Economia brasileira resiste ao real forte e quebra recorde de entrada de capital estrangeiro

Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

Não há nada que detenha a economia do Brasil: nem o real nas nuvens nem os recentes casos de corrupção do Poder Judiciário ou a violência que assola São Paulo e Rio de Janeiro. No início deste ano o investimento estrangeiro superou todas as expectativas. E bateu um recorde istórico: em março o Brasil recebeu investimentos de US$ 2,778 bilhões de empresas com sede no exterior, o que representa 70% a mais que no mesmo mês de 2006.

A cifra, anunciada com estardalhaço pelo Banco Central, é a mais elevada desde 1947, ano em que a instituição começou a contabilizar a entrada de capital estrangeiro. Nos três primeiros meses do ano o volume total de investimentos de empresas com sede no exterior alcançou US$ 6,578 bilhões, 40% a mais que um ano atrás. Sem levar em conta os recursos estrangeiros que entraram durante as privatizações de 2000, o número de investimentos do primeiro trimestre de 2007 também é o mais elevado da história.

Altamir Lopes, chefe do departamento econômico do Banco Central, mostra-se mais que otimista: "Vêm mais investidores porque têm mais confiança. A economia, a inflação sob controle, o risco-país. Além disso, o Brasil está crescendo. Tudo favorece que os investimentos continuem fluindo".

Lopes afirma que o Banco Central trabalha com uma previsão de investimentos para abril de cerca de US$ 2 bilhões e para o ano todo de US$ 20 bilhões. Em 2006 o Brasil recebeu US$ 18 bilhões. Como se fosse pouco, as previsões de crescimento do Fundo Monetário Internacional para o Brasil são animadoras: 4,4% para 2007 e 4,2% em 2008.

A verdade é que, apesar de pequenas tempestades (como as ondas de violência ou a crise dos controladores aéreos que paralisou os aeroportos no início de abril), o Brasil caminha com passo firme e estável. Os esforços do governo Lula para controlar as variáveis econômicas estão surtindo efeito. As taxas de juros, que quase alcançavam 20% dois anos atrás, situam-se agora em 12,5%. A inflação continua caindo e no final do ano ficará abaixo de 4%. E o risco-país continua melhorando, atingindo níveis nunca vistos.

A conjuntura favorece que as exportações continuem de vento em popa. As transações correntes - que englobam a balança comercial, os serviços e a renda com o comércio exterior - registraram no primeiro trimestre um sólido superávit: US$ 1,69 bilhão. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) também está em seu máximo histórico: no início da semana alcançou 49.675,59 pontos.

O real, por sua vez, continua sua escalada diante das principais divisas mundiais. O dólar chegou a ser cotado esta semana a R$ 2,021, o valor mais baixo desde fevereiro de 2001. O Banco Central está aproveitando para comprar moeda estrangeira (em 2007 já comprou US$ 21,9 bilhões, mais que em todo o ano passado).

Mas existe uma preocupação generalizada sobre as dificuldades que o setor exportador brasileiro pode começar a sentir se o real continuar tão alto.

Antônio Corrêa, professor de economia da prestigiosa Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, adverte que se o real continuar se valorizando a economia correrá sérios riscos. "O Brasil não tem uma estratégia de atração de investimento estrangeiro. O país está no mapa pelo potencial que representa", afirma Corrêa. O Brasil enfrenta graves problemas como a burocracia, a alta carga tributária ou as infra-estruturas deficientes.

No último relatório apresentado no Fórum Econômico Mundial, que se realiza esta semana em Santiago do Chile, o Brasil aparece como segundo país mais interessante para se investir em infra-estruturas na América Latina, superado apenas pelo Chile. O Brasil registra, segundo o relatório, um índice de atração para investimentos privados em infra-estrutura de 4,4 sobre 7. O Chile consegue um índice de 5,43.

O documento destaca o esforço do Brasil para atrair investimento estrangeiro na construção de estradas e ferrovias para transporte de mercadorias. O ponto fraco do Brasil, segundo o relatório, é a estrutura legal para os investimentos, "excessivamente burocrática e preocupante". A queda das taxas de juros e da inflação, a estabilidade política e a febre do etanol fazem disparar a entrada de capitais no Brasil. Alguns analistas temem que o setor de exportação comece a acusar a alta do real Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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