Medicina se escreve no masculino

Maricel Chavarría
Em Barcelona

Lançar tratamentos para parar, reiniciar ou suprimir a menstruação, sem levar em conta todas as circunstâncias ideológicas, psicológicas e sociais que podem alterá-la, aproxima ou afasta cada vez mais a mulher de seu próprio corpo? Essa pergunta, que é feita por Carme Valls em "Mujeres Invisibles" [Mulheres invisíveis - Ediciones de Bolsillo, 2006], foi muitas vezes contestada pelos feminismos. Feminismos da igualdade ou da diferença: ambos crêem que a medicina tem um olhar enviesado sobre a mulher. Um viés que começa por sua lenta inclusão em cargos de responsabilidade clínica (apesar de que desde os anos 80 pelo menos 50% dos licenciados são mulheres) e pela crença da profissão da saúde de que a ciência é neutra por natureza.

"Ainda há um conflito entre a ciência e o corpo feminino", diz María Milagros Rivera, catedrática de história medieval na Universidade de Barcelona. "A ciência, de raiz masculina, não está a serviço do corpo feminino. Por um lado é um corpo muito cortejado, mas parece que nunca faz as coisas ao gosto dos cientistas. Sempre é preciso tirar ou acrescentar algo. Ninguém pensa em abolir a barba, mas sim a menstruação. O poder é exercido sobre os corpos no Ocidente", explica essa catedrática, também pesquisadora do Centre d'Investigació de la Dona (Duoda).

Em seu texto "a diferença sexual na história", Rivera analisa o modo como o sentido e valor da vivência pessoal e livre do próprio corpo começaram a se modificar na Grécia clássica. Excluir as próprias vivências serviu para "um objetivo concreto e terrível: facilitar o controle e o domínio dos corpos", ela escreve. Segundo a professora, foi com esse fim que se educou na divisão de corpo e alma, estabelecendo uma hierarquia. A superioridade da alma sobre o corpo, perpetuada pela religião, é hoje a da mente sobre o corpo, atribuindo a ela males do corpo, "como se pudessem funcionar de forma antagônica", diz Rivera.

Essa divisão fictícia contribuiu, segundo Valls, para a crença de que os produtos psicofarmacológicos vão curar ou melhorar o mal-estar psíquico, sem entender as causas reais da somatização que o corpo sofre, "conseguindo assim que os sintomas se tornem invisíveis e insuportáveis até que o corpo os expressa como pode". Se há 30 anos qualquer sintoma pouco preciso na mulher, como cansaço ou mal-estar, era diagnosticado como neurastenia, hoje o diagnóstico mais freqüente é depressão ou ansiedade. "Administram ansiolíticos ou antidepressivos às mulheres sem um diagnóstico rigoroso ou para paliar problemas de relação, de afetividade, de pobreza ou de cansaço por seu papel de cuidadoras", escreve.

Rotular, diagnosticar e decidir quais mulheres são normais e quais estão doentes, nervosas ou têm problemas psiquiátricos colaborou historicamente para piorar sua saúde mental, acrescenta Valls. Essas mulheres tiveram de lutar não só contra os modelos sociais que pretendem encerrá-las, mas também contra a mentalidade dos profissionais que as atendem. As doenças de prevalência feminina são diagnosticadas facilmente no atendimento básico como depressão. "Dão a elas sedativos e depois terão problemas de tireóide... Não se investiga a dor nem a tireóide. O diagnóstico de fibromialgia e seu tratamento é um exemplo de como o sistema de saúde maltrata a mulher."

Nos anos 50, quando se descobria a pílula anticoncepcional, seu propósito era ajudar no planejamento familiar, mas com o tempo qualquer pequeno transtorno da regularidade do ciclo ou da intensidade das regras, "em vez de ser investigado para diagnosticar as causas, começou a ser tratado com hormônios anticoncepcionais", afirma Valls. "As explicações que davam às jovens afetadas eram superficiais e enganosas: que regularia o ciclo, que o teriam a cada 28 dias e diminuiria sua quantidade. Mas ninguém dizia a elas que ao mesmo tempo se inibia o ciclo menstrual no hipotálamo, a harmonia de seus neurotransmissores e o equilíbrio da circulação no sangue dos hormônios da tireóide e da glândula supra-renal".

Para Valls, suprimir a ovulação não significa necessariamente ganhar qualidade de vida. "Por que não existiu e nunca foi comercializada a pílula anticoncepcional masculina? Diminuir a produção de espermatozóides sem afetar a de testosterona ainda não foi conseguido. Não se permitia à farmacoterapia suprimir o desejo sexual masculino; já era suficiente manipular o feminino."

A filósofa italiana Anna Maria Piussi, uma das vozes mais incisivas do feminismo, se pergunta aonde nos leva o imaginário da medicina científica. "A medicina é um dos sujeitos da autoridade social, junto com a ciência e o mercado, que contribui para criar um imaginário social em torno da saúde do corpo e da mente de uma mulher", diz a professora da Universidade de Verona. "Só persegue a normalidade a qualquer preço."

"Vivemos em um mundo sem tempo para nos relacionarmos; a medicina enfrenta o problema através da tecnologia e dos medicamentos, em vez de ver que as relações humanas podem ser cruciais", continua Piussi. "A experiência feminina de vida não pode ser interpretada pela medicina científica, muito masculina. O patriarcado quer o controle da reprodução e vende para a mulher a possibilidade de libertar-se dessa função. Uma mulher deve saber quais são os riscos de eliminar sua menstruação ou de um processo de reprodução artificial e decidir, mas a medicina não a deixa, tem em suas mãos todo o processo. Precisa mudar, e só o conseguirá modificando a mente dos licenciados." Várias correntes do feminismo concordam que a medicina tem um olhar enviesado sobre a mulher. "O corpo feminino parece não fazer as coisas ao gosto dos cientistas", diz catedrática Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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