Herança da idade heróica

Antónia Justícia
Em Barcelona

"À noite tirei uma fotografia do barco atacado pela pressão do gelo. Precisei de uns 20 focos." Assim refletiu o fotógrafo australiano Frank Hurley em seu diário na noite de 27 de agosto de 1915, quando o Endurance, escorado no mar gelado de Weddell havia meses, dava seus últimos estertores antes de se despedaçar e acabar com os sonhos de Ernest Shackleton de realizar a travessia transantártica. Hurley imortalizou o momento sem saber que essa fotografia seria a chave para que sua bisneta, Felicity Hurley Byrnes, se propusesse - 92 anos depois - a mesma empreitada perigosa que ele não conseguiu concluir. Uma nova expedição pretende enfrentá-la em novembro de 2008 com trenós, evocando as façanhas dos exploradores da chamada época heróica da conquista do pólo sul.

Frank Hurley/Reprodução 
Há 92 anos, o Endurance encalhou na Antártica, frustrando a expedição de Shackleton

A cena chocante e inesquecível do Endurance abraçado para sempre pelos gelos do sul foi uma constante na infância e adolescência de Felicity. "Tínhamos uma reprodução pendurada na porta do banheiro da minha casa, mas até muitos anos depois eu não soube que era de meu bisavô nem o que representava", explica. Nem mesmo quando, aos 18 anos, comentou para sua avó (filha de Hurley) que entraria na universidade para estudar jornalismo, soube nada de seu singular antepassado. "Ela apenas comentou: 'Oh, como meu pai!'", disse Felicity.

Em busca do passado

Felicity Hurley tem hoje 32 anos e é plenamente consciente de onde vem sua afeição pelo esqui e a paixão pelo frio e a neve que a faz viver trocando os invernos de Sydney (Austrália) pelos de Châtel, uma aldeia francesa situada a 1.200 metros de altitude. "Um dia tive a oportunidade de conhecer Edmund Hillary [o famoso alpinista neozelandês conhecido por ter sido o primeiro a completar com êxito uma subida ao Everest em 1953]. Ele veio dar uma conferência em minha faculdade e eu não quis perdê-la. Era meu herói, e eu lhe disse isso." E a jovem estudante de jornalismo abriu os olhos para seu passado quando soube que seu bisavô era para Hillary um ídolo, como este para ela.

Sua conquista particular do pólo sul - que deverá enfrentar sem o apoio de cães, já que é totalmente proibido seu desembarque segundo o protocolo de proteção ambiental vigente no continente branco - está repleta de romantismo. Para se preparar fisicamente, realizou um curso de sobrevivência de dois meses na Noruega, com temperaturas que em alguns dias alcançaram 35 graus abaixo de zero e ventos de até 85 quilômetros por hora. Em maio fará uma travessia pelo sul da Groenlândia, com esquis e trenós, que durará cerca de 15 dias.

Mas seu primeiro contato com a Antártida ocorreu há apenas algumas semanas, quando o Nornodge, um navio de cruzeiro turístico-ecológico dos cerca de 50 que percorrem parte do continente branco, fez sua última viagem da temporada. O objetivo de Felicity era ver a ilha Elefante, onde ancoraram e permaneceram durante semanas os homens que haviam participado da expedição de Shackleton, depois de conseguir abandonar o gelado mar de Weddell. Entre eles Frank Hurley.

"Quando soube quem era meu bisavô, comecei pouco a pouco a conhecer sua história. Não foi algo imediato, foi progressivo. Mas dessa expedição sempre me ficou a curiosidade de saber como seria a ilha Elefante. Passei dez anos pensando nesse lugar. Minha imagem da expedição do Endurance é essa ilha", comenta, emocionada. "Agora já posso pensar em outra coisa."

Na ilha não ficou nada do acampamento feito por aqueles 22 homens enquanto esperavam que Shackleton, no resto de uma pequena embarcação e acompanhado de cinco homens, encontrasse ajuda nas ilhas Geórgia do Sul. De fato, havia pouco que pudesse resistir à passagem do tempo daqueles botes que, emborcados, serviram de refúgios improvisados em uma terra inóspita, cheia de geleiras, penhascos de gelo e rocha, habitadas só por focas e pingüins.

Sua carne e gordura os ajudou a alimentar-se e a ter luz até que foram resgatados por Shackleton em 30 de agosto de 1916, quase um ano depois da mítica fotografia em que Hurley retratou o desespero do momento. "Que bom seria ter um amigo ou companheiro como o que meu bisavô encontrou em Shackleton", comenta Felicity, referindo-se a sua futura excursão pela calota polar antártica. "Porque acontecesse o que acontecesse durante os dias de minha expedição, ele sempre voltaria para me buscar." A bisneta de Frank Hurley, o fotógrafo da expedição de Shackleton, tentará completar a travessia transantártica em 2008 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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