Vermont, mais longe dos EUA

Andy Robinson
Em Burlington, Vermont

Nos seis anos e meio em que George W. Bush está na Casa Branca, ele visitou cada um dos 50 Estados da União, com uma exceção: o pequeno Vermont, na fronteira com o Canadá. Não é de estranhar. A rejeição à figura presidencial aqui é tão intensa que 13% dos 620 mil habitantes se mostraram partidários de que o Estado se torne independente dos EUA em uma pesquisa feita pela Universidade de Vermont em abril. Bush nem passará pelo Estado quando visitar o vizinho Quebec -que tem seu próprio movimento separatista do Canadá- na próxima semana.

Vermont é o último baluarte da contracultura dos anos 60. "Talvez Bush não venha porque se sinta incomodado com amantes de árvores que comem granola e dirigem Volvos, que nadam pelados e fumam baseados", ironiza Thomas Naylor, um dos líderes secessionistas de Vermont, movimento ao mesmo tempo satírico e sério que reivindica a independência efêmera de Vermont entre 1777 e 1791, depois da derrota dos britânicos pela guerrilha de Ethan Allen, antes de se incorporar à União. Naylor, um septuagenário nascido no Mississípi que mora há anos em Vermont, usa uma camiseta que parafraseia um slogan do Vietnã: "EUA, fora de Vermont!", que ele comprou em uma loja de discos da capital, Montpelier. "Hoje a loja vende mais dessas do que discos", ele diz.

Curiosamente, há apenas três anos -quando "La Vanguardia" publicou sua primeira reportagem sobre o crescimento do movimento secessionista em Vermont-, Bush ainda rentabilizava o desprezo que se sentia em grande parte dos EUA por esse estereótipo de velho esquerdista de Vermont, feudo de gente que o comentarista conservador David Brooks batizou de "bobos" ("bourgeois bohemians", ou boêmios burgueses).

Algo mudou nos EUA desde então. Hoje Vermont parece ter-se transformado em um indicador avançado de mudanças em escala nacional: a queda da popularidade de Bush, oposição à guerra no Iraque, preocupação pelo aquecimento global, desconfiança das grandes multinacionais, preferência pela comida orgânica e os produtores locais... Todos esses valores se estendem pelo país inteiro, segundo as pesquisas. "Se alguém em Kansas quiser nos seguir, que seja bem-vindo", brinca Emma Quickel, que com seu marido Dave administra a Stony Loam Farm, uma pequena cooperativa agrícola em Charlotte, à margem do lago Champlain.

A Stony Loam Farm é o autêntico Vermont. Seus clientes são 125 famílias da tranqüila aldeia de Charlotte, que pagam cerca de US$ 300 uma vez por ano pelas verduras que receberão ao longo do ano. "A relação de confiança com os clientes é tão forte que nem pagamos o certificado oficial de produto orgânico; não é necessário", disse Dave Quickel, que parece transportado de Woodstock em 1967. Depois dos casos de intoxicação e as retiradas de brinquedos fabricados na China, pequenas empresas de brinquedos em Vermont dizem a mesma coisa: "Sempre enfatizamos que nossos brinquedos são feitos por nós, aqui em Vermont; isso gera confiança em segurança e meio ambiente", diz Mike Rainville, da Maple Landmark Toys em Montpelier.

A convicção de que pequeno é bonito -um dos princípios econômicos de Ernst Friedrich Schumacher adotados pelo grupo secessionista Second Vermont Republic- e a desconfiança do governo federal promoveram o movimento pela independência. Nenhuma empresa da revista econômica "Fortune 500" tem sede em Vermont. "Concorrer para captar investimentos de grandes firmas já não é uma opção", diz Naylor. "A IBM (que tem uma fábrica em Burlington) já demitiu 3 mil trabalhadores e logo se mudará daqui. E conforme o preço do petróleo torna essas grandes empresas inviáveis a pequena escala de Vermont, nosso caráter rural, será uma vantagem".

Para os separatistas, o sistema de democracia direta em Vermont é outro modelo a ser seguido. Burlington, com 40 mil habitantes, é a maior cidade do Estado mais rural do país, com 6 mil pequenas fazendas e uma vaca para cada três habitantes. Dos 246 povoados, 237 elegem suas prefeituras e uma vez por ano discutem temas locais e internacionais em assembléias. Em 2004, muitas dessas reuniões protestaram contra o envio da reserva militar de Vermont para o Iraque.

O Estado se beneficia de receitas líquidas do Tesouro federal -por cada dólar que paga a Washington, recebe US$1,20- mas Jesse, um psiquiatra de 31 anos residente em Montpelier, prefere "perdê-los" para que seu "dinheiro não vá para a guerra". "Os EUA são a maior ameaça do planeta, e cheguei à conclusão de que é melhor sonhar pequeno: que Vermont saia dessa", acrescenta.

Vermont está à frente de um grupo heterogêneo de Estados separatistas que inclui a Liga do Sul, grupo de evangelistas conservadores dos Estados sulistas, nostálgicos da secessão anterior à Guerra Civil. Também há separatistas no Alasca, Havaí e outros Estados do nordeste.

Uma vitória democrata nas eleições presidenciais do próximo ano provavelmente conterá por algum tempo o aumento do separatismo, pelo menos em Vermont. "Mas os democratas também são prostitutas do império, e isso logo ficará claro", diz Naylor. "Quer dizer, isto já começa a ser um movimento de massas, porque em resumo só há um tema: o império americano perdeu sua autoridade moral, já não é sustentável", conclui. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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