quando alguém não se justifica, aprende.

Norma -
É isso. Minha vida, desde que nasci, teve altos e baixos, do pior ao melhor. São as grandes escolhas que nos modificam.

LV - Quais, no seu caso?

Norma -
Falar ou calar. Quando eu soube, como tantas pessoas, que em meu país desapareciam e se torturavam pessoas, o que também acontecia no Brasil, Uruguai, Chile, Paraguai e Cuba, decidi falar.

LV - Criticar Cuba deve tê-la deixado muito só.

Norma -
Nem a direita nem a esquerda me queriam. Mas para que pode servir esta entrevista?, sempre me perguntei.

LV - E?

Norma -
Para levar mais gente a ver meu espetáculo, que não é ruim; mas sobretudo, se me derem a oportunidade, para dizer.

LV - Por dizer lhe puseram uma bomba.

Norma -
Uma de gás lacrimogêneo em pleno espetáculo e uma explosiva em minha casa, que destruiu o primeiro andar, com ameaça de morte se eu não deixasse o país em 24 horas. Fui em dez horas, sem passaporte, para o Uruguai.

LV - Não era o melhor lugar, dada a situação.

Norma -
Não; demorei um ano para poder ir à Espanha. Quando comecei a denunciar, não pensava que isso pudesse custar minha vida, mas quando decidi voltar, sim, sabia.

LV - E por que voltou antes que acabasse a ditadura militar?

Norma -
Porque no exílio estava morrendo. Voltei com "A Senhorita de Tacna", de Vargas Llosa. Na entrada do teatro revistavam as pessoas para ver se escondiam armas, e no final da peça eu saía para cumprimentar separada de meus colegas. Não queria que por minha causa lhes acontecesse alguma coisa.

LV - Não parou aí.

Norma -
Quando chegou o governo democrático de Alfonsín, me propuseram filmar "A História Oficial", e aí morri de medo, não queria, mas insistiram e reuni meu marido e meu filho para decidirmos juntos. Faço esse filme para que os argentinos saibam de uma vez que não só houve desaparecidos como roubaram e torturaram crianças?

LV - Eles apoiaram.

Norma -
Sim, e não gostei desse trabalho nem um segundo, senti muito medo, é claro que estávamos sob ameaça. No dia em que estreou em Buenos Aires, começava o julgamento da junta militar e muita gente se atreveu a dizer que foi graças a esse filme.

LV - Afinal, teve sua recompensa.

Norma -
São trabalhos de formiga, não vamos mudar o mundo fazendo cinema ou teatro. Mas há decisões que a gente toma que ajudam e, mesmo que sejam de formiga, são grandes.

LV - Como era a senhora quando menina?

Norma -
Respeito muito a menina que fui. Era uma menina pensante, o que me causava problemas. Não gostava nada do mundo em que vivia. Nada. E não tinha muito humor, mas mesmo assim fazia rir minha avó, que foi o ser que mais amei nesta terra. Ela me criou.

LV - Por que não gostava do mundo?

Norma -
Me era estranho. Absolutamente incompreensível. Não entendia a mentira, minha inocência era excessiva. Demorei muito para me adaptar socialmente. Trabalhar em teatro foi uma imposição cruel comigo mesma para me obrigar a lidar com os outros.

LV - E por que foi criada por sua avó?

Norma -
Meus pais eram atores e nunca estavam em casa. Mas minha avó estava; cozinheira castelhana, analfabeta que aprendeu a ler sozinha e leitora compulsiva. Vivíamos muito pobremente, mas ela e eu líamos à noite Poe, Faulkner, o que me ajudou a compreender muitas coisas... e era tão carinhosa!

LV - Quando alguém vem de uma infância triste, a adolescência é ainda mais triste.

Norma -
Sim. Eu não tinha um núcleo de amigas, era solitária. Tive relações sexuais muito cedo e tive conseqüências, e isso fez que eu despertasse para o mundo dos adultos de uma maneira estranha, fazia coisas que não entendia, mas me parecia que isso era ser adulto.

LV - E demorou para se casar.

Norma -
Vivi com homens, mas nunca quis me casar. Meu marido e eu éramos velhos e muito bons amigos, gostávamos muito um do outro até que percebemos que nos amávamos.

LV - E o pai biológico de seu filho?

Norma -
Vivi com ele três anos. Mas se alguém é pai e filho são meu marido e meu filho. Com esse homem ganhei na loteria. Muita gente ganha e não percebe, eu percebi.

LV - Soube valorizar o que tinha.

Norma -
Sim, e tenho o companheiro de jogos, o amigo e o amante mais belo que poderia ter. Desejamos amor, paixão e convivência. Mas a paixão é uma coisa e a convivência outra, e muito difícil. O amor, ou você tem ou não.

O olhar

A avó com Alzheimer de "O Filho da Noiva" tinha um olhar perdido - "o que tenho quando faço meditação", esclarece - e um olhar de menina inquieta - e é esse o que vejo hoje. Em suas interpretações há um registro misterioso, profundo, o entendo quando me explica sua infância e sua capacidade de perceber outros mundos. Falamos de muitas coisas mais: da mudança climática ("nos dá consciência de que vivemos em uma aldeia e de que o que um faz, todos sofrem"); da passagem do tempo ("morrer é algo que acontece com os outros, mas é preciso ir se acostumando com a idéia, e a maneira é falando disso"). Vou reencontrá-la amanhã no Tívoli com "Sobre o amor e outros contos sobre o amor", textos de Lope de Vega, García Márquez, Vargas Llosa... Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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