O primeiro 26 de julho sem Fidel Castro: dos discursos aos artigos

Fernando García
Em Havana

A doença que há um ano obrigou Fidel Castro a pendurar o uniforme verde, que ele substituiu por um suéter com as cores da bandeira cubana, também impôs a abrupta interrupção de seus freqüentes, longos e famosos discursos. Como um líder habituado à prática cotidiana da maratona verbal poderia agüentar um silêncio tão repentino e absoluto? A solução estava no papel.

Cartas, mensagens ou artigos, como queiram chamar, lhe serviriam de veículo para expressar opiniões ou definir linhas de atuação. Ele as chamou de "Reflexões" e começou a publicá-las na imprensa oficial em 28 de março passado, quando se supõe que tenha passado o pior de sua prolongada convalescença.

Desde então Fidel Castro divulgou ao todo 31 "Reflexões". Embora os temas sejam variados, assim como a extensão e o tom dos textos, os conteúdos foram evoluindo em certa direção: de assuntos globais para outros mais internos. Numa primeira fase o "comandante" cubano escreveu extensamente contra a utilização de alimentos na fabricação de biocombustíveis. Não lhe importou que seus ataques causassem certo mal-estar no governo brasileiro, cujo presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, se reuniu naqueles dias com George W. Bush.

As críticas ao presidente americano e ao então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, também ocuparam boa parte dos primeiros escritos, mas as acusações e réplicas a Bush persistiram e nunca faltarão. Em meados de junho Castro dedicou dois textos à visita do líder americano à Albânia, que intitulou "O tirano visita Tirana" e "Precisando de carinho".

Em 18 de junho saiu uma "Reflexão e manifesto para o povo de Cuba" que marcou um antes e um depois, não nessa evolução de conteúdos, mas na avaliação geral do papel de Fidel Castro durante sua recuperação: de seu aparente cargo de conselheiro-líder - sobretudo para questões internacionais - passou ao de mandatário convalescente, mas que continua definindo a pauta nos assuntos do país. O comandante mencionou as "medidas desesperadas" que a queda do socialismo no mundo obrigou Cuba a tomar, entre elas a abertura ao investimento estrangeiro e a dolarização da moeda. "Muito prejuízo causou à consciência social o acesso às divisas conversíveis, pelas desigualdades e fragilidades ideológicas que criou", escreveu.

No mesmo texto o líder cubano anunciou que o país continuaria "desenvolvendo e aperfeiçoando a capacidade combativa de seu povo, incluindo nossa modesta mas ativa e eficiente indústria de armas defensivas" e "adquirindo o material necessário e as bocas de fogo pertinentes". E tudo isso "mesmo que não cresça o famoso Produto Interno Bruto do capitalismo, que inclui tantas coisas como o valor das privatizações, as drogas, os serviços sexuais, a publicidade, e exclui tantas como os serviços de educação e saúde gratuitos para todos os cidadãos".

Fidel acrescentou que "o nível de vida pode se elevar se aumentarem os conhecimentos, a auto-estima e a dignidade de um povo". "Basta que o desperdício seja reduzido e que a economia cresça", opinou. Em "Reflexões" posteriores insistiu nessas idéias.

Na última semana Fidel mudou de tom e passou à crônica esportiva. Em seis dias publicou três textos sobre os Jogos Pan-americanos, com comentários apaixonados sobre a atuação dos representantes cubanos. "Que assombrosas são nossas equipes de handebol! Que velocidade, que força! Não perco um evento na televisão. Às vezes esqueço a hora de algum alimento ou algum comprimido", confessou no dia 17. Na segunda-feira passada referiu-se à fuga de um jogador de handebol e dois boxeadores cubanos no Rio: "A pressão por dinheiro é uma das armas prediletas dos EUA para destruir a resistência de Cuba", concluiu. O verbo se fez papel: Fidel Castro continuou presente na vida pública através de suas "Reflexões" sobre os mais variados temas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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