Sorriam, a economia européia vai bem

Beatriz Navarro
Em Bruxelas

Bruxelas decidiu falar às claras na hora de descrever o andamento da economia européia: "Os bons tempos chegaram à zona do euro". Com essa frase contundente a Comissão Européia inicia seu último relatório trimestral, alinhado ao desejo manifestado por um alto funcionário do Executivo comunitário de não dar só mensagens negativas aos cidadãos. "Em um momento de recuperação econômica, os políticos não têm o direito de ser pessimistas", ele disse. No relatório sucedem-se qualificativos como "otimista", "brilhante", "positivo" e até "vigoroso".

A julgar pelos últimos indicadores econômicos, os bons tempos podem ter chegado à Europa para ficar algum tempo, indica o relatório. No primeiro trimestre de 2007 a economia européia registrou um crescimento médio de 3% e um índice de inflação de 1,9%, estável desde novembro. Além disso, a confiança dos consumidores está em níveis históricos e o desemprego diminui: em maio passado o índice europeu médio foi de 7%, quase 1 ponto a menos que um ano antes. É a cifra mais baixa desde 1993.

Os serviços dirigidos pelo comissário de Assuntos Econômicos e Monetários, Joaquín Almunia, afirmam que em 2007 o crescimento médio será de 2,6%. O consumo e o investimento privados, que em 2006 aumentaram 7,2%, são os principais motores do crescimento na zona do euro. O aumento do imposto de consumo na Alemanha se traduziu numa ligeira contração do consumo interno na zona do euro, embora segundo os especialistas comunitários voltará a aparecer nos próximos meses.

Mas essas perspectivas tão boas estão sujeitas a alguns riscos, explicam. As principais nuvens procedem do exterior: os efeitos de uma desaceleração nos EUA, a volatilidade dos mercados financeiros, possíveis altas no preço do petróleo e de matérias-primas devido à pressão dos países emergentes e, por último, o risco de uma nova onda protecionista caso fracasse a rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio. Também há alguns sinais de que a inflação poderia subir ao longo do segundo semestre e terminar o ano em 2,1%, ligeiramente acima da meta do Banco Central Europeu.

As exportações merecem menção à parte. No último trimestre, seu ritmo de crescimento diminuiu 0,3% em relação ao período anterior. Aqui a ordem de Bruxelas é não culpar o euro. Antes que algum país, por exemplo, a França, se apresse a culpar a moeda única pelo desequilíbrio de seus intercâmbios comerciais, a Comissão Européia analisou o impacto da força do euro nestas operações e sua conclusão é de que na realidade é mínimo. No máximo uma redução de 0,25% em dois anos.

As flutuações da taxa de câmbio entre 2001 e 2006, argumentam, reduziram em 0,6% o índice de crescimento das exportações, uma porcentagem muito limitada sobre o aumento global nesse período, que foi de 5%. E enquanto a França se queixa de suas dificuldades para exportar, a Alemanha ou a Espanha não parecem ter tantos problemas para vender seus produtos no exterior, apesar da taxa de câmbio euro/dólar, explicam fontes comunitárias. As causas dos que obtêm "resultados medíocres" devem ser buscadas "em outra parte, concretamente nos salários e no desenvolvimento da produtividade".

Bruxelas insiste na bonança econômica atual e lembra aos governos da zona do euro seu compromisso de equilibrar as contas públicas até 2010. A França foi um dos países que mais insistiu em fechar esse acordo no Eurogrupo de abril, mas o novo governo francês o questiona e pede para adiar seu cumprimento em dois anos. Sempre com bom tom, o relatório comunitário lembra "dolorosos erros do passado", quando alguns países não aproveitaram os bons tempos para reduzir a dívida.

Ajuste gradual e não "cataclismo" da construção

O mercado espanhol da habitação atravessa uma fase de "esfriamento gradual", segundo a Comissão Européia. O "grande cataclismo da construção" que "alguns esperavam não está ocorrendo" e sim "um ajuste muito suave", indicaram fontes comunitárias. Não se descarta, porém, que o ritmo de esfriamento se acelere e se transfira para outros setores, mas o alto número de pedidos de licenças para novas construções é positivo.

A economia espanhola cresceu 4,1% no primeiro trimestre do ano, índice superior à média da zona do euro, e mantém boas perspectivas para todo o ano (Bruxelas prevê um crescimento de 3,7% para o conjunto do ano). O ano de 2008 se apresenta mais incerto. Os efeitos do aumento das taxas de juros nas hipotecas serão mais evidentes e farão aumentar a urgência para substituir a construção por outras atividades para ganhar competitividade. Só dessa maneira não haverá obstáculos ao crescimento, sugere Bruxelas. Bruxelas pinta perspectivas brilhantes para 2007 e minimiza o efeito de um euro forte nas exportações Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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