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21/06/2007
Crise na Fontana di Trevi

María-Paz López
Em Roma


A famosa fonte romana onde Anita Ekberg tomou um banho noturno diante dos olhos assombrados de Marcello Mastroianni parece próxima de uma crise aqüífera. A Fontana di Trevi - cenário, em 1960, da famosa seqüência de "La Dolce Vita", de Federico Fellini - apresenta ultimamente o aspecto de sempre aos turistas que nela atiram moedas na esperança de voltar à Cidade Eterna, só que a água é sempre a mesma: é reciclada num circuito fechado que, no máximo, pode suportar mais alguns dias. O motivo: um incidente rocambolesco, que deixa desorientados os técnicos da Acea, a companhia municipal de águas, interrompeu o abastecimento de água pura, cristalina, límpida que alimenta a fonte há mais de dois séculos.

Reuters 
Obras de um estacionamento subterrâneo bloquearam a passagem de água para a Fontana

Para avaliar a seca absurda em que poderá se precipitar a Fontana di Trevi, é preciso dar uma olhada nas profundezas da história. Na Roma imperial havia 11 aquedutos que abasteciam a urbe, dos quais só um era subterrâneo, o chamado Acqua Vergine (água virgem), pela pureza de seu líquido elemento.

Ser subterrâneo o salvou da triste sorte de seus dez companheiros, rigorosamente destruídos pelos bárbaros, e dos quais surgem destroços aqui e ali, fotografados com paixão pelos visitantes. O aqueduto da Acqua Vergine - cujo manancial foi encontrado em 19 a.C. - levava água ao Campo de Marte, e na metade do século 15, em plena Roma dos papas, começou a abastecer o bairro Trivio, hoje Trevi. Ali foi inaugurada em 1762 a Fontana di Trevi, alimentada pelas águas virgens desse aqueduto subterrâneo. Nesses séculos, os papas sofriam uma autêntica carência pelas fontes - a de Trevi foi construída por obra e graça de Urbano VII, projeto que herdou de Clemente XII - assim como pelos obeliscos egípcios, outra mania pontifícia.

Quando, em 3 de junho passado, técnicos da Acea perceberam que a água não chegava à Fontana di Trevi, nem às próximas e centrais fontes do Panteão e da Piazza Colonna, justamente em frente à presidência do governo, pensaram em uma avaria ou um desabamento no antigo aqueduto, que tem 22 quilômetros de extensão. Uma vez localizado o ponto onde a água perdia pressão, numa rua do exclusivo bairro de Parioli, em 7 de junho enviaram uma câmera robótica sob a terra para explorar e descobriram uma bonita parede de concreto de alguns metros de altura e cinco de largura. Alguém havia obturado o aqueduto com um tampão.

A origem da infelicidade se encontrava na superfície, em Villa Faranda, uma chácara de propriedade de dois empresários de supermercados que faziam obras para construir um estacionamento subterrâneo com a devida autorização da Superintendência de Bens Arqueológicos. Os irmãos Antonio e Massimiliano Faranda - hoje na mira da prefeitura romana, indignada pelo dano causado ao patrimônio artístico, sem contar o possível prejuízo turístico - tinham permissão para escavar quatro metros, e seus operários perfuraram até cerca de 20 metros de profundidade. No caminho, encontraram o aqueduto, que acabou concretado.

Consertar a situação não será tarefa fácil, por mais que os compungidos irmãos Faranda tenham interrompido as obras e prometam uma rápida colaboração. A água que jorra e volta a jorrar na Fontana di Trevi deverá ser trocada em breve, e os técnicos da Acea calculam que poderão levar cerca de 45 dias para encontrar uma solução para desimpedir o aqueduto. Talvez acabem recorrendo a água potável canalizada, mas isso atentaria contra a história e a tradição da cidade, que em matéria de fontes sempre utilizou a água mais pura.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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