Terra de homens

Félix Flores
Enviado especial a Herat

O Afeganistão é uma terra de homens. Eles ocupam as ruas das cidades e dos povoados construídos de barro; apertam-se as mãos e se beijam, mas não podem admirar o rosto de uma mulher que não pertença à própria família. Mas esses homens assistem absortos às novelas indianas na televisão, onde mulheres expostas cantam e dançam.

O canal Tolo TV, criado pelos irmãos Mohseni ao voltar da Austrália, transmite videoclipes e, embora costume colocar uma nuvem sobre o que do ponto de vista afegão são decotes indecentes, está causando frisson. Um dia desses, os garçons ociosos do café As Mil e Uma Noites - um esplêndido mirante sobre a cidade de Herat - viam na televisão uma deputada dando uma bronca fenomenal. No Parlamento afegão há 10% de mulheres, e a deputada apenas cobria seu cabelo com um lenço preto.

Quando os taleban foram expulsos de Cabul, o Ocidente esperava ver as mulheres livres da burqa, como divulgava a propaganda dos EUA. Ela já não é obrigatória, mas continua sendo vista, ao lado de outros tipos de véus islâmicos (jihab). É verdade que Cabul não é o Afeganistão, mas a capital é o motor das mudanças, e ali a situação da mulher melhorou um pouco.

No que diz respeito a elas, tudo ocorreu por reação na arcaica sociedade afegã. O rei Amanullah (1919-29) levanta o véu, que é reimposto por Nader Sha (1929-33) e combatido pela rainha Homara, mulher de Zahir Sha (1933-73). Em 1959, o primeiro-ministro Daud Khan suprime a burqa, e nos tolerantes anos 70 as mulheres de Cabul vestem calças e saias curtas. As mulheres que trabalham no campo usam, e continuam usando, uma espécie de xale sobre a cabeça, com o qual cobrem o rosto quando convém; a burqa - uma invenção urbana - seria para elas apenas um estorvo. Os comunistas põem as mulheres para trabalhar, e estudar nas universidades.

Mas a luta contra a dominação soviética acaba com tudo isso. A ativista Soraya Pakzad indica o erro ocidental de atribuir todos os males aos taleban. "Os mujahedin promoveram o jihab, inclusive deixando à vista só os olhos. Isso foi muito difícil para aquelas que haviam crescido usando saias ou calças. Na época dos russos, na faculdade de medicina de Cabul havia mais mulheres que homens, praticamente em igualdade. Agora a diferença é enorme."

A reação ao desastre provocado pelos comandantes mujahedin - uma guerra civil que arrasou o país - trouxe consigo o islamismo deformado dos taleban. Agora "há temor de que a presença internacional mude a sociedade", diz Josep Zapater, 38 anos, de Barcelona, o oficial de proteção aos direitos humanos do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur) em Herat. "As mudanças têm de sair da própria sociedade afegã", afirma. E não será à base da Tolo TV, mas da educação de mulheres e homens.

"Cerca de cem mulheres são queimadas vivas por ano", explica Zapater. "Muitas estiveram no Irã, refugiadas ou emigradas com suas famílias. O Irã é uma sociedade mais aberta que o Afeganistão, e muitas se acostumaram a abrir a boca. Aqui o marido não permite. Muitas não sabem que são infelizes nem que podem deixar de sê-lo, e por isso o contato com a vida no exterior provoca nelas uma crise. A sociedade de Herat sempre foi muito culta, muito literária, mas muito conservadora."

Neste país que um jovem afegão define como "a mãe de todos os problemas", o chefe da missão da Acnur explica o que faz em Cabul quando se deprime: "Me levanto às 6 da manhã para ver os milhares de meninas que vão para a escola. Embora não em todas as partes do país, cerca de 6 milhões de meninas voltaram à escola no Afeganistão".

Identidades

Soraya Pakzad, 36, diretora da ONG A Voz das Mulheres em Herat: "As meninas levavam livros embaixo da burqa"

Tudo deve ir devagar. Soraya Pakzad tem seis filhos. Sua primeira filha está prestes a se casar; a segunda, de começar a universidade. A noiva mal conhece o noivo: concordaram em reuniões, falaram-se por telefone. Não se rompe a tradição assim de repente. Pakzad dirige um refúgio para mulheres maltratadas - acolheu cerca de 30 - e arriscou a própria vida dando aulas para meninas na época taleban. "Quando começou a guerra com os russos, os mujahedin destruíram as escolas.

Disseram que as meninas iam aprender coisas não-islâmicas. Mais de 2 mil professores foram assassinados: a diretora da minha escola, Hafifa Berea, na minha frente; o irmão de minha companheira de escola, que tinha 12 ou 13 anos... Depois, com os taleban, as meninas iam a escolas secretas com os livros embaixo da burqa.

"Eu montei uma em minha casa, e em dois anos tive 25 meninas. Eu contei para algumas amigas e elas fizeram o mesmo. Mas em 1998 os taleban descobriram as escolas secretas. Quando olho para trás, penso que poderia ter acontecido algo comigo ou minha família... Não havia nenhum respeito pela dignidade humana. Meu marido é muito aberto, é um homem instruído, e a única pessoa que me apoiou.

"Às vezes penso na diferença da época da guerra contra os russos. Os mujahedin são os mesmos que estão no poder. Na época receberam dinheiro dos EUA para destruir escolas, e agora recebem para construí-las. É como um jogo. Se então se tratava de atacar diretamente a Rússia, agora, como se chama isto? Quero saber. Os EUA controlam as prisões, mandam as pessoas para Guantánamo..."

Pakzad ajeita o xale para a foto. "As mulheres estão confusas sobre o uso do jihab. Um lenço é jihab, ou é preciso usar burqa? Não se explicou o significado, não existe uma peça que seja claramente afegã." A situação das mulheres é o termômetro das mudanças na sociedade afegã Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos