O mito da beleza no século 21

Maricel Chavarría
Em Barcelona

Tecnologias e cirurgia plástica estão mudando a forma de entender o ser humano: não como um ser que nasce e se desenvolve, mas como um ser criado segundo seus próprios ideais - obtidos, é claro, na mídia e na sociedade de consumo. Esse é o diagnóstico da historiadora da arte e especialista em mídia-arte Claudia Giannetti. "A internet e a câmera do celular transformaram a forma de construir a realidade de cada um", afirma, "a ponto de mudar sua atitude: os atos em si se esvaziam de sentido e só se deseja ser gravado e exposto." Para a curadora e analista, o auto-erotismo é cada vez mais profundo. "Chama a atenção que a imagem que o espelho nos devolve seja distorcida pela própria percepção. Por isso muitas mulheres não percebem que a protuberância de plástico colocada na boca não funciona", acrescenta.

Com o século 21 e a era da imagem vem a perda do acesso direto à própria realidade, adverte Giannetti. Na opinião dela, a pessoa constrói sua identidade a partir da construção da mídia e, assim como na arte, toda a relação do espectador com a obra ocorre hoje através de uma interface (um meio tecnológico), o acesso à própria imagem é sempre mediatizado. De fato, a arte vive uma revolução: os conceitos de estética e ética são alterados na medida em que se absorve, por exemplo, a imagem violenta dos videogames.
Que olhar buscam as mulheres em sua corrida pelo ideal de beleza? Giannetti afirma que hoje se persegue mais a auto-afirmação e o autodesejo do que o olhar masculino. "Elas dizem que têm cada vez menos relações sexuais, e por isso esse elemento cirúrgico acrescentado ao corpo é um fator erótico que as supre. Sim, algo mudou em sua visão: interiorizaram o olhar masculino, mas não o social, senão o da mídia, e isso muda a relação consigo mesma e seu espelho. É um espelho mediatizado, filtrado pela mídia e a tecnologia."

A artista Orlan, conhecida por submeter seu rosto a sucessivas operações estéticas em busca da boca da Gioconda ou os olhos de Nefertiti, perpetra desse modo, segundo Giannetti, uma crítica brutal contra essa sociedade que baseia sua identidade na beleza física. Seu rosto é em partes reflexo de uma obra de arte, mas monstruoso no conjunto. Apóia-se nas teorias do feminismo e da psicanálise e na história da arte, mas também desperta o aplauso da crítica, que interpreta seu arriscado auto-retrato como uma celebração dos avanços médicos e culturais. Um ataque à idéia cristã de que o corpo é sagrado.

Seja como for, seu desempenho convida a uma revisão histórica da representação da mulher na arte. O universo masculino, baseado nas crenças sobre o amor e a morte, faz do corpo da mulher o campo de batalha entre Eros e Tanatos, entre o desejo e a destruição. Passiva e cativa como no romantismo, ou dominante e devoradora como foi mais tarde para os pintores simbolistas e decadentes, que passaram de sádicos a masoquistas, a mulher européia não conseguia superar o estado de boneca.

Dessas feridas do imaginário artístico masculino o corpo da mulher ainda não se ressarciu, e no tabuleiro do erotismo continua jogando nessa posição psicanalítica de objeto de desejo. De fato, Freud explicou o desejo erótico a partir da pulsão da morte. O desejo era sempre enigmático, algo que através do fetichismo tentamos velar. Décadas depois, Lacan acrescentava a isso que o fetichismo produz uma imagem que excita, ao mesmo tempo em que esconde a causa do desejo. E a causa guardaria relação com as crenças do próprio corpo.

O psicanalista Francesc Vilá o explica assim: "Para Lacan, a relação sexual não existe, é um mal-entendido que se constitui a partir dos próprios desconhecimentos. Portanto, muitas dessas modificações a que se submetem algumas mulheres responderiam a uma incorporação do fetiche ao próprio corpo. Talvez tentem pensar que agradarão a outros recuperando sua imagem de 20 anos atrás, mas gostarão de si mesmas. Ao outro é possível que o fato de beijá-las produza morbidez." O que vê a mulher no espelho: sua aparência real ou sua imagem em função do estereótipo que decidiu ser? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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