Minoria étnica é controlada por chineses em Xinjiang

Rafael Poch
Em Kashgar

Na praça da grande mesquita Aid Kaj em Kashgar foi instalada uma tela de televisão gigante de 7 por 9 metros. Crianças e adultos sentam-se no chão ou nas cadeiras dos terraços do lugar para acompanhar com atenção espantosos filmes estrangeiros, do gênero mais barato, ou telefilmes chineses de artes marciais. A tela fica a apenas 100 metros da entrada da mesquita do século 14, que é o coração dessa tradicional cidade uigur cuja identidade é o islã.

A mensagem que a presença da tela transmite, assim como as atrações para crianças, os postos de fotografia com camelos, burros e fantasias para se fotografar e todas as outras atividades mundanas que dominam a praça não são mais que uma fenomenal repressão ao islã e à tradição. Está muito claro.

Nos becos da cidade velha cruzam-se mulheres completamente cobertas, como na Arábia Saudita. Cravadas nas centenárias portas de madeira das casas tradicionais, chamam a atenção cartazes de cor azul ou vermelha, escritos em chinês e uigur. Nos azuis lê-se "Ping' an Jiating" (família segura). Nos vermelhos, "Wenming Jiating" (família civilizada). Vários moradores explicam o significado desses títulos. As famílias seguras são as que enviaram algum membro para o Hadj, a peregrinação a Meca, e esse membro regressou a Xinjiang sem novidades. Se alguém da família aproveitou a viagem organizada para ficar lá, para falar mal da China, ou rompeu a disciplina do grupo, sua família não é segura.

Goh Chai Hin/AFP -11.nov.1988 
Grupo de músicos uigur toca em um mercado de Kashgar, na região de Xinjiang

Em Kashgar ninguém confia em ninguém, e com razão. Todos, ou quase todos, são delatores, inclusive os que manifestam opiniões heterodoxas ou dissidentes. As conversas, é claro, são sempre a sós. A polícia secreta aqui vale seu salário. Os percursos do jornalista estão trilhados: agências de viagens, táxis, lojas e escritórios da cidade tradicional.

Ao fim da minha viagem anterior a esta cidade, três anos atrás, saí com a dúvida de se alguma das fontes que encontrei na rua, no ruído do grande bazar dominical, nos cafés, nos táxis e até em uma loja de tapetes, não havia sido previamente preparada. Incluindo aquele vendedor de tapetes que me contou que seu tio havia sido preso por atividades nacionalistas e que estava disposto a me receber.

Havia um personagem que ficava fora daquela dúvida, o velho poteiro Tusum Rustam. Quando passava pela frente da casa dele, me chamou. Passei mais de uma hora em sua oficina, à qual se chegava por uma escadinha de mão. Tudo de barro. Podia ser um lar afegão no vale do Panshir. Não, aquilo não foi preparado, disse a mim mesmo, foi uma verdadeira casualidade. Uma tradição contínua de sete gerações no ofício. Muito autêntico.

Três anos depois, encontro um colega jornalista que acaba de se perder nos becos da cidade velha.

"Visitei até a oficina de uma família de poteiros", ele diz.

Sua descrição não deixa dúvida, é a casa do velho Tusum Rustam. Também o convidaram a entrar, "por acaso". Só que o mestre já morreu. Agora é sua viúva quem organiza a "espontaneidade".

Pego um táxi para visitar um dos coloridos mercados rurais de Kashgar. O motorista uigur fala inglês. No trajeto de ida, aviso-lhe que no caminho de volta vamos parar em uma escola. Ao regressar, a foto já está preparada: um grupo de crianças uigures me espera na entrada da escola com uma bandeira chinesa. Suponho que enquanto eu percorria o mercado algumas ligações do celular do taxista organizaram essa cena infantil "espontânea".

Em Kashgar as histórias dos jornalistas vêm de um roteiro escrito pelo Departamento de Segurança Pública local. É como o Uzbequistão de 1989 ou a União Soviética de Brejnev, mas com uma diferença: o desenvolvimento e a abertura aqui não são de papelão e oferecem certa perspectiva.

Desde que o trem chegou a Xinjiang, em 1962, foram construídos aqui 3 mil km de ferrovia. Os 3 mil km de estrada passaram a ser 143 mil. A província deixou de estar isolada. Abriram-se 17 passagens de fronteira. Há 11 aeroportos.

Da capital, Urumchi, pode-se voar para cerca de 20 destinos internacionais, entre eles Cabul, Jedá, Teerã, Istambul, Tashkent, Moscou, Islamabad e Hong Kong. Até de Kashgar, que tem uma comunidade de comerciantes paquistaneses, há vôos regulares para Islamabad.

Em termos de renda, Xinjiang ficou em 13º lugar entre as mais de 30 províncias, territórios e distritos municipais da China. Esse desenvolvimento beneficiou toda a população da província, cujas nacionalidades, muitas delas vigiadas e controladas, têm direitos lingüísticos e culturais vigentes e efetivos. Há escolas e universidades na língua uigur. Todos os indicadores de bem-estar estão em alta.

A rejeição a todo esse controle e vigilância, a proibição da entrada nas mesquitas aos menores de 18 anos, a estrita disciplina a que estão submetidos os pregadores islâmicos e funcionários religiosos, a tortura, os casos fabricados pela polícia para condenar nacionalistas cujo único delito é de opinião, é a condenação da típica atitude chinesa de considerar "bárbaro" e "anticívico" o uigur que se apega à sua tradição. A opinião sobre tudo isso é clara: é intolerável. Ao mesmo tempo, é preciso ter consciência de que a situação poderia ser muito pior. No mundo em desenvolvimento a alternativa a "ruim" poucas vezes é "bom", mas freqüentemente "pior". O inferno está cheio de boas intenções.

O que aconteceria sem essa vigilância, sem a repressão extrema de tudo o que sai da linha e indique programas e atitudes nacionalistas ou de identidade além do âmbito permitido pela autoridade? Quais são as alternativas reais a esse Xinjiang controlado, em desenvolvimento e semicastrado, que encerra o maior descontentamento nacional da China e a principal repressão? Deixado livre, o tradicionalismo uigur em lugares como Kashgar ou Hotan, principais focos da resistência, poderia dar lugar a algo parecido com a situação do Afeganistão, Chechênia ou a fronteira noroeste do Paquistão?

Se fosse independente...

"Se alguém nos desse armas, nos rebelaríamos como um só homem, não tenha a menor dúvida", diz um intelectual uigur no exílio, com o qual me encontro fora da China.

Acredito nele. A atmosfera que se percebe em Xinjiang torna provável esse prognóstico. O que fariam? Como organizariam seu Estado independente se a China desmoronasse, como ocorreu entre a Chechênia e a Rússia?

A pergunta fica em suspenso, mas em dado momento da entrevista o mesmo intelectual fala dos cazaques, a terceira etnia de Xinjiang, depois dos uigures e dos chineses han, de uma forma bem depreciativa: "esses nômades", diz com uma expressão de profundo desprezo.

Em seu escritório, enfeitado com uma bandeira nacional do Uiguristão, azul com uma meia-lua dourada, há um quadro da praça da mesquita de Aid Kaj cheia de fiéis prostrados.

Qual seria a política do Estado uigur em relação às outras minorias? Em relação aos chineses, que já são uma realidade demográfica irreversível? Não, o problema é mais complexo do que sugere a mera denúncia do "colonialismo chinês han em Xinjiang".

É fato que os chineses não estão preparados para oferecer uma verdadeira autonomia, livre e democrática, aos uigures - eles mesmos não a têm. Mas provavelmente não são os únicos que não estão preparados para um modelo de convivência melhor, mais distendido e mais livre. Essa foi minha conclusão na viagem a Xinjiang três anos atrás. Continuo a considerá-la válida. A China tenta neutralizar sua província de maior complexidade étnica. Ninguém confia em ninguém, e com razão. Todos ou quase todos são delatores Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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