Banco Mundial volta ao planejamento familiar

Manuel Estapé Tous
Em Barcelona

A história começa em 16 de abril passado, quando o conselho administrativo do Banco Mundial, liderado pelos representantes europeus, recusa um relatório sobre saúde e população elaborado por um diretor-executivo da instituição, Juan José Daboub, um defensor da guerra dos EUA com o Iraque, contratado especialmente um ano antes pelo então presidente do banco, Paul Wolfowitz.

A recusa tornou-se pública ao ser divulgada pela Internet pelas organizações não-governamentais de ajuda ao desenvolvimento. Em sua estratégia sobre população, saúde e nutrição, o Banco Mundial só menciona uma vez o "planejamento familiar", uma das chaves da instituição em sua luta contra a pobreza no mundo. A presença de Wolfowitz e de seus conselheiros se faz notar na aplicação das doutrinas mais conservadoras da direita do Partido Republicano dos EUA, grupo que na década anterior se distinguiu por boicotar a ajuda internacional ao desenvolvimento porque integrava em seus programas de saúde o planejamento familiar (incluindo métodos anticoncepcionais e o aborto).

Nesse âmbito do espectro ideológico, seguindo os conselhos do papa católico, o melhor modo de controlar o crescimento da população é a abstinência sexual, e o aborto é um crime contra uma vida que não nasceu. O preservativo também não é satisfatório, nem mesmo para evitar a Aids.

No conselho administrativo do Banco Mundial, mais de um membro demonstrou "surpresa porque o documento não faz virtualmente nenhuma referência à saúde sexual e reprodutiva em nível estratégico. É surpreendente porque o banco comprometeu quase US$ 2 milhões para a saúde sexual e reprodutiva nos últimos dez anos".

Wolfowitz respondeu às críticas de modo ambíguo. Negou que o banco tivesse mudado de política, mas não manifestou seu apoio aos programas de educação sexual e reprodutiva. O assunto ficou enterrado e o presidente não pensou mais nele, pois estava preso no torvelinho de nepotismo que havia demonstrado com sua companheira sentimental e subordinada no Banco Mundial.

Afinal Wolfowitz teve de se demitir, com tempo, sem dúvida, para refletir sobre as relações entre demografia e desenvolvimento. Desde o início do século 19, o pensamento ocidental foi dominado pelo economista e demógrafo Thomas Malthus (1766-1834). Convenientemente resumida, sua teoria se baseia em que enquanto a população cresce geometricamente (1, 2, 4, 8, 16) a produção aumenta aritmeticamente (1, 2, 3, 4). Mas a história lhe tirou a razão, ou, melhor dizendo, a transição demográfica, quando a natalidade foi diminuindo gradualmente na medida em que aumentava a esperança de vida. Em meio a essa transição, o crescimento decolou e contribuiu para acentuar os dois fenômenos.

É o que percebe a opinião pública devido a sua própria história. Agora o Banco Mundial volta à sua política anterior e defende a "utilidade dos anticoncepcionais, o planejamento familiar e outros programas de saúde reprodutiva para ajudar a promover o crescimento e reduzir os altos índices de natalidade, que estão fortemente ligados à pobreza endêmica, à educação inadequada e à mortalidade elevada". Cada ano, dos 210 milhões de mulheres que engravidam, mais de 500 mil morrem durante a gravidez e o parto. Ao não ter acesso aos métodos anticoncepcionais, uma em cada cinco recorre ao aborto e 68 mil morrem durante a intervenção. A instituição de ajuda ao desenvolvimento abandona as políticas regressivas de educação sexual de Wolfowitz Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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