Exército britânico termina a retirada de Basra depois de acordo com a insurgência xiita

Rafael Ramos
Em Londres

Com sigilo, à noite e de cabeça baixa, sob um férreo bloqueio informativo, o exército britânico terminou na terça-feira sua retirada do perímetro urbano da cidade iraquiana de Basra, depois de fazer um acordo secreto com o religioso radical xiita Moqtada al Sadr para que os soldados pudessem abandonar sua base, no antigo palácio de Saddam Hussein, sem medo de ataques dos insurgentes, em troca da libertação de 60 prisioneiros.

O objetivo era evitar a todo custo que as câmeras de televisão e dos fotógrafos captassem imagens no estilo Saigon dos helicópteros abandonando o recinto sob a luz das estrelas do deserto. É nesse sentido que o Ministério da Defesa fala em "missão cumprida", embora não seja nem de longe o momento de maior glória de um exército que lutou com orgulho e heroísmo no Somme, em Waterloo e El Alamein.

EFE/MOD CPL STEVE FOLLOWS CROWN 
Foto distribuída na segunda-feira (3/9) mostra movimento de retirada do exército britânico

O primeiro-ministro Gordon Brown insistiu em que "não se pode falar em derrota", mas que outra coisa iria dizer? Quatro anos depois de sua chegada triunfal para pôr ordem na cidade de Basra, no sul do Iraque, com um coquetel de balas e sorrisos, graças à sua experiência em reconstrução colonial e luta antiterrorista na Irlanda do Norte, e de que os fuzileiros tirarem fotos jogando futebol com as crianças iraquianas, as cornetas tocaram a retirada e os 500 soldados encarregados da segurança se refugiaram no terreno menos hostil do aeroporto, onde também não pretendem ficar muito tempo.

A versão oficial é que a operação fazia parte do plano previsto para transferir ao governo e ao exército iraquianos a responsabilidade pela defesa de Basra, onde os insurgentes estão infiltrados na polícia e nas forças de segurança, e diversas máfias e guerrilhas têm aterrorizado a população em meio a suas disputas pelo controle de armas, munições, água, petróleo, víveres e qualquer coisa que tenha valor no mercado negro. A realidade em campo é o caos mais absoluto.

Para chegar a essa situação, tiveram de morrer 168 soldados britânicos, que foram sabendo que podiam perecer, mas em defesa dos interesses nacionais de segurança em vez dos lucros da Halliburton e outras empresas ligadas ao vice-presidente americano Dick Cheney e aos neoconservadores. O custo total da guerra até agora para o Reino Unido é de 8 bilhões de euros, e 70% dos britânicos - segundo uma pesquisa da BBC - acreditam que a presença das tropas não serve para nada positivo e que deveriam voltar para casa.

Um dano colateral da retirada de Basra e da virada na política iraquiana de Downing Street é a relação transatlântica entre um Gordon Brown reforçado pelas pesquisas e a quem o eleitorado britânico decidiu dar uma oportunidade e um presidente americano, Bush, que avança a tropeções para sua retirada dentro de pouco mais de um ano e que está empenhado em beneficiar até o fim os mesmos interesses que o levaram a invadir o Iraque sob o pretexto do 11 de Setembro.

Os ataques entre os dois parceiros principais da aliança que invadiu o Iraque são mútuos e igualmente venenosos. Do Pentágono saem vozes que acusam Londres de não ter sido capaz de suportar a pressão e de agir por considerações políticas (como se as de Bush não o fossem), enquanto alguns generais britânicos (Mike Jackson e Tim Ross) denunciam a "bancarrota moral" de Rumsfeld e companhia e dizem que "os americanos acreditavam que bastava derrubar a estátua de Saddam Hussein". Os EUA não descartam enviar um destacamento à região para manter abertas as linhas de abastecimento para o Kuwait.

A verdade é que dos 18 mil soldados que o Reino Unido chegou a ter mobilizados no Iraque em maio de 2003 restam apenas 6.800, a imensa maioria entrincheirada no aeroporto nas redondezas de Basra e nenhum no centro de uma cidade onde impera a anarquia. As tropas do 4º batalhão viviam no palácio de Saddam Hussein em um virtual estado de sítio, sem poder sair para patrulhar, objeto de constantes ataques de mísseis e morteiros.

Sua retirada em um comboio de oito tanques e seis Land Rovers não foi exatamente triunfal, mas pelo menos o mundo não viu a imagem do último soldado apagando as luzes e baixando a Union Jack. Britânicos se estabelecem no aeroporto e deixam para as forças armadas iraquianas - infiltradas pelos insurgentes - a tarefa de pôr ordem numa cidade onde máfias e guerrilhas lutam por armas e recursos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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