Cientistas esclarecem a rota inicial do vírus da Aids

Mónica Planas
Em Barcelona

O vírus da Aids (HIV) saiu da África Central e chegou ao Haiti em 1966; três anos depois, e provavelmente através de uma única pessoa, o vírus entrou nos EUA; e daí se espalhou para o resto do mundo, segundo uma pesquisa da Universidade do Arizona (EUA) que analisou a rota seguida pelo HIV no início da epidemia.

Segundo os responsáveis por esse estudo, que apresentarão seus resultados esta semana na edição eletrônica da revista "Proceedings" da Academia Nacional de Ciências dos EUA, quase todos os vírus do subtipo B (que predomina na maioria dos países do mundo, entre eles a Espanha) são descendentes do procedente do Haiti. A novidade que traz a investigação não afeta só a rota do vírus, mas também o calendário da epidemia. O vírus que deu origem à atual epidemia global chegou aos EUA por volta de 1969, cerca de quatro anos antes do que se acreditava até agora.
Um em cada 20 haitianos tem Aids. Os pesquisadores atribuem a elevada incidência da Aids no país ao fato de o HIV ter chegado lá antes que a outras regiões. Essa chegada precoce, em um vírus que sofre mutações rapidamente, facilitou a grande diversidade genética do vírus que ocorre no Haiti. A violência sexual contra as mulheres, as crenças na magia para curar doenças e a precocidade sexual facilitaram sua propagação.
AIDS NO HAITI


O estudo da Universidade do Arizona não é o primeiro que salienta a importância do Haiti na propagação do HIV, mas dá provas genéticas que confirmam essa teoria. Michael Worobey, diretor do estudo, espera que as pesquisas sobre a evolução do vírus e sua diversidade genética possam ser úteis para desenvolver novas vacinas contra o HIV. "O principal desafio para desenvolver uma vacina é a tremenda diversidade genética do vírus", afirma em um comunicado divulgado pela Universidade do Arizona.

Para Josep Maria Gatell, chefe do serviço de doenças infecciosas e Aids do Hospital Clínic de Barcelona, esse estudo serve para validar algumas das muitas hipóteses que se fizeram sobre a trajetória geográfica do HIV. Mas adverte que sua utilidade para enfrentar novas epidemias é relativa. "Sempre é bom saber como aconteceram as coisas, mas as epidemias nunca repetem as mesmas pautas. Saber o percurso do HIV pode dar uma visão de como se poderia produzir uma epidemia semelhante, mas o caminho não seria o mesmo. Por isso os dados também não serviriam para atuar de maneira preventiva."

A pesquisa se baseou na reconstrução das árvores genéticas do HIV. Os autores do estudo analisaram as mostras dos primeiros cinco pacientes identificados nos EUA, todos eles emigrados recentes do Haiti. A equipe também analisou as seqüências genéticas do vírus de outros 117 pacientes de diversas partes do mundo que foram infectados com o subtipo B, a variedade mais disseminada pelo mundo. Finalmente, com um programa de estatísticas, puderam estabelecer o parentesco entre os diversos vírus analisados e reconstruir sua história evolutiva.

No futuro os pesquisadores prevêem remontar a história do HIV ainda mais no passado do que se conseguiu até agora, usando amostras cada vez mais antigas para completar a história da origem da epidemia. O HIV chegou ao mundo todo depois de fazer escala no Haiti Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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