África do Sul: "Somos discriminados pelos negros"

Xavier Ventura
Enviado especial à Cidade do Cabo

Entre a esperança e o temor, a África do Sul olha para um futuro marcado por duas datas. A mais distante, 2010, é a que concentra os esforços econômicos e as mega-obras que o país realiza: a Copa do Mundo de futebol. A mais próxima, 2009, é a que pesa no ânimo da população: a eleição de um novo presidente.

O substituto de Thabo Mbeki e de Nelson Mandela é a grande preocupação para a população branca, que está emigrando do país a um ritmo de 200 mil pessoas por ano. Restam 5,6 milhões, contra 42 milhões de negros, mestiços e indianos. Ela teme que a África do Sul deslize para o caos que arrasou o Zimbábue.

No entanto, o país exibe uma aparente prosperidade econômica. A classe média cresce na África do Sul a um ritmo espantoso: 30% ao ano, segundo um estudo da Universidade Witwaterrand de Joanesburgo. "A geração atual é a primeira que está saindo dos 'townships' (favelas), que possui carro, tem acesso à universidade", diz ao "Financial Times" o economista François Viruly. Refere-se à população negra, é claro. Os preços das casas dispararam, os aluguéis anuais duplicaram em uma década (6.300 euros em média; cerca de R$ 16.400), o desemprego diminuiu 25%, um índice expressivamente melhor que o de seus vizinhos.

Ainda assim, o medo da incerteza é sempre visível. Aos 30 anos, Ingrid Z. - filha de alemão com sul-africana, nascida no Paraguai mas sul-africana de coração e poliglota - sabe que seu futuro não está em seu país. Ela e o namorado partirão para a Grã-Bretanha em breve. "Aqui não podemos viver, não há trabalhos bem-pagos, somos discriminados pelos negros, não podemos enfrentar uma hipoteca para pagar um apartamento", explica. Em julho o governo sul-africano fez um apelo dramático para que voltem ao país os médicos e professores que já o abandonaram. "Precisamos que voltem, senão não progrediremos". Mas as pessoas continuam partindo.

"Depois dos problemáticos primeiros anos desde que o Congresso Nacional Africano (CNA) chegou ao poder, em 1994, é verdade que o governo investiu muito dinheiro para ajudar a população. Não há queixas sobre o CNA, como não houve sobre Mandela, mas sim sobre a eficácia dos resultados. Mas agora não há substituto, o próximo presidente é o perigo", afirma Evelyn B., uma cristã atuante de Durban que não hesita em criticar as centenas de negros que se aglomeram ao anoitecer junto à catedral católica, à espera de comida grátis. A África do Sul é um ímã que atrai os desesperados de países como Nigéria, Tanzânia ou Zimbábue. Eles enchem igrejas, praças, ruas. A imigração ilegal é um problema que está aumentando.

Em dezembro o CNA elegerá seu candidato, que será o próximo presidente, já que é o partido majoritário e o que domina as eleições. Há dois favoritos: Jacob Zuma e Tokio Sexwale, mas seus nomes causam calafrios na comunidade branca. Zuma, o mais importante político da etnia zulu, herói da esquerda africana e o sucessor natural de Mbeki, foi afastado do poder por corrupção e julgado por estupro. Durante o julgamento admitiu que teve relações sexuais sem proteção com a mulher que o acusa, mas disse que não podia ter sido contaminado com Aids porque depois "de estar com ela, me lavei muito bem". A frase causou forte reação na África do Sul, país duramente afetado pela doença (11% da população). De Sexwale, afirma-se que coleciona mulheres e filhos, e foi acusado de ter tentado derrubar Mbeki.

"Não nos preocupa somente o sucessor de Mbeki, mas também o desaparecimento de Mandela", diz Anne K. Com seu marido, típicos sul-africanos descendentes de holandeses, eles têm uma fazenda na estrada que leva a Shakalan, o coração do território zulu. Grande parte de suas terras foi arrasada há pouco tempo pelo incêndio de uma floresta da empresa de papel Mondi; tentam sobreviver transformando o lugar em pousada. São a quarta geração, não querem ceder nem ir embora. Mas duvidam, e sua preocupação contagia o visitante.

Mandela, o mítico líder negro que tornou possível o fim da "apartheid" [segregação racial], continua sendo referência e está em forma, como deixou claro em 18 de julho durante a comemoração de seu 89º aniversário. Mas no dia em que faltar, a comunidade branca sul-africana teme que se abram as portas do abismo.

"Há 30 anos o Zimbábue era um paraíso, um país próspero, com futuro. Veja agora", explica Anne. A antiga Rodésia do Sul - que Ian Smith tornou independente em 1965, criticada pelo mundo todo pela discriminação racial - é uma terra açoitada pela Aids (expectativa média de vida de 37 anos), pobre, devastada, com uma inflação anual que no ano passado chegou oficialmente a 4.500% e um índice de desemprego de 85%. Vive imersa na pior crise desde sua independência, em 1980, abalada pelo naufrágio da economia baseada na agricultura depois da desapropriação forçada das terras de centenas de agricultores brancos ordenada pelo governo em 2000. Na África do Sul há 50 mil agricultores brancos, no Zimbábue havia 4 mil. E em janeiro passado foi realizada na África do Sul a primeira desapropriação de uma fazenda de proprietários brancos.

O nome de Robert Mugabe - no poder desde 1987 - causa arrepios e muitos sul-africanos acreditam que sua insistência em continuar na presidência aos 83 anos acabará com o Zimbábue. Em 26 de junho, Mugabe ordenou que os preços dos alimentos e serviços fossem reduzidos pela metade. Os que não cumpriram a exigência foram presos, desde diretores de empresas até vendedores de rua. Já são 7.600 à espera de julgamento. A medida levou ao fechamento das lojas, pois os comerciantes afirmam que não podem vender seus produtos por menos do que pagaram por eles.

É claro que a África do Sul não é o Zimbábue, nem parece possível que um dia possa ser, diante da riqueza e da força do país. Imerso na construção de estádios, aeroportos - Durban, Cidade do Cabo...- por causa da Copa, excelentes hotéis aparecem em todo lugar, os novos centros comerciais sempre cheios espantam por suas dimensões gigantescas, o parque de veículos de qualidade cresce e circula muito dinheiro. "Os tempos felizes estão de volta", afirma o argentino Ricardo, que está aqui há 30 anos. Mas os sul-africanos brancos parecem duvidar disso. A eleição do sucessor do presidente Mbeki e o caos no Zimbábue preocupam a comunidade branca da África do Sul. Zuma e Sexwale disputam a presidência, mas seus nomes causam calafrios nos brancos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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