O julgamento do 11-M: o longo braço da justiça internacional

José María Brunet
Em Madri

O julgamento do atentado terrorista de 11 de março de 2004 (11-M) em Madri utiliza a videoconferência para o depoimento de um terrorista amigo do egípcio, condenado na Bélgica. Os avanços tecnológicos facilitaram os atentados do 11-M, mas também vão permitir uma melhor atuação da justiça contra o terrorismo internacional. Os telefones celulares, por exemplo, foram um instrumento básico para cometer o massacre, ao serem programados sem risco para os terroristas e utilizados como detonadores das explosões. Mas depois a investigação judicial seguiu o rastro desses mesmos telefones, de sua ativação e suas ligações.

No próprio julgamento se comprovou ontem a importância de que as comunicações universais também possibilitem a ação da justiça em escala planetária. O tribunal do 11-M escutou por videoconferência o depoimento de Oulad Mourad Chabarou, amigo de um dos supostos cérebros ou instigadores do 11-M, Rabei Osman Al Sayed, o Egípcio, com quem manteve em abril de 2004 várias conversas telefônicas nas quais os dois falaram sobre o massacre de Madri.

Essas conversas telefônicas foram gravadas pela polícia italiana, país onde então vivia o Egípcio, e constituem uma das provas mais importantes reunidas na investigação. Assim, está se comprovando que a instrução do 11-M, em geral, e a sessão do julgamento realizada ontem, em particular, demonstram a relevância da cooperação policial e judicial entre os países para combater as novas ameaças apresentadas pelo terrorismo internacional.

Oulad depôs em Bruxelas, onde cumpre pena de cinco anos de prisão por sua participação no Grupo Islâmico Combatente Marroquino (GICM). O depoente, homem de longas barbas que enchiam a tela dos televisores, se dedicou a brincar de gato e rato com o tribunal e a tradutora de árabe, mas há as gravações daquele abril de 2004 como prova acusatória. É verdade, em todo caso, que se a tradução tira a espontaneidade de um interrogatório direto, ainda mais trabalhoso é o diálogo quando é preciso passar o duplo filtro do intérprete e da transmissão televisiva.

Tudo isso deu ocasião a alguns equívocos, que o tribunal poderá sanar recorrendo à transcrição das conversas gravadas. Mas Oulad se refugiou o quanto pôde na cortina de fumaça dos mal-entendidos, espontâneos ou provocados, com o claro objetivo de não prejudicar seu amigo Rabei Osman, o Egípcio.

Justificou, por exemplo, a linguagem críptica de suas conversas não como um indício de sua dedicação comum a atividades terroristas, mas como uma conseqüência da cautela que deviam tomar enquanto envolvidos em alguns delitos menores, como a falsificação de documentos, cometidos para poderem viajar pela Europa. Oulad admitiu que utilizou um passaporte falso, mas não para ocultar uma suposta condição de perigoso terrorista, e sim para poder chegar e estabelecer-se com mais facilidade na Inglaterra.

O interrogatório da promotora foi em alguns momentos parecido com esse jogo de rua que consiste em encontrar a bolinha embaixo de três tampas. Cada vez que se fazia uma pergunta aparentemente certeira, Oulad levantava a placa com sua resposta e parecia não haver nada embaixo. "Você disse ao Egípcio que seus amigos de Madri tinham morrido?", perguntou a promotora Olga Sánchez. Oulad respondeu que sim, mas que acreditou que tivessem morrido num acidente, e não se suicidando. "O que mais lhe contou?", continuou a promotora. "Que nossos amigos já estariam no paraíso."

Nesse momento os processados começaram a gesticular e o presidente Bermúdez pediu para a tradutora repetir a frase, porque os acusados faziam sinais negativos cada vez mais ostensivos. "Parece que o que a testemunha disse não corresponde à tradução", explicou Bermúdez. A intérprete repetiu então a pergunta, e esclareceu que Oulad dizia que o Egípcio expressou naquela ocasião o desejo de que Alá "os tivesse recebido em seu seio". Em suma, uma série de evasivas, mas aí estão as gravações e os originais para comprová-las.

Também depôs ontem Abdelkrim Besmail, com quem foi encontrado na prisão o endereço do terrorista do ETA Henri Parot. Besmail negou que essa nota lhe pertencesse. Compareceu também Hatem Ghanouid, amigo do Tunisiano, que relatou que poucos dias antes de suicidar-se em Leganés este lhe perdoou uma antiga dívida que vinha reclamando. É possível que o Tunisiano já tivesse decidido fazer uma viagem na qual não precisaria de dinheiro. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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