Fome de séculos na selva colombiana

Joaquim Ibarz
Enviado especial a Bogotá

Não é uma história do realismo mágico que Gabriel García Márquez tão bem sabe narrar. É um fato real que se conheceu quando a Colômbia e o mundo inteiro homenagearam o autor de "Cem Anos de Solidão". A notícia não pode ser mais dramática: mais de cem crianças da província de Chocó morreram de fome no último ano, na terra do esquecimento, como diz o cantor Carlos Vives.

Há um mês os moradores de Chocó, província fronteiriça com o Panamá, ficaram 19 dias sem água. Agora a emergência é mais grave. Três crianças morrem por semana de desnutrição. Segundo a Igreja Católica, 111 crianças morreram no último ano por falta de alimentos e cuidados médicos. Jesús Albeiro Parra, pároco de Quibdó (capital do Chocó), afirma que dessa cifra 78 eram da bacia do rio Baudó, 23 do rio San Juan e outros dez da margem do rio Bojayá.

Os moradores de Chocó não entendem que o governo de Álvaro Uribe se ufane dizendo que a economia cresce 6,8% e aumentem 10% as crianças mortas de fome. Enquanto o Estado vende empresas públicas por mais de US$ 3 bilhões, os menores nada têm para comer.

O Ministério Público colocou o dedo na ferida ao denunciar que nos últimos dois meses morreram 39 crianças em Chocó de desnutrição, parada cardiorrespiratória, diarréia e gastroenterite. "Aqui há uma crise humanitária profunda devido ao abandono histórico e endêmico da região pelo Estado", diz o padre Parra.

Mais que território colombiano, o Chocó parece fazer parte da África negra mais pobre e atrasada. Esse tapete verde de 46 mil quilômetros quadrados, junto com Antióquia, é o único departamento banhado pelo Pacífico e o Atlântico e alimentado pela selva úmida tropical, onde etnias afro-colombianas convivem com comunidades indígenas. Mas ali, apesar dos recursos hídricos, florestais, mineiros, só vivem os mais pobres. As negritudes, como os chamam na Colômbia, lutam para sobreviver em meio à guerra interna, à pobreza e ao abandono.

Segundo números oficiais, 80% têm as necessidades básicas insatisfeitas, e muitos povoados estão às escuras, sem saúde e educação, com o rio como única via de comunicação; 74% ganham menos que o salário mínimo legal. De cada mil crianças negras que nascem, 151 morrem antes de completar um ano (a média nacional é 39). O analfabetismo é três vezes maior e só 2% dos jovens são universitários.

Os colombianos se perguntam que país é esse, em que crianças morrem de fome e as autoridades se entretêm polemizando sobre o número de mortos. Dizem que não chegam a 20. Que são no máximo 17, ou talvez 19. E, portanto, o assunto não é tão grave. Não importa que morram de fome, de inanição, como elegantemente maquiam para que não se saiba que essas crianças poderiam ter vivido com um simples prato de lentilhas.

"Há anos as crianças de Chocó morrem de desnutrição, não é um drama de agora. A fome é de séculos, é uma história de sempre que a Colômbia recebe com indiferença. Durante alguns dias há certa preocupação, mas logo se esquece", diz a "La Vanguardia" monsenhor Fidel León Cadavid Marín, bispo de Quibdó (capital do Chocó). "A mortalidade infantil é grande e a desatenção médica é escandalosa. Nesses povoados não há um promotor de saúde, os postos médicos não funcionam, não há farmácias nem remédios", diz o bispo. Mais de cem crianças morreram de desnutrição em um ano na província de Chocó. Os moradores vivem sua tragédia em silêncio. O Estado não ataca a situação, embora a economia do país vá de vento em popa Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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