A herança vegetal de Burle Marx

Bernardo Gutiérrez
No Rio de Janeiro

O verde se contorce, como que azulando. Se espreguiça em uma sombra negra. Corre, como que fugindo, para um amarelo sépia. Cavalga, verde sobre verde, formando linhas oblíquas, perpendiculares, paralelas. A perspectiva coloca cada verde, cada espécie vegetal, em seu lugar: blocos nítidos, compactos, únicos. Só um paisagista visionário como Burle Marx (nascido em São Paulo em 1909 e morto no Rio de Janeiro em 1994) pôde conceber essa escada de verdes, uma escultura feita de natureza. Arte mutante, exata no agora, crescente no sempre.

Meio-dia. Calor úmido. O sítio Roberto Burle Marx embeleza meus sentidos; 365 mil m2; 3.500 espécies vegetais. Caminho por uma trilha pálida através do jardim, "natureza ordenada pelo homem", como costumava dizer Burle Marx. Susana Silva, uma bióloga de 23 anos que trabalha no jardim, me guia pelo labirinto natural de Burle Marx. Agora me mostra a Corypha umbra, natural do sul da Índia, conhecida no Brasil como palmeira dos cem anos. "Suas flores são belas. Mas a palmeira demora um século para florescer. E morre."

E a cada passo nos assalta uma surpresa vegetal. Plantas imigrantes (africanas, européias, latinas, asiáticas), plantas nativas (pau-brasil, sapucaia, açaí, samambaia). Troncos de pau-ferro do qual se tiram substâncias mineralizadas para construir ferrovias. Árvores que cheiram a alho. Flores de jade. Passear por esse delicioso rincão natural ajuda a entender melhor o gênio Burle Marx. Seu amor pela arte. Sua descomunal paixão pela natureza. Entre orquídeas e berimba (da qual se constrói o instrumento berimbau), assimilo a que, creio, foi a grande frase de Burle Marx: "Os jardins devolvem às pessoas o verde que a cidade lhes roubou".

Natureza na urbe
E aí, no verde recuperado, está a essência da obra de Burle Marx. Folhas entre cimento. Ramos entre concreto armado. As marcas do paisagista no Rio de Janeiro se acumulam em minha memória: o Parque do Flamengo, com sua sucessão de árvores e espaços lúdicos; os delicados jardins do Museu de Arte Moderna; o terraço do Ministério da Educação e Saúde (um oásis verde na selva urbana); partes da lagoa Rodrigo de Freitas (local delicioso, pulmão verde-aquático no coração da zona sul). E suas praças, os pequenos corações de vida entre o concreto armado carioca: o Largo do Machado ou a Praça Salgado Filho. Verde recuperado: um oásis de vida sem os quais as cidades, o Rio de Janeiro, seriam espaços mortos.

Entrando na mágica exuberância do sítio Burle Marx, vou descobrindo detalhes da vida do gênio.

"O curioso é que ele conheceu a flora brasileira na Alemanha, onde viveu com sua família na juventude. Ao voltar ao Brasil, foi o primeiro a usar exclusivamente plantas locais, bromélias, por exemplo, nos jardins". E é curioso, conta Susana, como as plantas, a arquitetura, o paisagismo, se cruzaram na vida de Burle Marx da maneira mais casual. Ele vivia ao lado da casa do arquiteto Lúcio Costa. Burle Marx tinha 23 anos e cuidava com esmero de um jardim do bairro. Um dia, em 1932, Lúcio Costa bateu à sua porta e lhe propôs que elaborasse um projeto paisagístico em Copacabana. Burle aceitou. Sessenta anos depois, seu currículo contaria com mais de 2 mil obras em todo o mundo.

Policriativo
Entro com cautela na casa em que ele passou seus últimos dias: salas semeadas de esculturas, pinturas, telas e um sem-fim de objetos (desde conchas do mar até fósseis) guardados com esmero. Nas paredes desta residência há várias pinturas dele. Em seus traços se adivinha a visão de homem universal. A residência, como sua obra pictórica, é um equilíbrio de tradição e vanguarda. O corredor externo, que dá para um pequeno lago com nenúfares, está cheio de carrancas (esculturas com forma de caras que se colocavam na proa dos barcos do rio São Francisco). Como se fosse pouco, Burle Marx tem a sala de visitas repleta de espadas-de-são-jorge, lanças e uma coleção de cerâmica do vale do Jequitinhonha, no Estado de Minas Gerais. É que Burle Marx encarnava o protótipo do artista total: paisagista, pintor, músico, escultor. Artes cruzadas e entrelaçadas. Todos os Burle Marx do mundo, todos os possíveis, juntos. Vanguarda, tradição. Tudo junto, todos em um. Lembro da que provavelmente seja sua obra mais conhecida no Rio de Janeiro: a calçada da Avenida Atlântica, os 4 km de piso que acompanham a praia de Copacabana; pedras brancas e negras, enredando-se em curvas sutis.

Refúgio verde
Avançamos pelos recantos do sítio Burle Marx, a maior obra de arte do paisagista/artista. Aqui ele recebia personalidades como Le Corbusier, Walter Gropius ou Tom Jobim. Susana, guia apaixonada, me conduz para o sombral (centenas de plantas que crescem sem a luz do sol). E me mostra a Heliconia aemygdiana Burle Marx, uma das 46 plantas que ele descobriu. Ao sair do sombral, embriagado de aromas, me espera Robério Dias, diretor do sítio.

"Burle chegou a ser como Beethoven. Ficou quase cego. Mas se perdia entre as plantas e punha ordem na natureza como se visse os mínimos detalhes".

Susana me mostra agora uma flor que adota a cor de carne podre, a textura e até o aroma, porque tem de ser polinizada por moscas. E assim, com sua putrefação poética e sensual, sobrevive. Natureza/arte em estado puro. Agora eu sei: todas as suas obras, de Copacabana a Flamengo, cabem nesta folha, putrefata e/ou bela, que dorme entre a sombra. O paisagista brasileiro legou um jardim de 365 mil m2 com 3.500 espécies Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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