A Europa ausente da campanha presidencial francesa

Lluís Uría
Em Paris

A Europa desapareceu do mapa, ou quase, na campanha eleitoral francesa. Por se tratar do país que deu o tiro de misericórdia no projeto de Constituição européia, não deixa de ser chamativo: a França está a ponto de eleger o novo presidente da República e de iniciar uma nova etapa política, e a questão européia, que há dois anos polarizou o país, está notavelmente ausente do debate eleitoral. Os principais candidatos, em um momento ou outro, expuseram suas teses para tentar tirar a União Européia do atoleiro em que a França a colocou no referendo de maio de 2005, mas em geral preferiram deixar o assunto na surdina.

AFP 
Os candidatos, favoráveis à Constituição que os franceses recusaram, não debateram o tema

Os três favoritos na corrida para o Eliseu, Nicolas Sarkozy (UMP), Ségolène Royal (PS) e François Bayrou - todos defensores do sim há dois anos -, mostram uma enorme cautela a respeito e preferem passar de leve por uma questão que ainda divide a sociedade francesa. Os defensores do não - desde a extrema-direita à extrema-esquerda - não conseguiram desta vez aglutinar em torno da Europa o mal-estar que atravessa amplas camadas da sociedade francesa.

No entanto, o futuro - ou a futura - presidente da República terá sobre seus ombros a enorme responsabilidade de buscar, com os demais parceiros europeus, uma saída para o atual bloqueio institucional que paralisa a União. O presidente da Fundação Robert Schuman, Jean-Dominique Giuliani, lembrou ontem que o novo inquilino do Eliseu terá só um mês - entre sua posse em 16 de maio e o Conselho Europeu de 21 e 22 de junho - para definir as linhas de sua política européia e tentar que a França recupere a confiança de seus sócios, "superando suas contradições e angústias". "A campanha eleitoral permitiu debater muito pouco sobre isso, pois pesaram muito os assuntos internos e, no entanto, o desafio eleitoral não é só francês, também é europeu", afirmou.

Nicolas Sarkozy é, dentre todos os aspirantes à presidência, o que propõe a via mais pragmática para desfazer o nó: negociar e aprovar pela via parlamentar - a mais segura e menos inclinada a sobressaltos - um minitratado que inclua o essencial das reformas institucionais da malograda Constituição européia. Trata-se de uma proposta modesta, mas que já foi saudada por egrégios europeístas como Simone Veil ou Valéry Giscard d'Estaing, o pai do projeto de Constituição, por considerá-la a mais plausível. "Parece-me que vai além das demais na elaboração de uma solução", ele declarou há alguns dias no semanário "Le Point". O candidato da UMP mantém nesse sentido a linha europeísta de seu antecessor, Jacques Chirac, embora rompa com ele em uma questão muito sensível para a opinião pública: Sarkozy rejeita que a Turquia possa algum dia entrar na UE.

Ségolène Royal parte teoricamente com uma colocação mais ambiciosa, mas cheia de riscos que podem torná-la inviável. Provavelmente não tem muitas opções, levando em conta a divisão que a questão européia provoca no seio do Partido Socialista, que se dividiu por causa do referendo (Laurent Fabius anda muito calado ultimamente, mas em 2005 conseguiu mobilizar pelo "não" o setor mais à esquerda do eleitorado socialista, rompendo com a posição oficial do partido). A candidata socialista propõe negociar um novo tratado, com um maior conteúdo social que o recusado pelos franceses - falta ver se será aceito pelos demais sócios -, e depois submetê-lo a um novo referendo. Também colocaria o ingresso da Turquia em consulta popular, à qual em princípio se pronuncia favoravelmente.

A repetição do referendo com um novo tratado também é a posição do centrista François Bayrou, embora o conteúdo - propõe um texto mais curto e simples - se aproxime de Sarkozy.

A prudência parece ser geral, mas a verdade é que a ausência de um debate aberto sobre a questão européia esconde na prática a oportunidade de fazer a pedagogia necessária. Os franceses, segundo constatam as pesquisas, sentem orgulho de ser europeus - 71% dizem isso, segundo uma pesquisa do instituto CSA realizada por ocasião do 50º aniversário da UE -, mas desconfiam enormemente da Europa em tom liberal que está sendo construída, assim como do processo de globalização, ao qual atribuem todos os males econômicos que afligem a França.

A pesquisa mostra que a preocupação dos franceses não passa exatamente pelo relançamento da Constituição européia (algo que só 22% consideram prioritário), mas pelo reforço da proteção social européia (42%) e a afirmação do lugar da França na Europa e no mundo (31%).

Diante disso, os líderes políticos franceses, longe de tentar convencer os cidadãos da vantagem do projeto europeu, alimentam periodicamente a desconfiança em relação às autoridades de Bruxelas. Assim sucedeu com a diretriz Bolkenstein de liberalização dos serviços - que deu lugar à caricatura do operário polonês -, e assim acontece um pouco agora com as críticas feitas por Royal - sobretudo - e Sarkozy - menos - à política do Banco Central Europeu. Dois anos depois do "não" à Constituição européia, os candidatos ao Eliseu põem na surdina o debate sobre a UE Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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