O comércio dos mortos em Najaf

Tomás Alcoverro
Enviado especial a Bagdá

São caixões muito humildes, de madeira pobre, quase leves. São transportados sobre os ombros para o santuário de Ali, na cidade santa de Najaf. Os portadores dão três voltas no sarcófago de ouro e prata. Os crentes beijam compungidos as cercas lavradas, as colunas preciosas. Sob a grande cúpula está enterrado o venerado imã. Tudo é luz, resplendor de lâmpadas e lustres de cristal. Há muito tempo se acumulam os tesouros, os presentes oferecidos por sultões, príncipes, potentados. Os fiéis amontoam-se junto à tumba para a qual avançam os caixões leves transportados pelos xiitas.

AFP 
Caixões são carregados nos ombros até Wadi Salam, onde há 5 milhões de túmulos

O comércio dos mortos prospera em Najaf. Desde a guerra, é um negócio florescente. A partir do século 19, sobretudo, ganhou grande importância para a vida da cidade, quando muitos sunitas iraquianos se converteram ao xiismo. Najaf também foi o último destino de fervorosos xiitas persas que escolheram seu imenso cemitério, o Wadi Salam (vale da paz) para jazer em suas tumbas. O islã iraquiano é o berço do xiismo que se impôs no Irã porque foi em Kufa, antiga capital do califado, que Ali foi assassinado; em Najaf ele recebeu sepultura e em Karballah seu filho Hussein, derrotado na batalha com os omeyas, sofreu o martírio que todo ano é revivido na cerimônia da Ashura, no final do mês de Moharram, o primeiro do calendário lunar utilizado pelos muçulmanos.

Os xiitas acreditam que a proximidade de seus túmulos com o santuário de Ali é mais benéfica que 700 anos de orações. Também há judeus, cristãos e muçulmanos enterrados no monte das Oliveiras em Jerusalém, onde deve aparecer o Messias e soarão as trombetas da ressurreição. O imã é o melhor protetor dos crentes, seu melhor intercessor no dia do juízo final, quando deverão ser julgados por seus anjos Munkir e Nakir.

Antigamente os cadáveres chegavam em lombos de camelos e mulas, em longas caravanas. Agora são transportados nas capotas de automóveis particulares e táxis procedentes de todas as províncias do Iraque, Irã, Afeganistão e Líbano. No horizonte, Najaf é uma florada de cúpulas de mesquitas resplandecentes, de imensos cemitérios. O de Wadi Salam, acreditam os habitantes da cidade, é o mais extenso do mundo, com 5 milhões de túmulos.

Devido à incessante violência no Iraque, cerca de 200 cadáveres são transportados por dia para esta cidade santa, o que obrigou as autoridades municipais a abrir um novo cemitério na cidade vizinha de Karballah. Os cadáveres devem ser cuidadosamente lavados, preparados para o enterro, envoltos em sudários brancos de algodão ou em mizaras, tecidos preciosos, às vezes de seda, com versículos do Corão bordados. A preparação e sepultamento dos corpos, as pompas fúnebres, são monopólio de algumas empresas locais. Mas a fabricação e venda de sudários e mizaras - também destinados a outros usos como vestuário ou a decoração - produzem receitas lucrativas para centenas de comerciantes.

O negócio de cadáveres em Najaf está muito ligado às peregrinações xiitas, às visitas a seus santuários, e é um fator político na história das duas cidades e nas relações entre o Irã e o Iraque. Os xás da Pérsia, por exemplo, atribuindo-se a proteção dos xiitas árabes, exerceram uma grande influência nessas populações do sul, e no tempo da dinastia safávida se enfrentaram algumas vezes pela exploração desse comércio fúnebre com os governantes otomanos que dominavam o Iraque. Não se deve esquecer os impostos e taxas que arrecadavam, como também arrecadam hoje os líderes religiosos autóctones desses lugares santos.

Um mundo de coveiros, construtores de túmulos, estudantes e ulemás que entoam versículos do livro sagrado vive há séculos desse arraigado costume mortuário. Os grandes cemitérios reforçam a memória coletiva dos xiitas.

Foi com um guia curdo que visitei pela primeira vez, muito discretamente, o Wadi Salam. Às vezes é preciso andar quilômetros para chegar à tumba procurada nesse cemitério, paraíso de agentes funerários e coveiros. Todos os dias chegam da guerra 200 cadáveres para serem enterrados na cidade santa xiita. O sepultamento é monopólio de empresas locais e os religiosos cobram impostos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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