Levando a Web para a rua

Piergiorgio M. Sandri

A sociedade evolui e no futuro novos mercados se desenvolverão. O guru Anthony Townsend afirma que caminhamos para uma rede urbana global. Isso significa que a população envelhecerá de forma muito rápida, enquanto as cidades deverão adotar novas formas de comunicação digital. A saúde é o negócio de amanhã.

Albert Einstein dizia que nunca pensava no futuro "porque costuma chegar depressa demais". Mas na Califórnia há quem dedique sua vida só a isso: prever como será nossa sociedade nos próximos anos. Anthony Townsend, 33, é diretor de pesquisas do Instituto do Futuro em Palo Alto, Califórnia. Esta semana esteve no 24º Congresso Mundial de Parques Tecnológicos em Barcelona, que reuniu 750 participantes procedentes de 67 países.

La Vanguardia - O que se faz no Instituto do Futuro?
Anthony Townsend -
Somos consultores de empresas. Nos contratam para entender quais serão as próximas tendências econômicas e sociais que influirão nos próximos anos nos investimentos tecnológicos das empresas, as que apostam em mercados que hoje não estão desenvolvidos. Normalmente nosso horizonte de pesquisa é de cinco a dez anos, mas estão nos pedindo cada vez mais previsões para 50 anos. Algo muito difícil de saber. Basta imaginar como era o mundo em 1950. Era quase impossível prever o que aconteceu nestas últimas décadas.

LV - O que nos espera, então?
Townsend -
Não se trata de ver se dentro de 50 anos haverá carros voadores. Não, nada disso. Temos cientistas, antropólogos que estão estudando diversos cenários de risco. Embaralhamos alguns acontecimentos curingas, isto é, que têm menos de 10% de probabilidade de ocorrer, mas que se ocorrerem poderão ser totalmente destrutivos. Um deles pode ser um ataque bioterrorista. Por exemplo, um grupo de criminosos compra bactérias nocivas no eBay. Isso mudaria a forma de ver o mundo. Outro poderia ser uma epidemia. Seria uma catástrofe para o comércio e as migrações. Não digo que isso seja o futuro, mas é uma hipótese de trabalho para que as companhias estejam preparadas. Se tivesse de apostar em termos econômicos, diria que o mercado a se considerar é o da saúde.

LV - Por que a saúde?
Townsend -
O problema das economias ocidentais como a Europa será a escassez de mão-de-obra. Por isso, uma das maiores mudanças será a promovida pela imigração, algo que vocês bem sabem na Espanha, já está acontecendo. E isso é muito produtivo do ponto de vista econômico, já que os lugares com muita mobilidade também são os mais criativos devido ao intercâmbio cultural. Pois bem, cada vez mais pessoas viverão nas cidades. A urbanização continuará. No final deste século, 90% da população do mundo será urbana. E isso tem sérias implicações.

LV - Quais?
Townsend -
Que envelheceremos rapidamente! A urbanização tem duas conseqüências. Uma é que aumenta a renda de seus habitantes, inclusive a dos mais pobres, que depois de alguns anos conseguem melhorar seu nível de vida. Outra é que melhora a educação. Resultado: a fertilidade diminui. A mulher que antes trabalhava na fazenda se transforma em consumidora com dinheiro para gastar. A televisão entra nos lares, o que é ruim para a sexualidade (estudos feitos no Brasil confirmam isso). Como no Japão, será preciso investir na robótica para criar máquinas que cuidem dos mais velhos. E já há firmas como a Intel que estão pesquisando nos EUA edifícios pensados para os idosos, com espaços especiais para eles.

LV - Que setores serão beneficiados?
Townsend -
Hoje em dia só 10% do que gastamos em saúde se destinam a curar doenças. O resto é alimentação, como os integradores vitamínicos ou suplementos nutricionais, estadias em centros de bem-estar... A definição de saúde está mudando muito rapidamente. Há uma expansão de produtos e serviços fruto dessa evolução. O consumidor toma suas decisões de compra com base em informações que obtém sobre a saúde. Consulta na Web, compara as opiniões dos usuários, informa-se sobre o lugar de fabricação.

LV - O senhor afirma que caminhamos para uma sociedade urbana global. Isso implica que nossas cidades também vão mudar?
Townsend -
É claro. Devido a uma população cada vez mais numerosa, será implantada uma comunicação global e permanente. É o que eu chamo de "geoweb".

LV - Em que consiste?
Townsend -
Em tirar o conteúdo da Internet das telas dos escritórios para levá-lo a um lugar determinado e que seja mais próximo. Não se trata só de instalar nas ruas aparelhos públicos dos quais acessar a Internet, mas ter dispositivos que nos permitam obter informação sobre o lugar, tanto oficial quanto os comentários ou as fotos das pessoas que já estiveram lá. Haverá em cada cidade um arquivo e uma memória de tudo o que acontece.

LV - Dê um exemplo.
Townsend -
Digamos que você queira uma cerveja. Consultará onde pode tomar uma no bairro em que se encontra e comparar o que dizem os outros sobre esse assunto. Essa tarefa poderá ser realizada do iPod, do celular, através do capacete ou dos óculos. Inclusive com a ajuda de sua roupa. Já estão estudando sistemas eletrônicos costurados na roupa que com o impulso das vibrações nos conduzem para o lugar escolhido.

LV - Mas para isso é necessário uma infra-estrutura poderosa.
Townsend -
A banda-larga e o WiFi serão estendidos. Estão sendo feitos investimentos importantes. É o mesmo que aconteceu cem anos atrás com as estradas ou o trem. O financiamento pode ficar a cargo de particulares, instituições públicas ou comunidades de pessoas, gente que usa tecnologia e que está disposta a compartilhá-la com outros. O modelo de negócio ainda precisa ser definido.

LV - Ou seja, a ciência está voltando às cidades.
Townsend -
Sim, graças aos núcleos ligados a universidades ou centros de pesquisas. Poucas empresas podem fazer tudo, e estão surgindo novas formas de pesquisa e desenvolvimento: laboratórios subcontratados, novas empresas, fundos de capital de risco. Assim são geradas novas formas democráticas e distribuídas de pesquisa nas cidades. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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