Outra guerra neste verão?

Henrique Cymerman
Em Jerusalém

A pergunta mais comum que se pode escutar ultimamente nas ruas de Israel e nos meios políticos e militares é se haverá ou não guerra este verão entre Israel, Síria e o Hizbollah.

Os diplomatas acreditados em Tel Aviv são interrogados com freqüência por seus governos sobre essa questão. A dificuldade em responder aumenta ao se revelar a mensagem secreta enviada pelo primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert, ao presidente sírio, Bashar el Assad. Por meio de líderes alemães e turcos, o dirigente israelense escreveu ao governante sírio: "Estou consciente de que um acordo com a Síria me exigiria devolver as colinas do Golã à soberania síria. Estou disposto a cumprir minha parte em prol da paz.

O senhor está disposto, em troca, a se desligar do Irã, do Hizbollah e das organizações radicais palestinas com sede em Damasco?" Já passaram várias semanas, Assad não respondeu e em Israel dizem que a bola está no telhado dele.

O primeiro-ministro israelense tinha recebido duas avaliações contraditórias da inteligência militar e do Mossad com relação às intenções sírias. A primeira recomendava tentar chegar a um acordo com a Síria, enquanto o chefe do Mossad, Meir Dagan, insistia que Damasco pretende realmente assinar a paz, e que todas as suas declarações a respeito são táticas. Olmert decidiu no final de abril verificar por sua conta quais eram as intenções de Assad, e segundo dizem hoje em Jerusalém se convence cada vez mais de que Dagan tem razão.

De todo modo, soube-se que o primeiro-ministro falou durante uma hora por telefone com o presidente americano, George W. Bush, em 24 de abril e obteve seu endosso para enviar a mensagem a Damasco. Olmert disse a Bush que decidiu verificar a via síria porque, em sua opinião, são poucas as possibilidades de avançar agora na frente palestina.

Todos temem que a guerra do verão passado entre Israel e as milícias xiitas libanesas do Hizbollah se repita neste verão, acrescentando uma nova frente: a sírio-israelense. Tanto em Jerusalém quanto em Damasco, as forças armadas temem ser surpreendidas e realizam simulações e manobras militares mobilizando milhares de reservistas.

Os serviços de inteligência israelenses e sírios declararam estado de alerta máximo e utilizam todos os meios para acompanhar com lupa o que ocorre do outro lado da fronteira. "Em uma situação como essa, o mais perigoso é que a guerra seja uma profecia que se realize, apesar de nenhuma parte ter interesse real no conflito bélico", afirma a "La Vanguardia" um coronel da força aérea israelense.

Por enquanto ocorre uma escalada de tensão na retórica. O chefe do Estado-maior israelense, tenente-general Gabi Ashkenazi, reconhece que Israel se prepara para uma eclosão de violência simultânea no norte (com a Síria e seus aliados do Hizbollah) e no sul em Gaza (com o Hamas). Ainda assim, acrescenta: "Espero que tudo fique em manobras militares".

O chefe da inteligência militar, general Amos Yadlin, disse à comissão de Defesa do Parlamento que "os sírios estão mais preparados que nunca para a guerra", mas que Assad não tomará a iniciativa porque sabe que "tem muito a perder".

O exército sírio treina seus efetivos na fronteira e mobilizou unidades de mísseis semelhantes às que o Hizbollah lançou contra Israel no ano passado.

Para compensar a fragilidade de sua força aérea, adquiriu mísseis russos Scud-D, que foram testados há poucos meses e têm um alcance de 700 quilômetros, e, portanto, cobrem quase todo o território israelense.

O temor israelense é que a Síria faça um ataque de surpresa para reocupar as estratégicas colinas do Golã. No Tsahal advertem que isso também poderia ocorrer como represália no caso de um ataque ocidental contra as instalações nucleares iranianas.

Na última terça-feira, o exército israelense efetuou no deserto de Neguev uma simulação de conquista de um povoado sírio, com participação de todo o Estado-maior israelense. Na quarta, o gabinete de Defesa israelense reuniu todos os especialistas em forças de segurança para discutir o perigo de um novo confronto bélico com a Síria. Olmert declarou: "Israel não deseja uma guerra contra a Síria, e é preciso evitar uma má interpretação que provoque uma explosão".

Mediadores europeus dizem que o regime do presidente Assad não pretende voltar a lutar. O ministro das Relações Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos (que no passado esteve diretamente envolvido em negociações), declarou a ministros israelenses que se Israel estiver disposto a se retirar do Golã a Síria poderia se desligar do Irã e das organizações radicais.

Segundo o jornal independente "Yediot Ahronot", Moratinos talvez seja o único ministro ocidental que mantém contato quase diário com Damasco e transmite mensagens entre os dois países.

O presidente sírio e o primeiro-ministro israelense realizam um jogo perigoso: os dois tentam ler mutuamente seus pensamentos e neutralizar suas possíveis manobras. Olmert está consciente de que existe um perigo real de confronto, já que o passado demonstra que às vezes basta um malentendido para que ecloda uma guerra. Por isso, com uma das mãos tenta acalmar a Síria e com a outra destaca que "o Tsahal saberá ganhar esta guerra".

Olmert e Assad têm várias coisas em comum: os dois chegaram ao poder por acaso. Assad, depois do acidente de carro de seu irmão Bassel; Olmert, depois do derrame cerebral de Ariel Sharon. E lutam por sua sobrevivência no poder: só 3% dos israelenses apóiam Olmert.

Em caso de guerra, Israel atacaria infra-estruturas sírias, o que poderia pôr em risco o regime de Assad, baseado na minoria alaui. Ambos temem o que pode acontecer neste verão. Mas no Oriente Médio o verão já chegou. Os nervos voltam a estar à flor da pele e o "jamsin" (dias em que o vento do deserto queima a todos) lembra cada vez mais ventos de guerra.

Comando palestino disfarçado de "imprensa"

Depois da infiltração em Israel -no sábado- de quatro membros de um comando conjunto da Jihad Islâmica e da Al Fatah, o chefe do Estado-maior israelense, Gabi Ashkenazi, recomenda ao governo ampliar os ataques do Tsahal em Gaza. Segundo ele, é preciso evitar uma grande operação terrestre.

O comando palestino cruzou a fronteira com um jipe no qual haviam pendurado cartazes dizendo "TV" e "imprensa". Seu objetivo era seqüestrar um soldado israelense. Um deles foi atingido pelas balas dos soldados e morreu, e os outros três conseguiram voltar a Gaza.

Em Gaza continua seqüestrado há um ano o soldado Guilad Shalit, transformado na principal carta de negociação dos palestinos para tentar libertar prisioneiros em Israel. O Tsahal acredita que os radicais palestinos constroem túneis para tentar se infiltrar em Israel. Síria e Israel se contatam em segredo, enquanto seus exércitos se preparam para um mútuo ataque de surpresa Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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