Imre Kertész, sobrevivente do Holocausto, prêmio Nobel de Literatura em 2002: "Os verdadeiros canalhas sempre vêm para salvar o mundo"

Ima Sanchés

"Tenho 78 anos. Nasci em Budapeste (Hungria) e vivo em Berlim (Alemanha). Me casei há 11 anos. Ela tem filhos e netos. Vivemos em um mundo perigoso, mas continuamos vivendo. A civilização européia é produtiva e criativa, mas é uma pequena mancha rodeada de um grande caos. A transcendência me parece indiscutível; no entanto, só podemos percebê-la."

Leia abaixo a entrevista com o escritor.

La Vanguardia - Qual é a pergunta mais importante que o senhor já fez a si mesmo?
Imre Kertész -
Existo ou não existo, é a pergunta mais importante em um mundo manipulado, sobretudo nas ditaduras, as atuais e a que vivi quando saí de Auschwitz.

EFE/Ballesteros
O escritor húngaro Imre Kertész, que foi prisioneiro em Auschwitz
LV - E qual é sua resposta?
Kertész -
Existo, e isso é acompanhado de um trabalho sem fim, já que fazer parte de uma massa de 6 milhões de pessoas sem nomes nem sobrenomes o empurra no sentido contrário.

LV - Como conseguiu sentir-se alguém?
Kertész -
"Tenho de criar a mim mesmo", eu me disse, e aí começa a ficção.

LV - O senhor é uma ficção?
Kertész -
O homem é uma ficção, mas, em um mundo ditatorial, alguém decidir se vai viver sua ficção ou entregar-se às mentiras do regime exige ser muito conseqüente, e isso é o importante.

LV - Afinal, tudo é uma mentira, do modo como o senhor coloca...
Kertész -
Logicamente, mas existem mentiras que são bonitas e outras das quais nos envergonhamos.

LV - O senhor aprendeu a viver sem pretextos?
Kertész -
Sim, isso é o mais importante para libertar-se das ideologias violentas. Em meio ao grande ruído que nos rodeia, é fundamental criar um pequeno silêncio dentro de si para poder começar a pensar com serenidade, já que tudo começa no pensamento.

LV - O que aprendeu da essência do ser humano?
Kertész -
No comunismo, a única realidade que existe é a que está fora de nós, a objetiva. E essa é uma mentira muito perigosa, porque nos adaptamos a um mundo falso e estragamos nossa vida. Dentro do absurdo da vida humana é preciso saber o que sou realmente e o que influi em mim de maneira negativa.

LV - O senhor encontrou o porquê do Holocausto?
Kertész -
Alguns o explicam inserindo-o dentro do sofrimento da história do povo judeu, mas eu não sou religioso, não aceito pertencer a uma massa. Preciso elaborar isso individualmente. Talvez se trate do que o homem é capaz de fazer ao homem. Historicamente, o Holocausto é algo totalmente novo, que ocorreu dentro da reflexiva cultura européia. Foi tamanho o trauma no campo do pensamento e da fé, que rompeu definitivamente com toda a tradição humanista.

LV - Não nos recuperamos?
Kertész -
Seria preciso criar uma nova moral na consciência de todos, mas não parece muito factível, por isso vivemos em um mundo perigoso.

LV - Entendo que Auschwitz foi o começo de algo.
Kertész -
Sim, porque rompeu com uma tradição judaico-cristã de responsabilidade. E é novo porque é universal, porque a partir de Auschwitz todo mundo tem de contar com essa possibilidade.

LV - Vivemos com o temor do mal de que somos capazes?
Kertész -
Já não existe uma visão do mundo ordenada, na qual possamos nos instalar comodamente. Nesse sentido a vida individual é mais interessante, porque cada um tem de decidir por si só. Mas a falta de confiança no outro nos deixa sós. É assim, e também nos torna pessoas menos boas. E volto ao mesmo, exatamente por isso o mundo é tão perigoso hoje.

Embora pertencente a uma família judia não-praticante, coube a Imre Kertész viver um destino judeu com todas as suas conseqüências. Chegou a Auschwitz com 15 anos e salvou-se da morte várias vezes. Depois o esperava outro horror, o regime stalinista da Hungria, que o castigou por ser filho de um burguês. Durante 35 anos esse homem amável viveu sem reconhecimento em um apartamento de 29 m, onde escreveu seus três grandes romances, "Sem Destino", "Fiasco" e "Kaddish pelo Filho Não-nascido". Agora, a editora Acantilado apresenta "Dossiê K.", livro no qual ele entrevista a si mesmo.
DESTINO JUDEU
LV - Por que o senhor se salvou?
Kertész -
Quando chegamos a Auschwitz, seres estranhos com uniformes de prisioneiros que subiram ao vagão de carga insistiram que em vez de 15 anos eu tinha 16. Depois passamos diante de um oficial médico que, sem nos olhar, perguntava nossa idade. Por impulso eu disse 16. Todos os meus companheiros, de 15 ou menos, foram diretamente para a câmara de gás. Casualidade? A palavra "casualidade" não tem sentido, não explica nada. Individualmente, creio que me salvou a transcendência, nessa e em muitas outras vezes.

LV - Como alguém se livra da culpa do sobrevivente?
Kertész -
Eu extraio do negativo o material que utilizo em meus romances e o transmuto em positivo. Mas o que me salvou é que eu tinha 15 anos quando vivi o horror, e como menino tinha confiança no mundo. Outros que o viveram já adultos, como Jean Améry, meu escritor favorito, acabaram se suicidando.

LV - O vivido era insuperável...
Kertész -
Quem perdeu a confiança no mundo, explica Améry, está condenado a uma eterna solidão entre os homens. Nunca haverá no outro um próximo, mas sempre só um inimigo.

LV - O mal sempre pode ser explicado, o senhor diz: explique-o para mim.
Kertész -
O mal sempre parte de interesses individuais; o bem, no entanto, se situa além da capacidade de raciocínio, não tem por quê. O ruim do mal é que se apresenta como bem. Os verdadeiros canalhas sempre vêm salvar o mundo e tudo acontece com as melhores intenções.

LV - Auschwitz é a história de uma submissão coletiva?
Kertész -
Sim, existiu tanto por parte das vítimas como dos assassinos; e é sem dúvida o ponto mais vergonhoso do ser humano.

LV - Houve momentos felizes em Auschwitz?
Kertész -
Sim, surgem da profundeza do ser, é como o mar que o inunda, passa muito rápido, mas deixa a recordação, é a vitalidade.

LV - O senhor vive com entusiasmo?
Kertész -
Eu estou do lado da alegria. Só se pode escrever partindo de um excesso de energia, ou seja, da alegria. A escrita é vida intensificada. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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