"As câmeras seguem as garotas"

Ima Sanchés

Klauser é um homem moderado que não se posiciona a favor nem contra as câmeras de videovigilância, mas nos adverte sobre sua perigosa deriva e a necessidade de controlá-las legalmente. "O cidadão deve conhecer seu poder e decidir seus limites."

Suas principais linhas de pesquisa são a segurança e o controle de fronteiras nos aeroportos, a segurança nos grandes eventos esportivos, as geografias imaginárias do risco e a territorialização humana. Em seus estudos se discute a videovigilância nos espaços abertos e sua ambivalência de instrumento de controle social. Ele defende o aumento do corpo policial contra a máquina; sobre isso veio falar no CCCB de Barcelona.

Klauser - Tenho 30 anos e sou casado. Nasci no Rio de Janeiro de pais suíços, tenho dupla nacionalidade. Sou especialista em videovigilância. Vivo em Dirham, em cuja universidade sou pesquisador no Instituto para Pesquisas de Riscos. Politicamente crítico, creio nos debates públicos. Minha espiritualidade é uma mescla; creio em um além.

LA VANGUARDIA - Não à videovigilância?
Francisco Klauser -
Seria simples demais.

LV - Então complique...
Klauser -
A videovigilância é eficaz nas estradas e estacionamentos, mas é muito limitada em campos como a prevenção.

LV - Agora se usa mais a punição.
Klauser -
Em 15 anos foram instaladas no Reino Unido 4 milhões de câmeras em espaços públicos, mas o responsável pelo departamento de criminologia declarou que não ajudaram na prevenção do crime. A Espanha deveria aprender com essa experiência.

LV - Até que ponto elas reduzem a liberdade do indivíduo?
Klauser -
Esse é o grande problema, porque os cidadãos não sabem até que ponto são controlados, e não se trata só de câmeras.

LV - Qual é a maior máquina de controle?
Klauser -
Os computadores: sabem o que a gente escreve, consulta, vê. E também podem localizar qualquer telefone celular.

LV - E como as câmeras nos controlam?
Klauser -
No Reino Unido foram feitos estudos e se observou que a primeira coisa em que as câmeras se detêm são homens jovens e negros em proporção exagerada, em imigrantes, marginais e mulheres jovens.

LV - À escolha dos operadores...
Klauser -
Há muitos interesses econômicos, por exemplo, nas grandes lojas ocorre um contrabando de imagens para identificar que tipo de clientes não querem ter em suas lojas. Trata-se de exclusão social.

LV - Isso pode ir além das lojas?
Klauser -
Fiz um estudo na Copa do Mundo de 2006, na Alemanha. Instalaram em Berlim 5,2 quilômetros de barreira vigiada por videocâmeras. Quem não se encaixasse no estereótipo de normal era excluído.

LV - Era um espaço público...
Klauser -
Essa é a questão, que os espaços públicos deveriam ser abertos para todo mundo, não só para os perfis comerciais. Além disso, não sabemos realmente o que acontece com as imagens captadas pelas câmeras.

LV - Como ganham dinheiro nos observando?
Klauser -
A relação se dá entre o espaço e o dinheiro, com as câmeras você pode controlar o espaço, e essa é uma maneira de comercializá-lo.

LV - Essas câmeras podem ir mais longe.
Klauser -
Sim, com elas podem-se identificar pessoas, e isso nos remete a outra dimensão: podem entrar em sua vida privada. Sistemas como esse estão sendo testados em lugares públicos no Reino Unido.

LV - A tecnologia progride.
Klauser -
De maneira assustadora. Além disso, a relação entre diversas tecnologias amplia o espectro da informação, e isso dá um poder incrível.

LV - De que se trata?
Klauser -
Microfones, satélites... Nos EUA há um sistema chamado Echelon que pode escutar todas as conversas telefônicas. Precisamos claramente de leis e de saber até que ponto queremos chegar. Os centros das cidades estão se transformando em lugares totalmente monitorados.

LV - Isso assusta um pouco.
Klauser -
Existe um risco. Se há 50 ou 60 anos os regimes totalitários tivessem esse poder tecnológico, não quero imaginar que tipo de vida pública teria se desenvolvido. É importante discutir o que queremos e não queremos.

LV - Ainda mais quando se trata de nosso dinheiro.
Klauser -
Exatamente, os cidadãos deveríamos poder discutir o que queremos fazer com nosso dinheiro para fins de segurança. Além disso, seria mais eficiente utilizar seres humanos do que tecnologia como meio básico. Veja o que está ocorrendo no Iraque.

LV - ?
Klauser -
Tudo é baseado em tecnologia. Mas é evidente que para construir áreas seguras é preciso conhecimento, proximidade, relação. Temos de ser muito mais críticos com essa crença moderna na tecnologia.

LV - E o que dizem os cidadãos?
Klauser -
Quando as pessoas sabem o que está acontecendo, são muito mais críticas. E quando consultadas dizem não para as câmeras que inundam os núcleos urbanos; preferem policiais, seres humanos, a máquinas.

LV - O senhor estudou a videovigilância de aeroportos e fronteiras.
Klauser -
Sim, e é muito sintomático que o escritório da companhia de segurança fique junto ao da polícia. O problema é que a polícia não tem o conhecimento do sistema tecnológico, são sistemas automatizados em que o policial não intervém, assim é a companhia privada de vigilância quem define as pautas de risco.

LV - E em que parâmetros se baseiam?
Klauser -
O econômico é importante. Toda semana a polícia recebe informação dessas empresas de segurança; ou seja, elas fazem seus relatórios e criam novas necessidades. Afinal, o dinheiro é o que determina a segurança.
O desenvolvimento dessas empresas de segurança foi astronômico e cresce sem nenhum tipo de controle.

LV - Para onde caminhamos?
Klauser -
Já existem companhias nos EUA que exigem que seus trabalhadores se implantem chips. Quase tudo existe, já não há limites e devemos defini-los. De fato, quando você voa para os EUA há 35 dados de cada passageiro que as companhias devem fornecer ao governo.

LV - Não são demais?
Klauser -
Vão desde a idade até o que se consome no avião. No clima de medo em que vivemos, já não se criticam questões como esta, e se alguém o faz é identificado como indivíduo suspeito. É urgente controlar legalmente essas aplicações porque não há normas. Entrevista com Francisco Klauser, especialista em videovigilância

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