Indígenas da Patagônia lutam contra a Benetton

María-Paz López
Em Roma

A disputa entre os índios mapuche argentinos e a empresa têxtil italiana Benetton por terras na Patagônia evoca a história do peixe grande que se come em pequenos bocados, só que aqui também há um peixe médio, o Estado argentino, que há um século e meio entregou terras da região a imigrantes europeus sem pensar que os índios que ali viviam se sentiam proprietários do lugar por antigüidade, não porque constasse em um documento, e essa visão cósmica estava destinada a se chocar com a idéia de propriedade ocidental capitalista.

A última colisão começou em 1991, quando a Benetton adquiriu de uma companhia argentina em falência terras na Patagônia, nas quais cria ovelhas com cuja lã fabrica muitos dos artigos que lhe deram fama internacional.

Nesses terrenos ainda restavam algumas comunidades indígenas. Hoje a Benetton possui 9 mil quilômetros quadrados na região - superfície maior que a da província de Barcelona -, o que faz dela o maior proprietário de terras da Argentina.

O conflito, que nunca cessou, ganhou novamente destaque público na Itália na segunda-feira (11/6), com a publicação no jornal "Corriere della Sera" de uma carta aberta do escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel - prêmio Nobel da Paz em 1980 por sua defesa dos direitos humanos na América Latina - a Luciano Benetton, na qual o convida a entregar uma parte da terra à família mapuche Curiñanco, que em 2002 se instalou num prédio de Santa Rosa por considerá-lo terra de seus antepassados. O local, na província de Chubut, pertence oficialmente à Compañia de Tierras Sud Argentino, propriedade da Edizioni Holding, da família Benetton. Abriu-se assim uma peripécia judicial ainda em curso, sobre a qual vigiam ativistas indigenistas, e desde 2004 também Esquivel, que trocou várias cartas públicas com Luciano Benetton.

A última continha uma explicação do sentimento mapuche e apelava à responsabilidade das autoridades argentinas no problema. "Para os povos nativos, a Mãe Terra é Vida. Existe uma profunda e forte comunhão entre a 'gente da terra', como indica o próprio nome 'mapuche': mapu: terra; che: pessoa", escreve Esquivel. "É uma relação que tem a ver com uma visão de mundo diferente." Depois Esquivel lamenta "a falta de responsabilidade e as políticas provinciais e nacionais argentinas, que ignoraram os direitos dos povos nativos, apesar de serem contemplados em nossa Constituição".

Luciano Benetton respondeu na terça-feira a Esquivel com outra carta no mesmo jornal, na qual, em substância, argumenta que três anos depois de iniciada sua correspondência sobre a questão mapuche "não ocorreu o esperado envolvimento no diálogo das autoridades argentinas e das associações locais, porque esse é um problema histórico argentino que nasceu há 150 anos, e não com a chegada da Benetton". Benetton pede para distinguir entre o conflito com a família Curiñanco - a qual acusa de "ocupação ilegal", enquanto os Curiñanco acusam Benetton de "usurpação de território" - e o problema global dos mapuches.

Como indenização, Benetton doou 75 quilômetros quadrados de terras às comunidades mapuche, mas a província de Chubut as recusou, afirmando que não são adequadas para a agricultura ou para a pecuária, o que Esquivel lembra em sua carta. Benetton respondeu que as terras são adequadas e que o governador de Chubut as recusa por motivos políticos. O prêmio Nobel Adolfo Pérez Esquivel intercede por terras com presença indígena adquiridas pela firma italiana. A empresa têxtil está há anos mergulhada numa polêmica pelas terras compradas de uma companhia argentina para criar ovelhas e produzir lã Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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