Toquinho, músico brasileiro: "Dizer não é o que dá contorno à sua vida"

Ima Sanchés

Tenho 60 anos. Nasci e vivo em São Paulo. Depois de 22 anos de casamento me separei. Tenho dois filhos, Pedro, de 22, e Jade, de 14, e uma namorada. As ideologias estão impregnadas dos interesses pessoais de seus defensores. É utópico pensar em um governante que defenda os interesses do povo. Creio em tudo o que não entendo e respeito os mistérios.

Folha Imagem 

Toquinho - O ser humano tem de brilhar em qualquer coisa que faça.

La Vanguardia - Isso é ser muito exigente...
Toquinho -
Estamos neste mundo para fazer o bem aos outros e a nós mesmos. Nascemos para fazer amor, ter filhos, comer uma boa comida, ter satisfações. Estamos aqui para brilhar.

LV - Onde é preciso exigir?

Toquinho -
Brilhar é o grande desafio de todos os dias. O jogo começa sempre hoje, a vida começa hoje, essa é minha norma e meu desafio.

LV - Então deve estar cansado.

Toquinho -
Eu me vigio diariamente para viver minha profissão como um principiante, e isso me dá vontade de subir num palco. Estou sempre começando. A partida para mim está sempre zero a zero.

LV - Você vive numa casa fortificada, cercada de violência. Como suporta isso?

Toquinho -
Nosso alto grau de analfabetismo se reflete em nossos políticos. Lula tem uma aceitação de 48% depois de tudo o que fez, pergunte por quê.

LV - Por quê?

Toquinho -
Calaram o povo com míseras subvenções, mas as reformas foram a favor das grandes forças econômicas. Os pobres se identificam com Lula, um homem que mal sabe falar e sem estudos. Pensam que, se ele chegou lá, todos podem chegar. Enquanto isso, os marginais não têm estudo, mas sim pistolas, e têm nossa vida em suas mãos.

LV - Quantas vezes isso lhe aconteceu?

Toquinho -
Três, para roubar meu relógio. Toda a minha família tem carro blindado. Tenho três amigos que ficaram em cadeira de rodas porque saíram com o carro enquanto eram ameaçados e o sujeito disparou. Essa possibilidade é alta em São Paulo, mas no Rio é pior.

LV - Você colabora com alguma causa para reduzir essa tragédia?

Toquinho -
Ajudo muitas entidades fazendo shows beneficentes e sou padrinho do projeto Guri para adolescentes presos e meninos de rua, que são organizados em orquestras e corais. Creio que o esporte e a música são uma solução para recuperar essas crianças.

LV - E você, como combate um dia ruim?

Toquinho -
Estou convencido de que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.

LV - Não entendo a nuance.

Toquinho -
A vida é uma merda, mas lhe dá armas para lutar se você quiser. A vida é feita para fazer sofrer continuamente, o dia todo. Você acorda e enfrenta suas dores físicas e psíquicas, o cotidiano é terrível, mas aí está o desafio, tirar algo bom disso em qualquer situação. Viver é uma grande luta, mas a vida lhe dá armas.

LV - E quais são as suas?

Toquinho -
Se uma situação tem 10% de possibilidades boas, eu me agarro a elas. Tento estar sempre começando o jogo e fazer uma saborosa limonada com um limão. Isso representa um treinamento cotidiano, e eu treino todos os dias.

LV - Por onde começa?

Toquinho -
Por dar valor às coisas que tenho. Uso muito a razão e tento equilibrar o sentimento. Quando nasceu minha filha, eu quis fazer uma canção para ela, mas demorei dois anos porque tinha um medo terrível de cair no conselho.

LV - Entendo.

Toquinho -
Finalmente, cheguei a um estribilho com o qual concordo:
"Proteja da razão seus sentimentos, mas use a razão para que os sentimentos não tenham proporção irracional".

LV - Bom conselho.

Toquinho -
Creio que tudo na vida é uma questão de equilíbrio. Cada vez que me deixei levar pelos sentimentos e fui impulsivo, me arrependi. A emoção nos causa muito dano; se você está emocionado por tocar, toca pior. Tem de saber controlá-la, e todo esse difícil jogo se chama equilíbrio.

LV - Porque o equilíbrio é para equilibristas.

Toquinho -
Todos os dias faço auto-análise. Basta ter coragem para se ver como a gente é e ver os outros como são, com todos os seus defeitos. É preciso ter poder de enfoque, essas coisas eu aprendo todos os dias e as trabalho.

LV - Com quais situações mais aprendeu?

Toquinho -
Com as boas e com as perdas, mas que não considero situações ruins, e sim aprendizagem. Quer dizer, não admito ter situações ruins. Crescer para mim é não cometer os mesmos erros. Erros a gente sempre comete; mas o mesmo não, por favor!

LV - Você se protege?

Toquinho -
Tudo é uma questão de probabilidades, a segurança não existe, mas tento ter as probabilidades a meu favor. Eu me protegi o suficiente para desfrutar a vida; por exemplo, não me expus a relações complicadas. Quanto às perdas, as trabalhei.

LV - Você vem da música clássica.

Toquinho -
Sim, mas para aprender, para saber como eles faziam. Creio que a parte mecânica tem de ser bem aprendida para poder ser esquecida. Eu estudo todos os dias de uma forma mecânica, assistindo à televisão faço escalas e depois, quando subo ao palco, eu brinco.

LV - Deve-se trabalhar o talento?

Toquinho -
Creio que na vida o talento ocupa uma pequena parte. É preciso saber aproveitar os momentos de sorte, ter um bom caráter para conviver com os outros, saber situar-se... Tudo muito difícil, mas é o que faz uma carreira. E nunca fechar portas.

LV - A que se refere?

Toquinho -
Em 43 anos de carreira, muitas vezes me ocorreu que o fato de ter tratado bem alguém 20 anos atrás me repercutiu hoje.

LV - É preciso ser amável...

Toquinho -
Sem chegar ao extremo daquele poeta francês: "Por delicadeza perdi minha vida". Digo com muito mais freqüência não que sim, porque é o não que dá contorno à sua vida.

"Tento desfrutar muito"

Quando começou a tocar com o patriarca da bossa nova, o poeta Vinicius de Morais, já era muito Toquinho, embora Vinicius o tratasse como um menino - um tinha 54, o outro 23. Estiveram juntos dez anos, "ele era um grande poeta e eu estive à altura. Mas antes da música vinha a amizade, a vida antes da música". Essa filosofia da vida para a frente não significa o total abandono, mas a busca do equilíbrio, o esforço para ser amável, impor limites e refletir. Exercícios que, junto com o estudo diário do violão, transformam Toquinho em um personagem que não parece se estressar diante de quase nada. "Eu tento desfrutar muito, e a música é uma conseqüência da minha vida." Prazer que contagiou no concerto do 18º Festival de Guitarra de Barcelona. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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