Shimon Peres, vice-primeiro-ministro de Israel: "O medo da ameaça nuclear iraniana é real, mas creio que não tem justificativa"

Henrique Cymerman
em Jerusalém

"Eu não creio que se deva enviar aviões de combate e bombardear o Irã, mas é preciso perguntar ao povo iraniano até que ponto ele está disposto a sofrer com a fome, a pobreza e tanto desemprego. A pergunta que se deve fazer é: lutar contra o governo iraniano ou lutar com bombas? O Paquistão também tem poder nuclear e a comunidade internacional não está tão preocupada. É preciso agir com o Irã como se agiu no passado com a Ucrânia, Líbia, África do Sul e atualmente com a Coréia do Norte", afirma em entrevista exclusiva a "La Vanguardia" o vice-primeiro-ministro israelense, Shimon Peres. Aos 82 anos, é o principal candidato à presidência de Israel, que será disputada nos próximos meses.

Kazuhiro Nogi/AFP 
Peres diz que os governos atuais já não controlam o movimento de dinheiro e de pessoas

La Vanguardia - A canção israelense na próxima Eurovision chama-se "O botão vermelho", refletindo o grande fantasma da sociedade israelense, a ameaça nuclear iraniana. Até que ponto ela é real?

Shimon Peres -
O medo é real, a pergunta é se esse medo tem justificativa ou não. Eu creio que não, porque quem tiver intenção de apertar esse botão vermelho pensará em todos os botões vermelhos do mundo. O dele não é o único que existe. Não é tão simples quanto parece.

LV - O senhor considera que os EUA cometeram um erro ao se lançar numa guerra contra o Iraque, reforçando ainda mais o Irã?

Peres -
Não acredito nisso. O problema do governo americano é que pensou no início, mas não no final. Mas eu creio que os EUA não tinham alternativa. A necessidade de derrubar Saddam Hussein era real. Provocou duas guerras: uma contra o Irã, que durou sete anos, e outra contra o Kuwait. Esse ditador assassinou curdos, iraquianos e depois violou o acordo com a ONU. E os que se manifestam contra o ataque americano por que não se manifestaram contra Saddam?

LV - Até que ponto a Arábia Saudita substitui o Egito como intermediário no conflito israelense-palestino?

Peres -
A Arábia Saudita cumpre esse papel porque tem os recursos, a capacidade e o interesse de fazê-lo. Até agora os sauditas acreditavam que se poderiam resolver todos os problemas com dinheiro. Agora compreenderam que o dinheiro não é suficiente. E em comparação com o Egito a Arábia Saudita tem maiores recursos. Em minha opinião, o Egito está satisfeito com essa situação. Essa mudança não ocorre contra sua vontade.

LV - O governo israelense mostrou-se muito frágil nos últimos tempos. O senhor concorda com a opinião dominante de que esse governo atravessa dias muito difíceis?

Peres -
A situação é muito melhor do que se publica. Se você lê o jornal, começa a chorar, se sai à rua pode ver uma grande festa. As pessoas estão contentes, a economia vai muito bem, e isso não é atribuído ao governo porque este já é quase irrelevante no mundo. Os governos de nossos dias já são quase irrelevantes, já não controlam o movimento do dinheiro, o movimento das pessoas.

LV - É possível que a comissão Winograd provoque a demissão de altos funcionários do governo?

Peres -
Pode ser que sim, ou não. Ninguém pode ter certeza.

LV - Fala-se constantemente na possibilidade de uma nova guerra contra o Hizbollah. O senhor acredita que essa previsão se cumprirá?

Peres -
Não creio. Em minha opinião, a Síria não pode declarar guerra a Israel sem ajuda do Egito, por exemplo. Sempre é preciso estar preparados, mas difundir o pânico e a histeria é um erro. Não importa o que diga Nasrallah. O Hizbollah teve grandes perdas na guerra, cerca de 650 pessoas e milhares ficaram feridas, prometeu que reconstruiria as casas destruídas e nunca o fez. Não creio que esteja disposto novamente a arriscar vidas. É verdade que durante um mês e uma semana um milhão de israelenses se esconderam nos refúgios, mas o que o Hizbollah conseguiu com tudo isso?

LV - Dizem que o cargo de primeiro-ministro israelense é um dos mais difíceis que existem. O senhor crê que essa função é grande demais para Ehud Olmert e daí sua baixíssima popularidade?

Peres -
É uma função difícil para qualquer pessoa, porque dirigir este país é muito complicado. Olmert tenta fazê-lo com sangue frio e calma, na medida do possível. Não se deve invejá-lo nem subestimá-lo.

LV - Depois do encontro em Meca em que o Hamas concordou com a Fatah em formar um governo de união nacional, o senhor acredita que o Hamas mudou do ponto de vista ideológico?

Peres -
Creio que eles tentam transmitir uma imagem de mudança sem mudar realmente. São obrigados a mostrar uma mudança porque o povo palestino está mais faminto que nunca, porque a pobreza aumentou e eles tinham prometido melhorar essa situação. E por outro lado essa é a única maneira de receber ajudas internacionais. Esses dois motivos não deixam alternativa ao Hamas senão mudar sua plataforma ideológica.

LV - Mas Israel não tem intenções nem mesmo de falar com ministros do Hamas no âmbito do novo governo palestino...

Peres -
Não temos nada para falar com eles, se nem sequer nos reconhecem como Estado. Além disso, também não reconhecem os acordos assinados no passado. Acho que não estão dispostos a nos reconhecer nem mesmo se for declarado um Estado palestino. Que alternativa nos deixam? Mesmo que exista um governo de união nacional é preciso desenhar uma política comum. Se não, para que se precisa de um governo, para discutir? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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