China amplia presença na economia da América Latina

J. Ramón González Cabezas
Em Barcelona

A China amplia sua presença nas economias em desenvolvimento da África e da América Latina. O gigante asiático é, depois dos EUA e da França, o terceiro parceiro comercial da África, de onde importa um terço de suas necessidades de petróleo. Sudão, Argélia, Angola e Nigéria são seus grandes fornecedores do ouro negro, do qual a China deixou de ser auto-suficiente em 1993. A África é sem dúvida um grande viveiro da trepidante economia chinesa, que em 2006 gerou no continente um fluxo comercial de US$ 50 bilhões, cinco vezes mais que em 2000.

No entanto, a África não é suficiente para suprir as enormes necessidades de matérias-primas da terceira potência econômica mundial, que cresce a um ritmo de 11,5% ao ano. A América Latina também se consolida como um continente aberto ao boom exterior da China, transformada definitivamente em um parceiro comercial de primeira ordem. A prova disso é que o valor de suas operações comerciais e investimentos na região também alcança os US$ 50 bilhões.

"A América Latina olha cada vez mais para a Ásia", afirma Javier Santiso, diretor-adjunto e economista chefe do Centro de Desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). "Com um crescimento galopante do PIB e escassez de terras cultiváveis, o apetite da China por recursos naturais e produtos agrícolas parece ser uma boa notícia para a América Latina", afirma Santiso, que apresenta a China como um anjo comercial por sua capacidade de dar vazão ao crescente caudal de recursos do subcontinente e conectar os países latinos com a economia mais explosiva do globo. "No início temia-se que a China fosse um concorrente, um demônio comercial de efeitos nocivos na região, mas demonstrou ser um grande importador com efeitos bilaterais muito positivos", acrescenta.
A China já superou os EUA como maior comprador das exportações do Chile, o único país latino-americano que assinou um tratado de livre comércio com o colosso asiático. Esse fato ilustra o crescente papel da China na América Latina e põe em questão a hegemonia dos EUA como maior potência econômica mundial, inclusive em território de seu próprio continente, no que já foi chamado de seu "quintal". "O mundo está mudando com grande rapidez e o centro já não é tão central nem a periferia é hoje tão periférica", afirma Santiso. "O boom dos fluxos sul-sul é um fato consolidado e basta dizer que se há 50 anos os países da OCDE representavam 75% do PIB mundial, hoje estão abaixo de 60%", afirma o especialista dessa organização.
O NOVO 'QUINTAL' DOS EUA


Mais de 30% das exportações do subcontinente latino-americano são matérias-primas, porcentagem que supera os 50% se forem incluídos os produtos primários e semimanufaturados. "Nem tudo é importar soja para alimentar a população e minerais para alimentar a indústria", diz Santiso, que cita os contratos conseguidos na China pela indústria aeronáutica Embraer, a fabricante de ônibus Marcopolo e o colosso do ferro CVRD (Companhia Vale do Rio Doce) como expoentes da incipiente vocação investidora das potências emergentes da América Latina no gigantesco mercado asiático.

Em todo caso, os dados sobre as exportações das economias latino-americanas com destino à Ásia corroboram que a China é um comprador insaciável de matérias-primas. Só em 2003 o gigante asiático duplicou as importações de níquel, as compras de cobre cresceram 15%, as de petróleo 30% e as de soja até 70%. A China é o maior consumidor de cobre, zinco, platina, ferro e aço do planeta, fato que fez disparar as exportações dos países latino-americanos.

Só nos três primeiros anos do século, as exportações do Brasil cresceram 500%, as da Argentina 360% e as do Chile 240%. Este último lidera as vendas de matérias-primas para a Ásia em geral, com 36% de suas exportações, das quais 15% se concentram na China. O próprio México, concorrente no mercado de produtos manufaturados, multiplicou suas exportações para a China em 1.000% nesse período. "Pela primeira vez na história a América Latina pode se beneficiar não só de uma, mas das três maiores economias do planeta", salienta Santiso, que indica que se até os anos 1980 os EUA foram o único parceiro comercial e nos 90 houve o boom dos investimentos europeus, "hoje a China está se transformando rapidamente em um novo pretendente, seguida não de longe pela Índia e outros países asiáticos".

Os especialistas salientam que a China também é um fator de peso no fluxo de capitais. De fato, o colosso asiático pediu seu ingresso no Banco Americano de Desenvolvimento, onde já estão presentes Japão e Coréia. Depois de salientar a explosão de liquidez da China, que acumula as maiores reservas de divisas do mundo, Santiso destaca seus efeitos positivos sobre as economias latino-americanas. "A injeção de liquidez chinesa no sistema financeiro global favoreceu a redução das taxas de juros e dos prêmios de risco, com o conseqüente barateamento do custo do capital", ele diz. A explosão de investimento direto estrangeiro (IDE) das economias emergentes confirma esse fato. A necessidade de recursos naturais e de matérias-primas do colosso asiático multiplica as exportações. O Chile lidera a venda de matérias-primas para a Ásia, com 36% de suas exportações, 15% com destino à China Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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