Cinco afegãos na selva colombiana

Joaquim Ibarz
Enviado especial à Colômbia

Deixar as áridas montanhas do Afeganistão para pisar nas úmidas selvas colombianas foi um forte choque para os jovens policiais que treinam na luta contra o narcotráfico. Sair de um país em guerra e chegar a outro mergulhado em uma violência permanente é uma experiência que, segundo seus instrutores, ajuda os agentes afegãos a superar a dureza do curso especial de Comandos da Selva que seguem na base de Tolima.

O Afeganistão é o país com mais plantações de papoula (produz 90% da heroína mundial). A Colômbia, que há 15 anos elabora heroína e ópio a partir da papoula plantada nas montanhas andinas, produz mais de 90% da cocaína que se consome na Europa e nos EUA. Por isso se considerou que o treinamento da polícia local pode ajudar a formar oficiais afegãos no combate à droga. Os cinco policiais afegãos que treinam na Colômbia podem ser a força-avançada de contingentes mais numerosos, já que se considera provável que seja copiado no Afeganistão o plano Colômbia, que já custou mais de US$ 3,5 bilhões aos EUA.

A imprensa americana questiona esse treinamento de afegãos pelas diferenças existentes entre as duas sociedades. Segundo o jornal "The New York Times", a Colômbia é um modelo equivocado para o Afeganistão. Michael Shiffer, vice-presidente do Diálogo Interamericano, argumenta que "não têm o mesmo nível de desenvolvimento; a Colômbia é a democracia mais antiga da América do Sul, enquanto o Afeganistão ainda está sendo construído".

A idéia de incorporar efetivos afegãos ao programa Comandos da Selva nasceu no final do ano passado por iniciativa de George W. Bush. O chefe do Estado-Maior conjunto dos EUA, Peter Pace, disse em Bogotá que o combate à droga realizado pela Colômbia poderia servir de exemplo ao governo afegão. Em julho de 2005, cinco policiais colombianos viajaram para Cabul.

Os cinco afegãos fazem parte de um grupo de 19 estrangeiros - mexicanos, equatorianos, panamenhos, bolivianos, salvadorenhos, paraguaios - que se preparam na base de Tolima como parte dos convênios assinados com os EUA. Os afegãos chamam a atenção pelo idioma, cultura e costumes. No primeiro dia de treinamento ficaram escandalizados ao ver os corpos nus de seus companheiros correndo para o banho. Em seu país é considerado ofensivo ver o próximo sem roupa, e, portanto, expressaram seu protesto. "Por respeito a suas crenças, tivemos de instalá-los em um quarto com duchas só para eles", disse à revista "Cambio" o comandante do curso, tenente Camilo Talero.

Além disso, cinco vezes por dia suspendem suas tarefas para rezar, voltados para Meca; no sábado negaram-se a se levantar porque sua religião os proíbe de trabalhar nesse dia. Também preparam comida especial para eles. "Depois de uma pequena negociação aceitaram que os exercícios de sábado eram parte integral do treinamento", afirma Talero. "Mas devemos ser flexíveis com seus costumes."

Mohammad Nouroz Yosifi conta que no Afeganistão são cultivados mais de 270 mil hectares de papoulas, que representam a maior quantidade de plantações ilícitas no mundo. E salienta que os Taleban empregam pelo menos 70% dos ganhos para comprar armas. "Os Taleban protegem os camponeses que cultivam a papoula, e por isso é muito difícil combater o narcotráfico", lamenta. Polícia da Colômbia treina agentes afegãos na luta contra o narcotráfico. Os EUA querem transplantar o modelo colombiano para o Afeganistão, que produz 90% da heroína mundial Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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