Do terrorismo ao racismo

Rafael Ramos
em Belfast

A Belfast da paz é um lugar onde irlandeses e britânicos vivem muito melhor hoje, mas não os imigrantes. Os "hooligans" que antes se divertiam apostando corridas com carros roubados e brigando com bandos rivais agora se entretêm atirando bombas incendiárias nas casas de famílias chinesas, paquistanesas, brasileiras ou da Europa do leste. Quase dez anos depois dos acordos da Sexta-feira Santa, a agressividade continua existindo, embora se manifeste de maneiras diferentes.

Com o crescimento econômico e as oportunidades de trabalho, a população estrangeira de Ulster aumentou para mais de 40 mil, em um lugar onde há muito pouco tempo os únicos imigrantes eram asiáticos das antigas colônias do império britânico e a população só tinha visto pessoas negras nos filmes.

Assim como na vizinha República da Irlanda, os sentimentos racistas são especialmente aguçados entre as classes baixas, que dependem do Estado do bem-estar e acusam os recém-chegados de roubar seus benefícios sociais. "Parece incrível que depois de 30 anos de lutas sectárias essa comunidade dirija agora a violência para os imigrantes que vêm aqui ganhar a vida fazendo trabalhos que a população local rejeita", diz o juiz Coughlin, de Belfast. Mas é assim, como demonstram as estatísticas.

Nos últimos meses houve ataques contra poloneses em Derry, turcos e indianos no condado de Down, a duas famílias lituanas em Armagh, a portugueses em Portadown e a um casal brasileiro em Dungannon, para citar só alguns exemplos.

"Negros fora", diz um grafite na fachada de residências abandonadas na Donegall Avenue, no sul de Belfast, capital da Irlanda do Norte, que tem os apartamentos mais baratos e mais simples de toda a capital, com preços em cerca de 30 mil euros. É uma comunidade unionista, com bandeiras do Reino Unido enfeitando casas unifamiliares e bares protestantes onde se organizou mais de uma conspiração, uma ou outra suástica pintada sobre o tapume que fecha portas e janelas de casas abandonadas, o lado mais obscuro da nova Irlanda do Norte.

"O aumento dos ataques racistas se deve em boa medida aos acordos da Sexta-feira Santa", diz o professor James Uhomoihhi, da Universidade de Belfast. "Quando você é jovem e está acostumado a brigar e de repente lhe proíbem lutar com os católicos ou os protestantes, com quem você trocou sopapos a vida inteira, busca uma alternativa. E a vítima mais propícia são os imigrantes estrangeiros." Tanto a IRA como os legalistas são conscientes de se encontrar sob uma estrita vigilância policial e não querem pôr em perigo as conquistas políticas dos últimos anos com atos violentos de caráter sectário.

"Na Irlanda do Norte existe um crescente problema de racismo, mas não tanto como em algumas cidades da Inglaterra e bairros de Londres", afirma John Spellar, um político do governo local. "O mais importante é garantir que não se mantenha essa tendência." Com essa finalidade, a pena máxima no Código Penal por agressões com danos foi aumentada para 14 anos e os juízes receberam instruções para agir com severidade.

Até há pouco tempo eram as meninas católicas do norte de Belfast que precisavam de escolta policial antidistúrbios para atravessar um bairro protestante que ficava no caminho do colégio. Não é mais assim, mas agora são os sudaneses e indianos que não podem deixar seus filhos sozinhos na rua ao entardecer - que em pleno inverno é a partir das 3 da tarde - e têm de reforçar seus telhados e janelas para que não entrem os coquetéis molotov e as bombas incendiárias atiradas pelos extremistas. "Estou neste país desde 1995, e nunca tinha sido alvo de insultos ou ameaças", diz o palestino Jamal Iweida.

"O que os chineses, negros e 'paquis' vêm fazer aqui?", pergunta Mark McCrory em um popular bilhar no leste de Belfast, em pleno território legalista. "Nós nos arranjamos sozinhos, sem necessidade de que ninguém venha tirar nossos postos de trabalho e as moradias baratas, mandar seus filhos para nossos colégios e pedir benefícios sociais", diz o jovem Mark.

Do outro lado da rua, um adolescente de origem asiática vai deixando de porta em porta a propaganda de um restaurante tailandês que faz entregas a domicílio, sem se preocupar com os olhares assassinos que alguns lhe dirigem. Aumentam os ataques contra imigrantes na Irlanda do Norte, onde os estrangeiros são novidade. Nos últimos meses houve violência contra poloneses, turcos, indianos e até brasileiros Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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