Kirchner demite ministra da Economia por denúncias de corrupção

Robert Mur
Em Buenos Aires

A demissão da ministra da Economia da Argentina, Felisa Miceli, a transforma na mais graduada autoridade que teve de abandonar o governo por suspeitas de corrupção nos quatro anos de mandato do presidente Néstor Kirchner. Embora num primeiro momento Kirchner tenha defendido Miceli, afinal o presidente decidiu soltar lastro quando se soube, na segunda-feira, que a promotoria pública lhe atribui três crimes.

O escândalo afeta a imagem do governo justamente quando, na quinta-feira, seria lançada oficialmente a candidatura presidencial de Cristina Fernández, mulher do presidente.

A história que levou à demissão da ministra tem tons rocambolescos. Em 5 de junho, durante uma inspeção policial de rotina para localizar explosivos no edifício do Ministério da Economia, situado junto à Casa Rosada, sede do Executivo, os agentes localizaram uma sacola no banheiro privativo de Miceli, cujo único acesso é por seu gabinete. Ao abri-lo, descobriram um pacote com 100 mil pesos (cerca de R$ 59 mil) e registraram a ocorrência. No dia seguinte, Miceli levou a sacola para casa e pediu a seu chefe de segurança que conseguiu o boletim original.

Em 24 de junho o semanário "Perfil" revelou a descoberta do dinheiro. Mas Miceli demorou 13 dias para dar pessoalmente uma explicação pública. A ministra disse que o dinheiro foi emprestado por seu irmão para comprar uma casa. No melhor dos casos, a desculpa deixou clara sua pouca confiança no sistema bancário pelo qual é responsável. Na hipótese menos favorável, as suspeitas de corrupção começam a circular e coincidem com a apresentação de uma denúncia contra Miceli por enriquecimento ilícito.

A investigação judicial aberta revela que o pacote de 100 mil pesos era na verdade um maço de dinheiro do Banco Central, lacrado e numerado, que foi legalmente transferido da caixa-forte do banco emissor para uma entidade financeira de Buenos Aires. No entanto, essa entidade não registrou a saída do dinheiro, e por isso seus responsáveis também estão sendo investigados.

Por enquanto, a promotoria acusa Miceli de três delitos: violação dos deveres de funcionária pública, subtração e ocultação de documento público e encobrimento de manobras ilegais.

Na Argentina a economia é quase como o futebol: todo mundo é economista, assim como cada argentino é um treinador. A grave crise de 2001 marcou a sociedade, de maneira que o cidadão comum está bastante familiarizado com os conceitos macroeconômicos, dos quais sabe que depende seu bem-estar em curto e médio prazo. Por isso o Ministério da Economia é uma pasta especialmente delicada.

Felisa Miceli chegou ao cargo precedida de uma boa imagem como diretora do banco estatal Nación, mas sabendo que deveria manter um perfil público discreto. A ministra substituiu Roberto Lavagna, o economista que conseguiu salvar o país depois da crise. Kirchner decidiu dispensar Lavagna para que não lhe fizesse sombra e para controlar diretamente a política econômica. Lavagna acabou sendo o candidato presidencial da oposição.

O substituto de Miceli é Miguel Peirano, até agora secretário de Estado da Indústria. Com 39 anos, Peirano transforma-se no ministro da Economia mais jovem da história da Argentina. O que não mudará seu perfil discreto, ainda mais levando-se em conta que faltam pouco mais de três meses para as eleições presidenciais. A ministra da Economia da Argentina, Felisa Miceli, apresentou sua demissão na segunda-feira, depois de ser denunciada num suposto caso de corrupção. A ministra tinha dinheiro escondido no banheiro de seu gabinete Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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