Angela Merkel, a mulher que toureou Blair e os Kaczynski

Beatriz Navarro
Em Bruxelas

O primeiro sucesso que a chanceler alemã Angela Merkel comemorou ao se despedir do Parlamento Europeu como presidente de turno da UE não foi o consenso sobre o novo tratado. Nem o compromisso dos 27 contra a mudança climática. Foi o acordo para reduzir as tarifas pelo uso de telefone celular em outro país europeu.

Fabrizio Bensch/Reuters 
'Uma tigresa no comando da UE', declarou o presidente do Partido Popular sobre Merkel

Acompanhada do presidente da Câmara, o conservador alemão Hans Gert Pöttering, Merkel assinou o texto legal do novo regulamento, último trâmite para que a redução entre em vigor neste fim de semana. "Uma grande conquista para a Europa", disse Merkel durante o ato, o enésimo com que a UE comemora uma medida com a qual espera conectar melhor a opinião pública.

O Parlamento Europeu realizou nesta quarta-feira (27) uma sessão extraordinária para se despedir de Merkel, a "querida Angela Merkel", como disse Pöttering, um companheiro de partido que acreditou nela quando se candidatou a líder da democracia cristã (CDU).

A chanceler defendeu com ar sério o êxito do acordo alcançado na madrugada de sábado para redigir um tratado simplificado e só se descontraiu quando recebeu o aplauso da Câmara. Logo pôde comprovar como os eurodeputados estavam predispostos a apoiá-la. As únicas críticas foram para o papel obstrutor de Londres e Varsóvia, polêmica - no caso polonês - que a chanceler evitou citar.

Merkel destacou que a Europa evitou a divisão e conseguiu salvar a substância do Tratado Constitucional, embora renunciando a tal adjetivo e a seus símbolos. As exceções concedidas a alguns países, ela disse, são algo "muito diferente" de uma Europa em duas velocidades. "Terminou a sensação de estagnação. É inegável que houve uma tigresa no comando da UE", proclamou Joseph Daul, presidente do Partido Popular Europeu, que horas antes havia condecorado Merkel com a medalha de Schuman, distinguindo-a como "mãe fundadora da Europa".

O alemão Martin Schultz, líder dos socialistas na Câmara, entrou de cheio na polêmica sobre o papel do governo dos irmãos Kaczynski na cúpula. "A chanceler e eu pertencemos a uma geração de políticos que tem a obrigação moral de tirar lições do passado, dos crimes cometidos pelos alemães, lições como que a Alemanha deve fazer parte da Europa para não voltar a desviar-se do caminho. Quem utiliza como moeda de troca as vítimas da Segunda Guerra Mundial para conseguir mais votos no Conselho se equivoca."

Schultz citou Konrad Adenauer para lembrar a falta de solidariedade polonesa com a Alemanha, maior contribuinte para o orçamento da UE. "Não posso sacrificar a vaca que quero ordenhar", lembrou.

O histórico líder do Maio de 68 Daniel Cohn-Bendit, chefe dos Verdes no Parlamento, felicitou a primeira-ministra com uma comparação taurina: "A senhora como mulher merece muito respeito, porque toureou todos esses machos, e não me refiro só aos gêmeos Kaczynski, mas, sobretudo, a Tony Blair, e o toureou muito bem".

Jens-Peter Bonde, deputado da Independência e Democracia, comparou Merkel com "uma versão encantadora, convincente e diplomática do chanceler Bismarck", não em relação à política antipolonesa do chanceler, mas por exercer uma "política de poder" sobre a Polônia apesar de defender um sistema de voto melhor para a maioria. O Parlamento Europeu despede-se com elogios da chanceler alemã como presidente da União Européia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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