Boicote aos governadores na Rússia

Gonzalo Aragonés
Em Moscou

A vida política na Rússia vive pendente da caneta do presidente Vladimir Putin, pois neste início de setembro poderá assinar o decreto que convoca oficialmente as eleições parlamentares do próximo 2 de dezembro. Seria o pontapé inicial, mas a campanha eleitoral começou faz tempo para os governadores.

No último ano os presidentes regionais russos se transformaram em um dos alvos preferenciais dos promotores, dividindo-os em "prejudicados" e "não-prejudicados". As investigações sobre suas relações ou as de seus colaboradores com o mundo dos negócios levou a acusações de uso indevido do cargo. E isso provocou no mês passado a demissão de três governadores: o da província de Velikiy Novgorod, Mikhail Prusak; o da província de Perm, Oleg Chirkunov; e o da ilha de Sakalina, no oceano Pacífico, Ivan Malakhov, oficialmente por má gestão da crise durante o terremoto de julho.

Denis Sinyakov/Reuters - 7.nov.2005 
Vladimir Putir durante as comemorações do 860º aniversário de Moscou, no domingo

Na semana passada caiu o quarto, Konstantin Titov, governador da província de Samara (no Volga) desde os tempos de Boris Ieltsin. Ao contrário de seus colegas, sua demissão deve-se a pressões políticas. "Estão mudando a equipe de governadores às vésperas das eleições. São avaliados por um critério muito simples: são capazes de agüentar resultados eleitorais aceitáveis para o centro ou não", analisa o cientista político Dimitri Oreshkin.

Na Rússia os chefes das administrações regionais se chamam governadores no caso das províncias e das regiões ou presidentes no caso das repúblicas autônomas. Até alguns anos atrás eram eleitos em sufrágio direto, mas numa reforma eleitoral de 2005 se eliminou a eleição direta, numa decisão muito criticada pela oposição. Desde então, é o Kremlin que propõe o candidato, e os parlamentos regionais os ratificam. Com esse esquema, a substituição dos governadores é mais simples, pois não têm a confiança do povo.

Segundo o jornal "Nezavisimaya Gazeta", o Kremlin se propõe a começar a substituir 17 presidentes regionais neste mês. A decisão é uma proposta do principal partido no poder, Rússia Unida, que assim prepara o terreno para as eleições de dezembro.

Como diz o diário, pretende-se "estimular uma rápida saída voluntária" dos presidentes "prejudicados" por escândalos de corrupção ou cuja política não seja aceita por 50% em suas regiões. Ao mesmo tempo, o Rússia Unida teria se comprometido a que nenhum dos novos governadores tenha interesses econômicos.

Segundo a imprensa russa, há dois elementos que deixaram nervosa a elite no poder para que tenha apontado diretamente contra os governadores. O primeiro é que no outono passado muitos deles começaram a fazer lobby para se incorporar ao segundo partido no poder, Rússia Justa, cujo nascimento já era senso comum. O segundo é que em conseqüência dessa atitude nas eleições regionais de março os resultados não foram os desejados e os comunistas conquistaram postos chaves das forças ligadas ao Kremlin.

Uma das primeiras "rotações", como são chamadas eufemisticamente essas trocas, poderia ser a do governador da província de Arkhangelsk, no norte da Rússia européia. Nikolai Kisiliov é protagonista de um conflito político com o prefeito da capital da província, Alexander Donsky, desde que este disse que se candidataria à presidência da Rússia. O Rússia Unida pretenderia mudar essa imagem negativa com uma aposta firme, já que o novo governador poderia ser Artur Chilingarov, vice-presidente do Parlamento e chefe da recente expedição ao pólo norte. O Kremlin acelera a troca dos presidentes regionais "prejudicados" às vésperas das eleições parlamentares. O partido Rússia Unida quer novos governadores com uma imagem limpa e sem interesses econômicos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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