ETA devolve Zapatero ao ponto de partida e o obriga a uma firmeza total

Enric Juliana
Em Bilbao

O retorno do terrorismo do ETA nas proximidades das eleições municipais e autônomas de 27 de maio na Espanha é, desde esta segunda-feira (9/4), algo mais que uma hipótese policial. Algo mais que o negro presságio dos que há meses deixaram de acreditar na viabilidade do chamado processo de paz em Euskadi (País Basco).

José Huesca/EFE 
O ETA vai exigir que Zapatero aja com firmeza faltando 11 meses para o fim da legislatura

Ouvida a última tomada de posição do ETA - a extensa entrevista de dois encapuzados ao jornal basco "Gara", publicada na segunda -, o governo ficou quase sem margem de manobra: na retórica do ETA, a renúncia à violência continua sendo uma suposição infinitesimal. Parece restar para Rodríguez Zapatero somente um caminho transitável, faltando apenas 11 meses para terminar a legislatura: a firmeza - nos gestos e na linguagem.

O "Gara" desmentiu ontem os que, especialmente de círculos de oposição em Madri, levantaram a idéia de que o ETA surpreenderia com um gesto teatral - por exemplo, a devolução de parte das 350 pistolas roubadas na França em novembro passado -, para oferecer uma justificativa perfeita para a legalização do Batasuna [união da esquerda basca] ou algo semelhante. O golpe de efeito não ocorreu.

Apesar de insistir na casuística do cessar-fogo, os dois encapuzados inutilizaram a via da ambigüidade com as seguintes palavras: "O ETA continuará lutando até conseguir seus objetivos fundamentais. Não queremos abrir nenhum debate. Nas condições em que vive nosso povo, pensamos que continuam vigentes as razões para utilizar a luta armada, e enquanto for assim continuaremos nisso. Uma coisa é oferecer um cessar-fogo (...) e outra muito diferente é refletir que não é necessário praticar a luta armada".

O governo não quis fazer muitas reflexões em voz alta, mas a mensagem transmitida pelo Palácio de Moncloa deixa poucas dúvidas de que está se preparando para o pior em termos policiais, políticos e psicológicos. "Não vamos responder a esse comunicado do ETA porque só cabia esperar uma mensagem: a renúncia à violência", indicou ontem de manhã um porta-voz do governo.

Medo de atentados iminentes? "Como ficou demonstrado recentemente com a detenção do comando Donosti, o governo não baixou a guarda; o governo tem a obrigação de estar preparado para todas as coisas que possam ocorrer", apontou ontem à noite outra fonte governamental.

Portanto, o eixo está girando. O ETA, o oitavo passageiro da democracia espanhola, conseguiu se colocar nos últimos meses na ponte de comando graças às brutais desavenças entre governo e oposição, mas a prática de novos atentados poderia acabar empurrando o Alien para fora da sala de máquinas.

O que fará agora o Partido Popular? O ex-ministro do Interior Ángel Acebes honrou ontem sua condição de campeão espanhol de discurso retilíneo, na especialidade de engrenagem fixa. Impassível, Acebes repetiu o mantra dos últimos três meses: "Chantagem". "Zapatero tem de dizer que não aceita mais chantagens dos terroristas e que vai persegui-los", ameaçou o secretário-geral do PP.

O previsível endurecimento governamental, porém, coloca a oposição diante de uma tessitura complexa. Como manter as velas tensas? Como manter a cadência de uma manifestação antigovernamental a cada dois meses? Em círculos jornalísticos que tentam aconselhar a direita, reaparece o modelo centrista - o desejo, nunca realizado, de uma política de oposição mais moderada -, e voltam-se a enfatizar os pontos frágeis de Mariano Rajoy, cuja pontuação nas pesquisas continua baixa.

Apesar da grande agitação reinante, o quadro de fundo se mantém estável. Quase tão estável quanto o Partido Nacionalista Basco (PNV), o principal beneficiário eleitoral da ilegalização do Batasuna. O PNV realizou ontem o Aberri Eguna (dia da pátria basca) na Praça Nova de Bilbao, com quatro idéias principais: pragmatismo, modernização do nacionalismo, censura severa ao Batasuna por sua falta de autonomia em relação ao ETA - "Não são capazes de levantar a pedra", disse o "lehendakari" (presidente autônomo basco) Juan José Ibarretxe - e ausência de críticas ao governo Zapatero.

Ibarretxe se permitiu lembrar que um dia teve um plano. E o presidente do partido, Josu Jon Imaz, mostrou-se dinâmico: "Somos pragmáticos porque somos abertzales". Estamos seguros de nós mesmos, disse depois. A entente PSOE-PNV continua sendo uma das pedras angulares da legislatura. O dado não é pequeno. A pequena margem para uma interpretação frouxa da Lei de Partidos se dissipa. Os socialistas começam a se preparar política e psicologicamente para novos atentados Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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