O mar de ricos

J. Ramón González Cabezas

O elevado crescimento do censo mundial de multimilionários, animado pela enxurrada de novas fortunas que surgem nas potências emergentes, empurra a demanda de iates de luxo. Mônaco é a vitrine do sucesso do setor, com a nova edição do Monaco Yacht Show (MYS), único salão náutico dedicado exclusivamente a barcos de recreio de grande luxo, a partir de 25 metros e com preços de mais de US$ 100 milhões. De um ano para outro, a lista de fortunas que alcançam o bilhão de dólares já beira o milhar (946, segundo a revista "Forbes"), depois da entrada de 178 novos sócios, 20% a mais que em 2006 e o dobro de 2003. O boom do iatismo de luxo é um termômetro do crescimento e da expansão desse clube privilegiado.

Valerie Hache/AFP - 3.mai.2004 
Dois iates em exposição no Monaco Yacht Show deste ano

Cerca de uma centena de grandes iates de até 90m ilustram os gostos cada vez mais surpreendentes das grandes fortunas amantes do mar. Os iates adquiriram dimensões colossais, são cada vez mais caros e seu equipamento e conforto alcançam níveis inverossímeis de sofisticação. O MYS pretende atrair em quatro dias 24 mil participantes de todo o mundo e todos os setores relacionados ao iatismo de luxo, reunidos não por acaso no Principado de Mônaco, refúgio dourado de algumas das maiores fortunas do planeta.

"Até agora estávamos em um micromercado em relação à aviação ou ao automóvel, mas o setor se desenvolve de maneira exponencial", declarou à France Presse Luc Pettavino, diretor do salão, que afirma que a demanda supera a oferta. "O mercado ainda é pequeno em relação às dezenas de multimilionários que nascem todo ano no planeta e aspiram a ter um iate", ele diz. O responsável pelo MYS indica que as listas de espera crescem a ponto de um iate encomendado este ano ser entregue em 2013.

Um total de 95 iates, dos quais 57 medem mais de 40m, são exibidos nas águas de Mônaco até o próximo sábado pelo apreciável ingresso de 50 euros. Segundo os organizadores, atualmente estão em construção no mundo 800 grandes iates (barcos a vela ou a motor, com mais de 24m), e entre 2005 e 2010 o número de embarcações de mais de 25m será duplicado, enquanto o de mais de 50 se triplicará.

Americanos e europeus constituem a clientela principal dos grandes iates. Entre os segundos destacam-se os clientes da Itália, Espanha, Grécia e Reino Unido, mas aumenta a demanda dos novos czares e mandarins do capitalismo do Leste. "Há dois ou três anos também temos uma importante clientela asiática, especialmente da China", diz Johan Pizzardini, porta-voz do MYS. "O mercado russo desembarcou", salienta.

As dimensões de algumas embarcações da opulenta frota ancorada nas águas do principado demonstram a ambição dos construtores e clientes. O maior iate é o Alfa Nero, construído pelos estaleiros holandeses OceAnco, com 82m de comprimento. A exuberância dos navios é inversamente proporcional à discrição em torno dos preços e à identidade dos proprietários. Os iates maiores e mais luxuosos custam mais de US$ 100 milhões (72 milhões de euros), sem contar os enormes custos de manutenção, que oscilam entre 5% e 7% do valor inicial do barco.

Atualmente o maior iate privado do mundo é o Dubai, pertencente ao próprio emir, com um comprimento espetacular de 160m. No entanto, essa marca será superada em breve pelo Eclipse, o futuro iate do jovem oligarca russo Roman Abramovitch, de 40 anos e com residência habitual em Londres. Com 165m, o novo barco do dono do time de futebol Chelsea terá várias pistas de helicóptero, piscina e até um minissubmarino para abandonar o barco em caso de ataque aéreo ou outra emergência. Abramovitch é a maior fortuna da Rússia e a 16ª do mundo, segundo a popular lista da revista "Forbes", que calcula seu patrimônio pessoal em 13,4 bilhões de euros.

Apesar do sigilo e da discrição que envolvem seus movimentos e atividades, a marca Abramovitch é sinal de exagero. O jornal francês "Le Figaro" revelou recentemente que o influente magnata russo é o maior comprador individual do gigantesco avião A380 da Airbus, com capacidade para transportar até 820 pessoas e com preço de catálogo de 230 milhões de euros. A encomenda foi anunciada pela companhia no último salão de Le Bourget, em Paris, embora sem revelar a identidade do excêntrico cliente. Um porta-voz de Abramovitch, que por enquanto usa como avião particular um pequeno Boeing 767, negou essa operação, sobre a qual a Airbus guarda silêncio. A globalização da economia e a proliferação e o sucesso dos mercados emergentes animam o fenômeno do transporte privado e, ao mesmo tempo, as possibilidades de lazer e de negócios de barcos e aviões, exibidos com freqüência como ícones das grandes fortunas que crescem em todo o planeta Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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