Congressistas e empresários americanos pedem em Havana o fim do embargo

Fernando García
Em Havana

O mundo do dinheiro se rebela contra o embargo a Cuba. Em contraste com a linha definida pela Casa Branca, congressistas e empresários americanos reunidos em Havana para assinar contratos de venda de alimentos no valor de mais de US$ 100 milhões estão fazendo ouvir sua voz contra as restrições ao comércio e às viagens de americanos à ilha. Até a luxuosa revista de fumantes de charutos "Cigar Aficionado", publicação nova-iorquina associada ao pessoal de Wall Street, clama contra o bloqueio em sua edição de junho, dedicada à maior das Antilhas.

Depois do fracasso político de 45 anos de embargo, "não é hora de tentar algo novo?", pergunta-se a publicação em seu próximo editorial. "Chega de desperdiçar nosso tempo e dinheiro perseguindo os fumantes de charutos", acrescenta.

O dinheiro é onde mais dói a todos, sem dúvida. "Estamos perdendo US$ 2 bilhões por ano por não ter livre acesso ao mercado cubano", queixou-se o presidente da Federação de Produtores de Arroz dos EUA, Marvin Det Mer, na abertura da rodada de negociações entre exportadores americanos e autoridades cubanas. Da rodada participam 265 empresários de 114 companhias e alguns políticos dos 22 estados que vendem alimentos à ilha.

Essas operações são possíveis porque o Congresso aprovou em 2000 uma exceção ao embargo para poder vender esses produtos. A decisão transformou os EUA no maior fornecedor de alimentos a Cuba, que desde então lhe comprou 7,8 toneladas no valor de US$ 2,343 bilhões. Um valor que "dobraria se não fosse pelas restrições", segundo o presidente da agência cubana de importação, Alimport, Pedro Álvarez. É que o ritmo das compras diminuiu desde 2005, quando o governo Bush dificultou esse comércio ao obrigar Cuba a pagar as mercadorias em espécie e adiantado.

"É preciso levantar o embargo e aumentar as oportunidades de comércio com Cuba. É importante para nós e para a ilha, dos pontos de vista econômico, político e social", disse em Havana Rosa DeLauro, congressista democrata e chefe da delegação de legisladores (outros dois democratas e dois republicanos) enviada a Cuba para apoiar os exportadores.

Desde que os democratas ganharam as eleições legislativas, os grandes produtores agrícolas dos EUA e seus parlamentares pressionam cada vez mais contra o embargo. Mas do outro lado da balança econômica e eleitoral que orienta as decisões da Casa Branca estão o exílio cubano e o grande capital da Flórida, que têm seu peso. Uma vez demonstrado que o embargo não basta para dobrar o regime cubano, os defensores de Bush em Miami afirmam que agora é tão importante ou mais mantê-lo, com vistas à transição que, em sua opinião, virá depois de Fidel Castro.

O que será mais decisivo para o futuro de Cuba? A morte de Castro ou o fim do embargo? Na ilha, não falta quem aposte no segundo.

Negócios, duplo moral e multas

Uma coisa é castigar Cuba e outra, perder oportunidades de negócio. Isso é o que devem pensar os empresários e profissionais americanos que votam contra qualquer relação comercial entre seu país e a ilha caribenha, enquanto mantêm seus próprios negócios com a ilha. A firma americana de tecnologia de petróleo PSL Energy Services acaba de pagar uma multa de US$ 164 mil por violar o embargo com suas "operações ilegais de exportação de equipamento para a indústria de hidrocarbonetos em Cuba".

A PSL foi comprada em abril pela multinacional Halliburton, à qual está ligado o vice-presidente Dick Cheney. Por outro lado, na quarta-feira soube-se que o advogado de origem cubana Ignacio E. Sánchez, co-fundador do grupo anticastrista Conselho para a Liberdade de Cuba, teve de se demitir quando se soube que representa os interesses de uma construtora francesa, a Bouygues Travaux, que faz grandes negócios na ilha.

Fidel desafia "George"

"George deve decidir o que pensa antes do G-8, incluindo a questão dos perigos que ameaçam a paz e a alimentação dos seres humanos. Alguém deve perguntar isso a ele. Que não tente escapar assessorado por seu amigo Blair." Assim terminam as últimas "Reflexões" de Fidel Castro, dedicadas novamente a Bush, ao qual desta vez chama pelo nome. Enquanto Bush insiste na linha-dura, produtores fecham negócios com a ilha e pedem o fim de um embargo que, apesar da exceção aprovada para certos produtos, faz com que eles percam milhões Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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