Tony Blair, uma década em Downing Street

Rafael Ramos
Em Glasgow, Escócia

"Sei o que a história vai dizer de mim, porque eu mesmo pretendo escrevê-la", costumava dizer Winston Churchill, que tinha a vantagem de ser um homem renascentista com dom para a pluma assim como para a política. Tony Blair ganhará muitos milhões por memórias que serão redigidas por outros, mas hoje, ao se completarem exatos dez anos de sua chegada a Downing Street, daria quase qualquer coisa para ter essa capacidade de determinar seu legado e influir no julgamento das futuras gerações.

AFP 
Nos últimos 10 anos, Blair despertou fobias e paixões, assim como Margaret Thatcher

Blair e sua equipe de assessores de mídia sempre imaginaram que o líder sairia de surpresa, no auge de seu prestígio, como um boxeador que renuncia imbatível ao trono dos pesos-pesados, entre coroas de louro, editoriais na imprensa pedindo que ele continuasse e várias voltas no ringue. Mas, se uma semana é muito tempo em política, o que dizer de dez anos, e o roteiro foi escrito de outra maneira, com um final muito mais ambíguo. O adeus foi longo demais, inclusive para seus seguidores ferventes. Criou um parêntese de vários anos em um país acostumado a sucessões fulminantes e brutais, minou seu herdeiro Gordon Brown e está potencializando a oposição conservadora.

O primeiro-ministro britânico desperta fobias e paixões, assim como sua admirada Margaret Thatcher. Mas a realidade objetiva é que ganhou as três eleições que disputou, sai invicto e transformou seu partido na linha do SPD alemão, do PSOE espanhol e outras formações social-democratas européias, abandonando o marxismo e evoluindo para o centro.

Também deixa o Labour mergulhado numa crise de identidade e com a popularidade no chão, com menos intenções de voto do que nos tempos de Michael Foot, a ponto de ser massacrado nas eleições municipais e perder na Escócia pela primeira vez em mais de meio século.

"A história simplifica o julgamento dos políticos", diz o professor Magnus Sheridan, do Centro de Relações Internacionais. "Churchill é identificado com a Segunda Guerra Mundial, Roosevelt com o New Deal, Truman com as bombas de Hiroshima e Nagasaki, Johnson com o Vietnã, Nixon com o Watergate, Thatcher com a 'poll tax'. E no caso de Blair, por mais que lhe desagrade e pareça injusto, seu nome estará sempre associado ao Iraque."

O Iraque, admitem até os mais ardentes blairistas, foi um desastre tão descomunal que eclipsou muitas de suas conquistas, mas seus defensores alegam que seria injusto reduzir o balanço de dez anos somente à guerra, ignorando a prosperidade econômica da Grã-Bretanha, os esforços para combinar uma economia de mercado com justiça social, o investimento maciço em educação e saúde sem necessidade de aumentar os impostos diretos, o estabelecimento de um salário mínimo, a independência do Banco da Inglaterra na definição das taxas de juros, a autonomia de Gales e Escócia, o processo de paz na Irlanda do Norte, a luta contra a pobreza infantil, a cultura da dependência do Estado e o comportamento anti-social.

"Uma década no poder tira o brilho de qualquer um", opina Miranda McConnell, do Partido Trabalhista Escocês, "mas é preciso dar crédito a Blair por ter-se transformado em uma referência internacional na qual se inspiram desde Angela Merkel na Alemanha até Ségolène Royal e Nicolas Sarkozy na França, de ter transformado a cultura política do país e imposto a meritocracia às custas do classismo, de que a sociedade britânica é hoje mais moderna que dez anos atrás, os homossexuais desfrutam da igualdade de direitos, impera um clima de tolerância apesar do terrorismo islâmico e a maioria das pessoas vive melhor."

Seus detratores, que aumentaram com o passar do tempo, são muito mais severos. "Blair é um ótimo sujeito e um magnífico político, homem de família, educado, crente, excelente orador e capaz de formular qualquer idéia de modo brilhante", afirma Clarence MacPherson, do Instituto para a Reforma e o Progresso. "É uma pena que o rapaz tenha se revelado um mentiroso..." Mais que a guerra do Iraque em si, o que prejudicou a imagem do primeiro-ministro são as manipulações para convencer seu partido e a opinião pública de que Saddam constituía uma ameaça iminente, e o escândalo da venda de títulos de nobreza em troca de contribuições ao partido, apesar das promessas de que o Labour seria "mais puro que a neve".

Durante sua década em Downing Street, Blair impôs o pragmatismo sobre a ideologia, tomando emprestadas coisas da esquerda e da direita, adaptando-se às preocupações dos grupos de eleitores que decidem as eleições (as famílias dos subúrbios e as classes trabalhadoras, receosas dos imigrantes), combinando dinamismo empresarial com "ajustes sociais" para atender aos menos privilegiados. É o que foi batizado de terceira via em um país que tem muito assumida a flexibilidade trabalhista e o império sacrossanto das leis de mercado, mas também a existência de um Estado do bem-estar forte, que serve de "pára-quedas", e do qual faz parte integral - diferentemente dos EUA - uma saúde universal e gratuita.

"Blair é o político mais europeísta que a Grã-Bretanha teve em muito tempo", dizem McConnell e outros defensores do primeiro-ministro. "Estava disposto a apostar tudo em um referendo sobre o euro, mas então saiu o 'não' à Constituição na França e na Holanda e ele se salvou pelo gongo. O complexo de inferioridade em relação a Paris e Berlim desapareceu. Sua filosofia consiste em um intervencionismo liberal que mereceu excelentes críticas em Kosovo, Serra Leoa e inclusive no Afeganistão, mas deu errado no Iraque. Algumas vezes se ganha, outras se perde."

A acusação mostra-se muito menos condescendente. "No fundo, Blair revelou-se um neoconservador britânico que se derretia só de olhar para Bush e seus amigos milionários, e um thatcherista empedernido, disposto a privatizar qualquer coisa que aparecesse à sua frente", diz MacPherson. "As liberdades individuais foram massacradas sob o pretexto do terrorismo. Sua gestão econômica e social é uma montanha de oportunidades perdidas e dinheiro desperdiçado. O investimento em saúde e educação deveria ter produzido resultados muito mais espetaculares. Dez anos depois, os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres. Os grandes líderes não são os que falam bonito, mas os que desafiam o status quo e mudam a sociedade. O blairismo não é uma ideologia, mas uma simples técnica para ganhar eleições inspirada no culto à personalidade. O Labour está no poder, mas perdeu sua alma."

Blair teve sua guerra, assim como Churchill. Mas o Iraque não é uma aventura da qual se possa orgulhar, e sim o maior desastre da política externa britânica desde Suez. E o primeiro-ministro, embora por pouco tempo, sopra as velas de seu aniversário e cruza os dedos para que a história, quando for escrita, seja magnânima em seu veredicto. Tony Blair completa hoje dez anos como premiê, envolto na crise de identidade que sofre o Partido Trabalhista. Blair desperta fobias e paixões na sociedade britânica, criou a terceira via tomando emprestadas políticas da direita e da esquerda Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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