O massacre de Madri: islâmicos deixaram um rastro de DNA

José María Brunet
Em Madri

O DNA mudou a criminologia. Fatos que antes teriam ficado impunes agora podem ser atribuídos a pessoas concretas. Contra uma prova de DNA cabem apenas álibis, porque a margem de erro é ínfima. Se na cena de um crime aparece o DNA do suposto assassino, é quase como se a polícia tivesse uma foto da agressão. Ou até melhor, mais contundente. Uma fotografia pode ser manipulada. O perfil genético, por sua vez, é um rastro realmente indelével, que transformou a impressão digital e a lupa de Sherlock Holmes em objetos de artesanato policial.

A 40ª sessão do julgamento do 11 de Março [atentados terroristas em Madri] na última terça-feira (22/5) foi, nesse sentido, um verdadeiro curso prático sobre as contribuições da genética à criminalística moderna. Há tempo a ciência contribui com dados muito relevantes para orientar investigações complexas, mas o DNA significa que agora há casos que podem ser resolvidos sem sair do laboratório. Um gorro, por exemplo, pode conter a lista completa de um comando terrorista. Basta que ele tenha sido utilizado por vários membros, apesar de a marca genética ser mais precisa no caso do usuário habitual.

O presidente Bermúdez e alguns advogados se apaixonaram pelo tema. Começaram a perguntar aos peritos com a curiosidade de adolescentes diante da linguagem dos golfinhos ou os paralelos entre o radar e a habilidade dos morcegos para voar na escuridão emitindo ultra-sons. Seu fascínio é compreensível. As identidades dos homens-bombas de Leganés, por exemplo, são conhecidas por meio dos testes de DNA. Seu perfil genético foi encontrado em todo tipo de objetos recuperados, desde o citado gorro até um aparelho de barbear.

Os cadáveres estavam irreconhecíveis, despedaçados. Os sete islâmicos haviam vestido cinturões com explosivos. Alguns de seus restos apareceram na piscina da chácara. Se hoje sabemos com certeza científica quem tirou a própria vida naquele apartamento ao sul de Madri é por causa dessas provas, embora haja outros dados, como os telefonemas de dois suicidas para seus parentes no Marrocos e na Tunísia para anunciar sua morte iminente. E também se descobriu assim, com provas científicas, hábitos chocantes: o DNA de Rabei Osman el Sayed, o Egípcio, por exemplo, apareceu em sua escova de dentes junto com os de outras pessoas.

A informação concreta sobre cada identificação está no processo. Na terça-feira os especialistas limitaram-se a ratificar suas conclusões e explicar suas técnicas. O tribunal deverá rever com grande atenção, portanto, a lista de peças recuperadas e sua atribuição a cada integrante do comando. Mas o material acumulado é enorme.

Os islâmicos deixaram um rastro de DNA em todas as cenas do 11 de Março, na caminhonete Kangoo recuperada em Alcalá de Henares, na chácara que alugaram em Morata de Tajuña - onde foram montadas as mochilas-bombas -, em um apartamento que usaram em Granada e nos objetos que alguns processados abandonaram depois em vários lugares próximos às estações. Por exemplo, em um prédio em construção. Ali um dos islâmicos entrou para trocar de roupa. Acreditou estar só. Mas, como já se encarregou de demonstrar Alfred Hitchcock em "Janela Indiscreta", nunca estamos sós. Sempre há alguém olhando.

Nesse caso a testemunha foi o vigia da obra, que recolheu as roupas deixadas pelo suspeito e chamou a polícia. Como o porteiro da chácara de Alcalá, que encontrou a caminhonete. Essa testemunha estranhou os casacos e os capuzes dos desconhecidos que passaram diante de sua porta às 7 da manhã de 11 de março. Sua estranheza se deveu ao aspecto daqueles transeuntes misteriosos, pois não fazia tanto frio para estarem tão agasalhados, e ao saber das explosões nos trens ele ligou os pontos. Seus depoimentos teriam sido incriminadores, mas menos que o DNA.

Enquanto isso, os 22 advogados de defesa denunciam que ainda não foram pagos. A justiça respondeu que em breve gastará nisso 420 mil euros. As provas sobre perfil genético são um grande dedo acusador contra a maioria dos processados. Os restos foram recolhidos em todo tipo de objetos, de gorros a aparelhos de barbear Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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