Indústria automobilística européia deverá cortar 100 mil empregos

Dolors Álvarez

A deslocalização da produção automobilística para o leste da Europa vai ser acelerada e ganhará ainda mais intensidade até 2009. Nos últimos anos o setor cortou 117 mil empregos na Europa ocidental, e prevê-se que entre 2007 e 2009 cortará outros 100 mil, segundo um estudo da seguradora Euler Hermes, filial da AGF. Na Espanha, a perda nos últimos seis anos foi de 8.200 postos de trabalho, 5% do total.

Os dados referem-se tanto aos fabricantes de carros como à indústria de autopeças, que buscam reduzir os custos indo para países de salários mais baixos. Para essa nova fase de reestruturação, que vai acontecer até 2009, a Euler Hermes prevê que serão suprimidos de 30 mil a 40 mil postos de trabalho nas fábricas de automóveis e entre 60 mil e 80 mil nas produtoras de peças.

Em contraste com o que acontece na velha Europa, a abertura de fábricas nos países do leste permitiu criar nos últimos seis anos cerca de 90 mil empregos. Destes, 40 mil foram criados desde 2004, ao mesmo tempo em que na Europa ocidental se destruíram 70 mil, o que confirma que a tendência de deslocalização aparece com força cada vez maior.

O Reino Unido é o país que perdeu mais empregos (56 mil) em conseqüência do fechamento de fábricas Ford, General Motors, Jaguar, Rover e PSA (Peugeot-Citroën). Outros dois países que foram muito prejudicados são Bélgica e Portugal, que experimentaram cortes de 10.400 postos (19,5% do total) e 7.200 (25%), respectivamente.

É surpreendente a estabilidade da Alemanha, que mantém mais de 850 mil pessoas na indústria automotiva, mas isso se explica somente pela abertura de fábricas na antiga Alemanha Oriental, o que de fato mostra o mesmo processo de deslocalização, segundo análise da Euler Hermes.

Os grandes fabricantes europeus buscam com esse processo melhorar sua baixa rentabilidade. Sua margem operacional (porcentagem de lucro sobre as vendas) ficou em 3,3% em média em 2006, pouco melhor que os 2,7% registrados em 2005. Mas, "está longe da meta de 6% anunciada pelos fabricantes, que nos parece um pouco otimista", explica no estudo Yann Lacroix, responsável por análise setorial da Euler Hermes.

Nos países do leste recém-incorporados à União Européia, a indústria automobilística passou de 310 mil empregos em 2000 para 400 mil em 2006. As folhas de pagamento aumentaram 62% na Eslováquia, que já tem 58.400 pessoas no setor, e 41% na República Tcheca, que tem outras 111 mil. Na Polônia o emprego aumentou 25%, para 111 mil pessoas; na Hungria, 32%, para 44 mil; e na Eslovênia, 31%, para 9.200.

Os custos salariais não admitem por enquanto comparação, porque no leste são cinco vezes menores. O custo por hora é de 6,02 euros na Eslováquia e 6,3 euros na República Checa, contra 20,6 na Espanha, 28,6 na Alemanha e 30,3 na França.

A dúvida é saber por quanto tempo poderá se manter essa vantagem comparativa. "As estatísticas sobre os custos médios podem esconder grandes diferenças locais", adverte um recente estudo da PricewaterhouseCoopers que conclui que nem todas as deslocalizações poderão ser vantajosas.

Esse estudo indica que, embora ainda faltem anos para que alcancem os níveis ocidentais, os salários na Europa central e oriental estão subindo rapidamente. Em referência à pressão que sofrem os fabricantes de peças para que se deslocalizem, indica que "não faz muito sentido transferir-se para uma região com salários baixos se não se empregar muita mão-de-obra". "Também é preciso levar em conta que é cada vez mais difícil encontrar mão-de-obra qualificada em alguns setores", acrescenta.

Outro dos possíveis inconvenientes que a PricewaterhouseCoopers vê é a perda de imagem que representa o fechamento de uma fábrica de automóveis. "Alguns fabricantes de veículos dependem da imagem em seus próprios países para se promover, e o fechamento da fábrica no país para instalar-se no estrangeiro pode ter conseqüências negativas para a empresa."

Grandes investimentos

Os projetos previstos pelos fabricantes de automóveis na Europa do leste somam investimentos de US$ 6 bilhões para a instalação de novos centros de produção, segundo o estudo da PricewaterhouseCoopers. Já estão na região quase todas as marcas de carros e cerca de 300 fabricantes de peças.

A primeira a se instalar foi a japonesa Suzuki, que em 1990 construiu uma fábrica na Hungria. Depois chegaram a Volkswagen, com a compra da checa Skoda, a Fiat, com fábricas na Polônia; Renault, com a romena Dacia, e General Motors, com instalações na Polônia e Romênia. Toyota e PSA abriram em 2005 uma fábrica conjunta na República Checa, enquanto a Ford prevê transferir em 2008 a produção do pequeno KA para uma fábrica da Fiat. A indústria automobilística está em declínio na Europa ocidental. Nos últimos seis anos os fabricantes de carros e seus fornecedores suprimiram 117 mil empregos. Um estudo prevê nova fase de reestruturação, com cortes de mais 100 mil empregos até 2009 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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