Sarkozy levanta a bandeira da identidade cristã da França

Lluís Uría
Em Paris

Com o risco de alienar o apoio de uma parte do eleitorado, especialmente nas periferias, Nicolas Sarkozy decidiu na reta final da campanha levantar a bandeira dos valores cristãos. "O cristianismo é uma parte determinante da identidade nacional", declarou o candidato da UMP ao Eliseu em uma entrevista à revista "Família Cristã" que será publicada neste sábado, véspera da eleição.

Afirmações desse teor foram comuns nos últimos dias. A novidade não está tanto no que ele diz, como na freqüência com que o faz. "O cristianismo viu nascer nossa nação", ele afirma na entrevista, "participou dos maiores momentos de sua história e também às vezes de seus dramas. Cobriu nosso território de igrejas, catedrais, monumentos", para depois salientar o "imenso patrimônio de valores culturais, morais, intelectuais e espirituais" que legou ao país.

Ao contrário do que poderia parecer, não se trata de afirmações destinadas unicamente a satisfazer os leitores dessa publicação. Ontem mesmo, em outra entrevista em "Le Figaro", insistiu nessa questão. "Atrás da moral laica e republicana francesa há dois mil anos de cristianismo", afirma, para em seguida justificar-se: "Dizer isto não é militar por uma igreja, é olhar a história da França tal como é". "A questão de saber se Deus deve estar na Constituição Européia já não está na mesa, porque não há mais Constituição (...) mas não se podem ignorar as raízes cristãs da Europa, nem as da França", acrescenta.

Casualidade? Absolutamente. Na última segunda-feira, em uma entrevista ao telejornal mais assistido, no canal TF1, afirmou que o papa João Paulo 2º é a segunda grande figura - depois do general de Gaulle, obviamente - que o "inspirou". Ontem argumentou no "Figaro": "É um homem que pela força de suas convicções fez cair o muro de Berlim (...) o homem que soube encarnar a abertura e a firmeza". E na terça-feira em Metz, diante da Cruz de Lorena, voltou a elogiar os "valores cristãos" e reivindicou a figura de Joana D'Arc, a jovem santa e mártir que uniu religião e patriotismo.

Não se trata de um posicionamento forçado. Em seu discurso de eleição como candidato no congresso da UMP em 14 de janeiro, no pavilhão da Porta de Versalhes em Paris, Sarkozy já definiu os franceses como "herdeiros de dois mil anos de cristandade e de um patrimônio de valores espirituais que a moral laica incorporou".

A jornada de ontem foi importante para Sarkozy, que recebeu o apoio do ex-presidente Valéry Giscard d'Estaing, que, aos 81 anos, continua sendo uma referência no centro político e do europeísmo. Em uma entrevista que aparece hoje no "Le Parisien", Giscard valoriza a capacidade, a vontade de diálogo e de renovação do candidato conservador. Fundador da UDF, Giscard por sua vez é crítico com François Bayrou, que foi um de seus braços-direitos e a quem acusa de "flutuar no vazio". Depois de reivindicar a "identidade nacional" francesa, Nicolas Sarkozy vinculou ao cristianismo uma parte "determinante" dessa identidade Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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