Substituição em Downing Street: Brown é uma caixa de surpresas

Rafael Ramos
Em Londres

A mãe de Gordon Brown voltou para casa certa manhã depois de fazer compras, encontrou a porta aberta e seu filho de 10 anos sentado à mesa da cozinha com um ladrão procurado pela polícia que escutava boquiaberto as teorias igualitárias e religiosas do menino sobre a compaixão e a distribuição da riqueza. O ladrão desistiu de roubar e foi embora convertido ao trabalhismo.

Richard Lewis/EFE 
Gordon Brown e sua mulher Sarah, em sua nova casa, o número 10 da Downing Street

Os interlocutores que ele terá a partir desta quarta-feira (27/6) - Sarkozy, Merkel, Zapatero... - não lhe darão tanto crédito quanto aquele ladrão redimido da pobre Escócia dos anos 60, e convencer seus rivais sobre as cotas de influência e poder não será tão fácil. Mas Brown esperou a vida toda por este momento, e pelo menos no papel tem a receita muito clara: liberalismo econômico com ajustes sociais, eqüidistância entre Europa e EUA, americanismo, mas sem submissão, participação do setor privado no fornecimento de serviços públicos, mas sob o controle do Estado, e, sobretudo, conservar o poder a qualquer preço.

No Reino Unido chegou a hora da quarta via, a via Brown, que em muitos sentidos se parece muito com a terceira de Blair, sob o slogan de "consenso progressista", um conceito que pode significar qualquer coisa. O problema do novo premiê é que não pode romper com seu antecessor, mas ao mesmo tempo deve criar uma impressão de frescor e novidade, de mudança.

Que ases Brown terá guardados na manga, com que golpes de efeito vai surpreender o país nas próximas semanas e meses, além da saída de alguns ministros e a entrada de outros? Descartados gestos como um distanciamento de Bush e uma retirada brusca do Iraque, que agradariam à esquerda trabalhista e aos liberal-democratas, mas seriam consideradas irresponsáveis, os analistas apostam em um plano de reformas constitucionais para restituir aos cidadãos a confiança no Estado depois das manipulações e do abuso da imagem da era Blair: mais localismo, devolução de poderes às prefeituras, mais debate nos Conselhos de Ministros, necessidade de que o Parlamento aprove decisões fundamentais como a de ir à guerra.

Filho de um pastor presbiteriano tão estrito que proibia ler jornais aos domingos, Brown é descrito como um político severo e de pouco carisma numa era de grandes comunicadores, mas às vezes as aparências enganam e desde que era jovem guardou ases na manga. Fundou com seu irmão um jornal de esquerda chamado "The Gazette", do qual era redator esportivo, e conseguiu uma entrevista exclusiva com o astronauta John Glenn. Não fumava nem bebia, mas as meninas andavam loucas atrás dele, e as mais bonitas usaram minissaias e camisetas que diziam "Gordon para mim" quando, com apenas 16 anos, ele fez campanha para líder estudantil da Universidade de Edimburgo.

Sempre se deu bem administrando dinheiro - desde menino arrecadava fundos para refugiados e o encarregaram da tesouraria - e não lhe faltam dotes de persuasão, como pode testemunhar o ladrão que o escutou hipnotizado há anos na casa de um pastor em Kirckaldy. A chegada ao poder do ministro das Finanças é a erupção da "quarta via" com o lema "consenso progressista". Filho de um pastor presbiteriano, é um político severo e sem carisma, numa era de comunicadores
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