Chirac baixa o pano de seu longo reinado

J. Ramón González Cabezas
Enviado especial a Paris

Jacques Chirac votou no domingo (6/5) pela última vez como presidente em exercício. O fez discretamente no povoado de Sarran, coração do feudo familiar em Corrèze (centro da França), acompanhado de sua inseparável Bernadette e equipado de seu invencível sorriso de conquistador a toda prova.

AFP 

Ajudado por um patrimônio pessoal de 1,4 milhões de euros e pela generosidade dos herdeiros do ex-presidente libanês assassinado Rafic Hariri, o casal se instalará provisoriamente a partir do próximo dia 16 em um luxuoso duplex de 180 metros situado à margem do Sena em plena Rive Gauche, com vista para o Louvre. Eles só têm mais 12 dias de permanência no Eliseu, depois de 12 anos como inquilinos do palácio da Rue du Faubourg Saint-Honoré.

Chirac já estava no poder como secretário de Estado do Emprego durante a revolta de maio de 68, por isso figura amplamente no legado que Sarkozy se dispõe a encerrar definitivamente. Um mês depois de cessar suas funções, segundo prevê a Constituição, Chirac se transformará em cidadão comum para todos os efeitos. Isso ocorrerá em 16 de junho, casualmente às vésperas do segundo turno das eleições legislativas que deverão formar a nova maioria presidencial. A partir de então, Chirac poderá ser convocado pelos juízes por conta de alguns processos nos quais se envolveu por seu passado como presidente-fundador do desaparecido RPR e prefeito de Paris.

O ainda presidente ficou a salvo dos juízes graças ao estatuto de imunidade que protege o chefe de Estado da justiça comum e o exime praticamente de toda responsabilidade penal. O caso mais ameaçador se refere aos empregos fictícios de quadros do RPR às custas da Prefeitura de Paris. É possível, porém, que seu sucessor no Eliseu promova um inquérito parlamentar para poupá-lo do calvário de um processo.

Aos 74 anos e ainda com um porte impecável, apesar do derrame cerebral que sofreu em setembro de 2006, Chirac tomará assento como membro de pleno direito no Conselho Constitucional. Já no âmbito privado, o septuagenário com mais anos e grau de atividade nos salões do poder da França empregará a maior parte do tempo em seu projeto de fundação para questões ambientais. É a última de suas grandes bandeiras como político, já que é notório o discreto e variável acervo doutrinário de Chirac.

Sua trajetória política de 40 anos confirma seu perfil de dirigente impelido pela ação e a conquista do poder, e nem tanto pelo debate de idéias. Em sua fase estudantil, Chirac chegou a distribuir o jornal comunista "L'Humanité", para depois se forjar na Sciences Po e na elitista ENA (Escola Nacional de Administração) como um dos novos jovens tecnocratas a serviço do Estado.

Desde que a conheceu em 1945 e a desposou em 1956, a carreira de Chirac está ligada à sua onipresente e influente Bernadette, que no livro "Conversations" (ed. Plon, 2001) confessou suas atribulações diante da copiosa crônica amorosa do marido.

Chirac, que iniciou sua biografia em 1962 sob a presidência de Pompidou e obteve seu primeiro cargo em 1967, como secretário do Emprego, demorou quase 30 anos para atingir o cume do Estado. E até seus admiradores sempre o consideraram um homem agitado e apressado. "Chirac? Ufa, dez minutos, incluindo a ducha", reza a imagem apócrifa atribuída a uma de suas conquistas femininas. Depois de ser primeiro-ministro de Giscard, a era Chirac começou em 1977, ao se transformar no primeiro prefeito eleito de Paris, onde em 18 anos levantou um Estado dentro do Estado, à espera do grande salto. Hoje é o fim da história. Depois de 12 anos no poder, o presidente se transformará em cidadão comum e sujeito à Justiça em meados de junho. A era do fundador do RPR começou quando se transformou no primeiro prefeito eleito de Paris Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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