Ilhas Malvinas não querem lembrar a guerra

Robert Mur
Enviado especial a Stanley

"Os argentinos estão chegando!", devem ter gritado os ilhéus há 25 anos, quando viram chegar às praias das ilhas Malvinas um grupo de 92 mergulhadores de combate, dispostos a iniciar a invasão desse território sob soberania britânica. Passeando por Stanley, a capital do arquipélago, é inevitável lembrar aquele simpático filme "Os Russos Estão Chegando", em que os atemorizados marinheiros de um submarino soviético avariado, obrigados a desembarcar num povoado na costa americana, são recebidos por habitantes surpresos e valentes.

Juan Mabromata/AFP 
A guerra das Malvinas nunca foi declarada como tal nem pela Argentina nem pela Inglaterra

A mesma perplexidade se instalou nos pacíficos malvinenses desde 1º de abril de 1985, quando as autoridades locais informaram à comunidade que a inteligência britânica avisava sobre uma invasão iminente por parte da Argentina. A guerra das Malvinas - que nunca foi declarada como tal por nenhum os lados - começou na madrugada de 2 de abril, depois de um desembarque maciço de tropas ordenado pela junta militar argentina, presidida pelo general Leopoldo Galtieri.

Além das Malvinas, os argentinos também ocuparam os inóspitos e quase desabitados arquipélagos das Geórgias do Sul e Sandwich do Sul, todas colônias britânicas desde 1833. O Reino Unido, com Margaret Thatcher como primeira-ministra, demorou só 74 dias para recuperar seus domínios no Atlântico sul. A hipótese errônea da junta militar argentina de que a Grã-Bretanha não lutaria pelas Malvinas se esvaziou nos primeiros momentos da crise, quando Thatcher rapidamente enviou todo o seu poderio militar para a zona para dar um sinal internacional de força e firmeza. A mediação do papa João Paulo 2º não conseguiu evitar o sangrento conflito.

Há 25 anos, os 2 mil malvinenses estavam protegidos por uma pequena guarnição militar, que demorou apenas algumas horas para se render. Ontem, um grupo daqueles ex-combatentes britânicos voltou às ilhas para receber uma homenagem da população local em Stanley, e realizaram um desfile e um ato em frente ao monumento dedicado aos 255 militares caídos na reconquista da colônia.

Da parte britânica foi o único ato comemorativo que ocorre nestes dias nas ilhas. Os "kelpers", gentílico de conotação pejorativa que recebem historicamente os ilhéus, não têm nada a comemorar em lembrança daquela data angustiante em que um exército estrangeiro pretendeu mudar seu tranqüilo estilo de vida. Nas ruas do povoado não há qualquer sinal que lembre o aniversário. No entanto, o governo das ilhas Falkland - nome britânico - prepara uma grande comemoração para o próximo 14 de junho, dia em que terão algo a celebrar: os 25 anos de sua libertação. Essa data terá fogos de artifício na baía de Port Stanley e chegarão ex-combatentes britânicos e autoridades da metrópole, e até se especula que algum membro da família real comparecerá.

No entanto, os alojamentos da ilha estão repletos durante toda esta semana. Além dos antigos soldados do lado vencedor também há jornalistas - quase todos argentinos e britânicos - e membros do exército derrotado. Cinco ex-combatentes argentinos farão hoje um pequeno ato em homenagem a seus companheiros caídos, que estão enterrados no cemitério de Darwin, a uma centena de quilômetros da capital. As autoridades não lhes causaram qualquer problema para entrar nas ilhas, como turistas é claro.

Os kelpers recebem os ex-militares argentinos com uma mistura de indiferença e compaixão anglo-saxã, pois viram com seus próprios olhos o que sofreram aqueles jovens recrutas durante a guerra, abandonados à sua sorte em trincheiras mortais durante semanas, sob temperaturas extremas e com rações de comida escassas.

No sábado, no avião que nos levou do Chile às ilhas, também se misturavam os moradores com os argentinos, inclusive o governador das Falkland, Alan Huckle, que voltava de uma viagem. Nós, os jornalistas, já tínhamos identificado os cinco ex-combatentes argentinos. Um deles não passou despercebido no aeroporto de Santiago, passeando orgulhoso com uma jaqueta que tinha nas costas estampado bem grande um mapa das Malvinas e a frase: "Voltaremos". Dois jovens kelpers o ignoraram completamente.

Durante o vôo, também detectamos um ex-combatente britânico, Garry Clement, que depois da guerra voltou às ilhas e hoje reside nelas. Perguntamos a ele em que parte da ilha combateu e nos disse que em Goose Green - o Campo do Ganso -, um istmo estratégico onde se travou uma das batalhas mais cruéis da guerra. Lembramos que um dos argentinos no avião, Óscar Núñez, também lutou ali. Talvez tenham estado frente a frente, talvez trocado tiros. Dizemos isso a Clement que, sem pensar duas vezes, se levanta da cadeira e se aproxima do antigo inimigo para apertar sua mão.

Morrer depois da batalha

Os números oficiais indicam que na guerra das Malvinas morreram 649 combatentes argentinos. Todos eles são considerados por lei heróis nacionais. No entanto, nenhum dado oficial registra o número de veteranos do conflito que se suicidaram nestes 25 anos. Segundo as associações de ex-combatentes, essa estatística obscura superaria os 350 nomes; isto é, cerca da metade dos falecidos durante os confrontos.

Exatamente a tentativa de suicídio de um desses ex-combatentes serve como ponto de partida para o premiado filme argentino "Iluminados pelo Fogo", baseado no romance homônimo de Edgardo Esteban e Gustavo Romero Borri. "Que apesar dessa dor da guerra possamos nos dar uma segunda oportunidade, não nos suicidar e apostar na vida", foi o apelo dramático que Esteban fez no ano passado quando foi receber um prêmio do Festival de Cinema Tribeca em Nova York. Esse escritor e roteirista sabe bem do que fala, pois também lutou nas Malvinas.

A maioria dos suicídios dos veteranos é atribuída ao estresse pós-traumático, a afecção mais típica que costuma atingir os que participaram de uma guerra. Esteban definiu essa doença psiquiátrica como uma angustiante "espera constante da morte".

Os 12 mil argentinos que foram enviados para uma guerra perdida de antemão voltaram para casa deprimidos e subconscientemente estigmatizados pela sociedade. Como ocorreu com muitos soldados americanos depois da derrota no Vietnã, os perdedores representavam a humilhação sofrida por todo um povo.

Além disso, eram identificados com a ditadura que todo mundo queria esquecer, assim como a guerra. A maioria daqueles soldados era muito jovem, alguns quase adolescentes, estudantes que cumpriam o serviço militar obrigatório e com uma precária preparação viram-se enfrentando um dos exércitos mais poderosos do planeta. Os mortos foram na grande maioria recrutas.

Em 2004 um grupo de veteranos da guerra acampou durante semanas na Praça de Maio, em frente à sede do governo argentino. Ali instalaram acampamento para reclamar, sobretudo, a atenção pública. Aumentos em sua magra pensão, reconhecimento econômico e cuidados de saúde adequados estavam no centro de seus pedidos. O governo do presidente Kirchner os atendeu e dedicou mais dinheiro aos veteranos.

Este correspondente visitou então aquele acampamento e comprovou que muitos daqueles ex-soldados se encontravam em situação lastimável, não só material como psicológica. Os olhos arregalados e os tiques nervosos eram moeda corrente entre aqueles homens, e o vinho barato que corria entre as tendas de campanha não ajudava a acalmá-los. É verdade que naquele protesto se somaram muitos amalucados que tentavam obter benefício econômico tentando se fazer passar por veteranos nas desordenadas listas da guerra. Mas também é verdade que a maioria daqueles personagens tatuados havia estado nas Malvinas.

Todos se queixavam de que o Estado os havia abandonado à deriva. E não só depois da guerra; também durante o conflito. São freqüentes as histórias de abusos aos soldados durante a invasão por parte de seus superiores. Eram habituais os castigos corporais sob a intempérie, sob a neve que caía nas ilhas, contra os desamparados recrutas. Certamente essas atitudes não eram casuais, se se levar em conta que muitos oficiais que mandavam nas tropas tinham participado selvagemente das torturas na repressão da ditadura.

Na semana passada uma associação de ex-combatentes da província de Corrientes denunciou que durante a guerra pelo menos um soldado argentino foi assassinado por um superior e que ocorreram outras três mortes por fome.

A denúncia se baseia no depoimento gravado de 23 ex-recrutas. Dados apresentados pelo Centro de Ex-Combatentes Ilhas Malvinas indicam que 28% dos soldados que foram à guerra pensaram em suicidar-se em alguma ocasião e que 10% tentaram uma ou várias vezes. Segundo esse relatório, 91% deles nunca tiveram assistência psicológica, 36% sofrem alguma incapacidade física ou psíquica, cerca de 79% têm transtornos relacionados ao sono, 37% se consideram violentos e até 60% permanecem ainda hoje em situação trabalhista precária. Nenhum símbolo comemora o 25º aniversário da invasão argentina
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