Javier Marías publica "Veneno y sombra y adiós"

Justo Barranco
Em Madri

Javier Marías concluiu depois de oito anos sua obra mais ambiciosa, "Tu rostro mañana" (editora Alfaguara) ["Seu rosto amanhã", editado no Brasil pela Companhia das Letras], um projeto incomum tanto pelo número de páginas -os três volumes que compõem a novela somam 1.600- como pela amplitude dos temas tratados, das relações de casais até a marca que alguém deixa, das cloacas do Estado à violência e à traição. A primeira parte de "Tu rostro mañana", com o subtítulo de "Fiebre y lanza", apareceu em 2002. Marías explicou então que a obra seria completada com outro volume. Não foi suficiente.

As vivências do protagonista, Jacobo ou Jaime ou Jacques Deza, com a inteligência britânica -na qual trabalha graças a sua capacidade de saber do que as pessoas são capazes, de ver seu rosto futuro-, mas também com sua ex-mulher e com seu pai, muito parecido com o do próprio Marías, e com um velho professor de Oxford -um sósia do professor Peter Russell, que trabalhou para a espionagem inglesa- deram lugar a "Baile y sueño" em 2004, e desde então a uma terceira e última parte, "Veneno y sombra y adiós", um monumento de 700 páginas.

Bernardo Rodriguez/EFE - 24.set.2007 
Javier María durante o lançamento de seu livro "Veneno y sombra y adiós" em Madri

A entrevista:

La Vanguardia - "Tu rostro mañana" cresceu bem mais do que o senhor esperava. Foi uma surpresa ou o tamanho estava calculado?
Javier Marías -
Nunca tenho a totalidade das histórias de meu romance pensada, e apenas tomo algumas notas ao longo do processo. Quando comecei a escrever a obra, sabia que seria longa, mas nem tanto. Mas o próprio "Quixote" ia ser uma novela curta, só os seis primeiros capítulos... Se eu soubesse que meu romance seria tão longo, não o teria começado, teria parecido desmedido para minhas forças.

LV - Como o senhor vê hoje todo esse trabalho?
Marías -
Embora não estivesse no meu ânimo, a novela pretende falar de tudo, entre aspas. De como somos e nos comportamos, da velhice, do esquecimento, da memória, do tempo de guerra, do tempo de paz, de como se vivem as coisas em um tempo e no outro e como um tempo julga o outro, do medo, da violência, da conveniência de contar ou não as coisas, de que perdurem ou se dissolvam, do amor, do que o Estado faz por baixo dos panos, de como seremos amanhã, de ver até que ponto podemos conhecer as pessoas mais importantes e próximas e até que ponto podemos conhecer a nós mesmos também, de que não se pode dar nada por consumado. E sobre nosso tempo: há poucos romances que falam dele. Há romances históricos, esotéricos e outros que se consideram de hoje porque falam dos "pós", mas é puro realismo, como o dos anos 50.

LV - "Tu rostro mañana" é um romance sobre o conhecimento e o autoconhecimento?
Marías -
Sobretudo sobre o conhecimento das pessoas... e a impossibilidade de conhecê-las. De autoconhecimento nem tanto, porque, como se diz no livro, não tem muito interesse ou é perda de tempo. A quem mais nos interessa conhecer é a nossos seres queridos. Há pessoas que se auscultam constantemente, mas sobre nós sabemos o bastante... e por outro lado nunca poderemos saber tudo, ter certeza de que não faremos tal coisa ou, e é outro tema, de que algo que dizemos involuntariamente não provoque coisas muito daninhas. Falamos e falamos. E as palavras às vezes desencadeiam coisas inimagináveis. E às vezes perfeitamente imagináveis.

LV - Na obra, o senhor sugere que todos podemos ver muitas coisas, mas não queremos olhar.
Marías -
Como num Estado democrático, que quando faz algo muito ruim preferimos não saber. Ou com amigos que, quando nos acontece algo bom, não se alegram o suficiente, pequenas deslealdades que preferimos ignorar... De fato, na novela só um personagem não comete uma traição: o pai do narrador.

CONHEÇA O ESCRITOR
Bernardo Rodriguez/EFE - 24.set.2007
O autor madrilenho Javier Marías
UM REI DA LITERATURA
LV - Um alter ego de seu pai, Julián Marías.
Marías -
Ele foi traído por seu melhor amigo no final da Guerra Civil, e salvou-se do paredão por acaso. Esse assunto sempre me interessou, está em minha vida e me fez refletir muito sobre os motivos e o caráter da traição. E sobre como ver seu rosto amanhã.

LV - Um de seus personagens, Tupra, denuncia a atitude infantil de nossa sociedade em relação à morte. O que o senhor pensa?
Marías -
Tupra tem algumas idéias que surgiram ao conversar com meu amigo Arturo Pérez-Reverte, que conheceu guerras. Hoje a sociedade é um pouco covarde, exagera um pouco. A vida humana é sagrada, mas em épocas menos remotas não se fazia tal drama, contava-se com que as pessoas podiam morrer, e nem sempre por deficiências. Estamos tentando abolir o acaso, como se fôssemos perfeitos. O que sai do transcorrer das coisas é vivido como uma enorme tragédia. Que pode ser em nível pessoal, mas não em si mesmo, como o que ocorreu com a morte desse jovem jogador de futebol. Mas parece que a única maneira de suportar os mortos é transformá-los em espetáculo.

LV - O narrador vê a Espanha como "um país envilecido até a medula". O senhor acredita nisso?
Marías -
É exagerado, mas não totalmente. Transformou-se em uma sociedade de novos ricos com poucos escrúpulos e uma moral muito frouxa. Para não falar do grau de ignorância e, sobretudo, de satisfação com essa ignorância, e isso sim é mais novo. Estou bastante decepcionado com meu país e minha época. E há outra coisa que não é nova que a riqueza não eliminou: é um país com muita raiva, muito mau humor, muita gente dedicada a irritar por irritar.

LV - No terceiro volume morre o alter ego de seu pai, assim como ocorreu ao senhor enquanto o escrevia. Foi difícil narrar isso?
Marías -
Meu pai morreu enquanto eu escrevia. Se não, não sei se teria me atrevido a fazê-lo morrer na novela. Foi difícil escrever, e também me consolou. Foi como mantê-lo vivo na ficção. Ao terminar o livro, tive uma sensação de perda, de que agora sim ele havia morrido totalmente e eu já não podia mais falar com ele. "Meu romance pretende falar de tudo", diz o escritor Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos