O futuro do castrismo: cinco heróis e um vilão "made in USA"

Fernando García
Em Havana

A crônica oficial de Cuba é escrita nestes dias com traços épicos. Cinco heróis locais e um vilão a serviço do inimigo do norte concentram o discurso cotidiano do governo e são o motivo principal das proclamações escolhidas para os enormes desfiles de 1º de Maio. A recente libertação nos EUA do suposto terrorista Luis Posada Carriles, que seria o autor intelectual do atentado contra um DC-8 da Cubana de Aviación que custou a vida de 73 pessoas, em outubro de 1976, afastou para planos remotos os demais lemas de caráter trabalhista e político que as autoridades pretendiam para a festa dos trabalhadores.

Os meios de comunicação oficiais não se cansam de lembrar como George Bush declarou que quem protege, esconde ou alimenta um terrorista também é um terrorista. Sob esse raciocínio, e levando em conta que Washington possibilitou ativa e passivamente a libertação de Posada, Havana considera que o próprio Bush é "um terrorista". Dói especialmente aos cubanos que o suposto assassino, fugitivo da justiça venezuelana, estivesse em prisão provisória não sob a acusação de terrorismo, mas por enganar as autoridades de imigração americanas. Caracas e Havana levaram o caso ao Conselho de Segurança da ONU.

Se Posada Carriles é o diabo, "os Cinco heróis" presos nos EUA são os santos de mais recente canonização na Cuba revolucionária. Trata-se dos cinco agentes cubanos detidos em setembro de 1998 e condenados três anos depois a penas duríssimas - incluindo quatro prisões perpétuas - num total de 26 acusações relativas a espionagem e, em um dos casos, conspiração para assassinar, relacionada à derrubada de dois pequenos aviões tripulados por anticastristas que violaram o espaço aéreo cubano. Segundo os réus e o governo cubano, a única coisa que os cinco fizeram foi obter informações para evitar a repetição de atentados como os que certos grupos terroristas de Miami haviam cometido na ilha.

À generosa iconografia dedicada aos Cinco, de tom cada vez mais humano e em apoio a suas esposas e filhos, o Centro de Imprensa Internacional acaba de acrescentar uma exposição de objetos relacionados a esses atentados contra Cuba. A mostra exibe armas e todo tipo de objetos utilizados para ocultar explosivos, assim como fotos dos detidos e explicações dos planos descobertos ou levados a cabo pelos anticastristas violentos.

A dupla exigência de que "Carriles volte à prisão" e os EUA "libertem já os Cinco" ocupará os principais slogans do 1º de Maio, quando centenas de milhares de pessoas desfilarão na Praça da Revolução em Havana. Mas a atenção dos cubanos está principalmente em se o comandante-em-chefe participará da marcha ou aparecerá na televisão nesse dia ou em horas próximas. Definitivamente, a saúde e o futuro de Fidel Castro continuam sendo o mais importante, o principal fator do que acontece e do que pode acontecer em Cuba

Ramón Cisneros, 36, cozinheiro e soldador: "Não há casas para todos"

"Em Cuba há problemas, não podemos fechar os olhos. Se dependesse de mim, haveria mudanças em tudo. Mas o sistema deve continuar igual." Ramón Cisneros é um de muitos cubanos que concordam com a continuidade do regime socialista, mas está ansioso por mudanças que melhorem sua vida. Cozinheiro de profissão e soldador de formação, sua história é um protótipo das gerações de havaneses nascidos depois do triunfo da revolução de 1959. Ele nasceu 12 anos depois. Da adolescência e da juventude tem duas recordações muito ligadas à revolução.

A primeira, quando ganhou a primeira bicicleta chinesa montada em Cuba, como melhor trabalhador na escola onde se aprendia e realizava a construção das bicicletas, com peças fornecidas pelo gigante asiático em virtude de um grande acordo para reduzir os efeitos da queda do movimento socialista na ilha. A segunda lembrança se refere às três vezes em que viu o comandante-em-chefe de perto: uma quando estava na escola técnica e as outras duas quando trabalhava como voluntário no hotel Meliá Cohíba, depois de 2000. "Fidel me impressionou. É um homem grande, inteligente."

Cisneros, que mora com a mãe no bairro de El Vedado, defende seu país "com capa e espada", mas reconhece graves carências em âmbitos tão essenciais quanto a moradia. "Não há casas para todos. Antes da revolução éramos 6 milhões e hoje, quase 13. Precisam construir mais", exigiu na mesma manhã em que o ministro da Economia, José Luis Rodríguez, assumiu o problema e salientou a necessidade de cumprir o objetivo de 100 mil novas moradias por ano.

Ramón tem outro desejo imperioso: "Quero sair, conhecer". Especialmente a Espanha. Os espanhóis lhe parecem "simpáticos... mas também há os arrogantes. Como aqui. Como em qualquer lugar", diz. A exigência de que Posada volte à prisão e os "Cinco" sejam soltos marca o 1º de Maio Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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