Eleições legislativas na Argélia: poder islâmico controla os jovens vendedores ambulantes

Carla Fibla
Enviada especial a Larbaa

"O Estado demite, o Grupo Salafista de Pregação e Combate (GSPC) recruta. O Estado não paga e o GSPC paga em dinheiro", diz o jornalista argelino Facial Oukaci, especialista em islamismo e terrorismo, na redação do jornal 'L'Expression'.

As comparações feitas por Oukaci, baseadas na preocupante situação de mais de 500 mil vendedores ambulantes na Argélia, ganham peso quando se observa o número de jovens que passam o dia sem fazer nada, conversando com os amigos ou tentando ganhar a vida com a venda de tabaco, amendoins ou frutas. Dos jovens argelinos entre 17 e 30 anos, 75% estão desempregados, uma situação estagnada há anos diante das promessas eleitorais não-cumpridas e repetidas nos últimos dias.

Em Larbaa, a 30 quilômetros a sudoeste de Argel, Fathi, de 19 anos, tem uma banca de amendoins e bolachas. Ganha entre 300 e 400 dinares (3 ou 4 euros) por dia. "Quando a polícia vem é preciso recolher tudo rapidamente e procurar outro lugar", explica com calma, diante de uma montanha de amendoins e utensílios nos quais mede a quantidade que vende por um dinar. Não fala de terrorismo, nem da tentação em que caem os jovens em situação semelhante à dele. "Eu fico em casa quando tenho tempo livre. Nunca me ofereceram para entrar num grupo", explica.

Ele se refere ao sistema de recrutamento dos radicais islâmicos entre os vendedores ambulantes. "Eles propõem uma primeira operação: matar um policial por cerca de 500 euros. Quando o fazem, são considerados agentes latentes e não costumam voltar a atuar até um ano depois; protegem suas famílias e os ajudam a montar um pequeno negócio. Em troca, quando forem chamados para efetuar outro ato terrorista, não podem negar. É um investimento humano", explica Oukaci.

Kamal, acomodado em sua barraca de amendoins, tabaco e chocolates, observa o trânsito escasso na avenida principal de Larbaa. "Se tiram a banca onde os jovens ganham a vida, não resta nada para eles e podem cair no crime", salienta. Os rapazes que fazem companhia a Saharadin, um vendedor de cigarros avulsos e 'chema' (tabaco para mascar), têm a mesma opinião. "Antes que a polícia chegue nos avisam. Não temos problemas com as autoridades, mas é preciso estar atentos", comenta Saharadin, resumindo as palavras de seus colegas.

Todos desejam conseguir um visto para a Europa, para encontrar os parentes que estão lá e os mantêm economicamente. Os terroristas suicidas dos atentados do último 11 de abril em Argel vinham desses bairros populares da extensa capital do país. Entre Baraki e Larbaa, as ruas sem asfalto ou serviços básicos preparam, segundo Oukaci, dezenas de possíveis futuros militantes islâmicos radicais.

Há 11 anos o primeiro grupo de 3.000 terroristas arrependidos do Exército Islâmico de Libertação (EIS, antigo braço armado da Frente Islâmica de Salvação) se reinseriu na vida civil. Em 2000 outros 2.500 fizeram a mesma coisa e recentemente, no programa Carta da Paz e Reconciliação Nacional, mais 2.700 abandonaram as armas. Ao todo, entre 8.000 e 10 mil terroristas deixaram a rebelião, confiando em recuperar a vida anterior à guerra civil.

Mas segundo o Ministério do Interior continuam ativos entre 800 e 1.000 radicais islâmicos. A maioria se encontra na região de Cabília. O governador de Argel decretou no início do ano uma medida que proíbe o comércio ambulante, mas em vez de criar novos mercados onde os jovens pudessem ganhar a vida não ofereceu qualquer alternativa. "Os vendedores ambulantes fazem milagres para sobreviver. Se impedirem que eles exponham sua mercadoria, terão de pensar nas conseqüências", afirma Oukaci, que há muito tempo adverte que a situação é o caldo de cultivo do terrorismo.

"Atualmente a força do islamismo está em que cada dia há islâmicos moderados que devido às duras condições de vida se transformam em radicais", afirma o jornalista. Além disso, os jovens consultam a Internet para se integrar na resistência armada iraquiana. "A polícia argelina detém entre dez e 12 pessoas por mês que planejam ir para o Iraque ou que voltam para lutar a jihad no Magreb."

A força que a Argélia adquiriu ao se transformar na base da Al Qaeda do Magreb chega aos jovens desesperados diante de um futuro cada vez mais negro. "A Al Qaeda é como a Coca-Cola. Quem não sonha em fazer parte dessa grande companhia de bebidas americana?", compara Oukaci.

Identidades: Mohammed Larbi Ziout, 53 anos, membro do Rachad

Mohamed Larbi Ziout faz parte de um movimento social ativo, o Rachad, inspirado na revolução laranja da Ucrânia, que pretende mudar a situação de 'estagnação' da Argélia. Seus membros se comunicam especialmente pela Internet (www.rachad.org). Esse grupo de argelinos no exílio pretende regressar a seu país, mas acredita que só poderá fazer isso quando a situação evoluir para uma "verdadeira democracia".

Os fundadores do Rachad emitiram um comunicado há apenas um mês com os princípios básicos da organização, que pretende se transformar no maior defensor da sociedade civil no exterior. Ex-diplomatas, ex-membros da Frente Islâmica de Salvação e cidadãos independentes se comprometeram a divulgar outras vozes argelinas.

Ziout é um ex-diplomata argelino que se demitiu em 1995, denunciando a violação de direitos humanos e a situação "à deriva na qual mergulhou o poder argelino desde o golpe de Estado de 1992". Pai de quatro filhos, vive exilado, como os outros fundadores do Rachad.

Em uma conversa telefônica do Reino Unido, ele se nega a dar um contato do movimento em Argel, "por razões de segurança". "A Argélia está numa espécie de guerra há 15 anos porque o regime combate a oposição", afirma. "É preciso abrir os debates à sociedade porque a Argélia está entre dois poderes extremos: o islamismo e o regime", explica Ziout. E acrescenta: "Nosso país é muçulmano e é preciso conseguir um casamento entre a democracia e o islamismo".

Sobre as eleições da quinta-feira, afirma que "não são reais" e nem sequer merecem um boicote. "Enquanto a Argélia continuar seqüestrada pelos generais, a sociedade civil não poderá escolher o governo que quer", declara. Terreno fértil para o radicalismo islâmico, a Al Qaeda propõe aos camelôs uma primeira operação: matar um policial por 500 euros Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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