Censuro e eu gosto!

Rafael Poch
Em Pequim

Desde junho do ano passado os cineastas chineses só precisam enviar um breve resumo de 1.500 palavras de seu filme para submetê-lo à censura. Ficaram para trás os tempos em que era exigido o roteiro completo da obra como requisito para poder começar a filmar. É o que explica o vice-presidente do Departamento Estatal de Cinematografia, Zhang Hongsen, que afirma com orgulho e sem complexos que "a censura chinesa nunca destrói a imaginação e a criatividade de ninguém".

Em uma ampla e insólita entrevista ao jornal oficial "China Daily", Zhang explicou recentemente o novo e simplificado sistema da censura cinematográfica no país, como se organiza e qual é sua mecânica. O país está dividido em sete regiões com "direitos de censura local", isto é, com atribuições para decidir por si mesmas sobre as obras. Trata-se das cidades de Pequim e Xangai e das províncias de Cantão, Jilin, Zhejiang, Shaanxi e Hubei.

Divulgação 
Cena de "Herói", filme de Zhang Yimou, cineasta que passa pela avaliação da censura

Nessas regiões, os autores cinematográficos só têm de apresentar previamente os resumos de seus roteiros aos respectivos departamentos locais, que em questão de 20 dias respondem se é necessário retocar a obra ou não. Uma vez concluída, os cineastas não precisam mais enviar uma cópia ao Departamento Estatal de Cinematografia. Esse procedimento normal tem algumas exceções segundo a temática dos filmes, explica Zhang.

"Se o filme tiver a ver com temas históricos ou significativos da revolução, com religião, com menores, com diplomacia ou com o sistema judiciário, deve-se apresentar uma versão completa do roteiro", indica.
Os comitês de censura são compostos por 24 membros. Cinco deles são funcionários do departamento, outros quatro são pessoas relacionadas ao mundo do cinema e os 15 restantes, professores, críticos ou especialistas ligados à cinematografia. "Também temos um comitê especial composto por pessoas que trabalham no exército, na polícia, nos órgãos judiciais, instituições educativas e associações de mulheres e jovens", explica o funcionário. "Só as chamamos quando o filme está ligado ao seu campo", explica.

As decisões são democráticas. Segundo Zhang, "pelo menos a metade (dos membros do comitê de censura) devem estar presentes quando se assiste a um filme" e "o resultado é decidido pela maioria", tendo o voto do chefe do departamento "o mesmo valor que o de um professor". As objeções ao diretor do filme são feitas por escrito se forem de caráter "simples". "Se a situação for mais complicada, temos uma discussão cara a cara com o diretor", continua.

O vice-presidente de departamento se orgulha de que no último filme de Zhang Yimou, o mais famoso diretor chinês, uma cena excessivamente violenta foi reduzida "a um terço ou um quarto de sua extensão original".
EXAME DE ROTEIRO
Os cineastas chineses devem enviar um breve resumo do roteiro de seu novo filme -ou a versão completa se for de tipo político ou histórico- ao Departamento de Censura, que em 20 dias decide sua viabilidade.

REVISÃO FINAL
Uma vez concluído o filme, pelo menos a metade dos 24 membros do comitê censor deve assisti-lo e depois consultar, se for preciso, comitês especiais ligados ao exército, à polícia e outros órgãos, e votar se houver objeções. Se forem simples, são transmitidas por escrito ao cineasta; caso complexas, este é chamado para uma entrevista.
COMO FUNCIONA


"Quero deixar claro uma coisa", acrescenta. "Não fazemos favores extras aos diretores famosos".

Em relação aos diretores "underground", que são marginais a todo esse sistema, o funcionário chinês opina que se trata unicamente de uma posição ligada a interesses pessoais de publicidade no âmbito internacional: "Alguns tentam jogar a cartada da censura para ganhar prêmios no Ocidente", afirma.

Levando em conta que o "China Daily" -publicado em inglês, é habitualmente consumido pela comunidade estrangeira- é um órgão orientado para a imagem externa do país e que a censura na China é um tema inaceitável no estrangeiro, as explicações do censor loquaz são um evidente erro de propaganda.

Mas Zhang é entusiasta e eloqüente: "Apenas um dos cerca de 330 filmes revisados no ano passado foi rejeitado, porque tinha a ver com os pormenores vitais de um transexual; em 2007 nenhum dos 202 filmes observados foi recusado", diz.

Menos tecnocrata e mais filósofo da censura é o propagandista Yuan Zhifa, ex-diretor do jornal "Guangmingbao", cujo artigo de opinião está sendo divulgado nos últimos dias pelo Departamento Central de Propaganda.

"Quando as pessoas me perguntam o que é o mais profundo de minhas décadas de trabalho na informação, respondo convencido que o mais crítico é manter a condução correta da opinião pública", argumenta.
Em matéria de condução correta, "há dois acontecimentos que nunca esquecerei", indica. Por um lado, "a tormenta de 1989" com o movimento social chinês que concluiu no esmagamento e "a desintegração da URSS e as dramáticas mudanças na Europa do Leste". Para Zhifa, "a condução incorreta da opinião" foi um "motivo importante" desses dois descalabros.

CINEMA E GOVERNO
Mark Ralston/AFP
Pedestres em Xangai passam diante de cartazes de filmes
CINEASTA E VALORES MORAIS
CONGRESSO DO PC
Com a abertura realizada pelo ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev, ele explica, "as pessoas perderam sua coluna vertebral, seguiu-se o caos ideológico, o coração do povo se dispersou, o país se desintegrou e tudo acabou".

O artigo, que está sendo reproduzido em vários sites da Internet chinesa e foi traduzido pelo China Media Project com vista ao Congresso do Partido Comunista Chinês do próximo mês de outubro, conclui com a afirmação de que "a correta condução da opinião pública significa a prosperidade do partido e do povo, enquanto a condução incorreta estende o desastre para ambos". O vice-presidente do departamento de cinema chinês explica sem rubores o trabalho de seu órgão Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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