Falta de perspectiva de trabalho cria os "parasitas solteiros" no Japão

Joaquín Luna
Enviado especial a Tóquio

O Japão tem uma nova classe social: os chamados "parasite singles" (solteiros parasitas), assim, em inglês. O sociólogo Masahiro Yamada, professor na Universidade Gagukei em Tóquio, os dissecou. São a primeira juventude do Japão desde 1945 que não tem -nem terá- um emprego para a vida toda. E não são poucos.

A entrevista:

La Vanguardia - Uma denominação desprezível, "solteiros parasitas".
Masahiro Yamada
- Alguns não se importam porque soa como "paradise" (paraíso). Vi algum cartão de visitas que dizia "Parasite single".

LV - Como nasceu essa geração?
Yamada -
São conseqüência da crise econômica dos anos 1990. De uma classe média generalizada e sem riscos passamos a um corte: os jovens bem preparados se colocam, mas os outros não. Não há mais empregos estáveis para eles e começam a não acreditar no futuro. Um terço deles diz não ter expectativas de futuro. Vão trocando de empregos simples, quase todos descontínuos e mal pagos.

LV - Quantos são?
Yamada -
Dois milhões. Para eles, o emprego vitalício já não existe. A proteção trabalhista continua existindo para os outros.

LV - O que pensa a sociedade?
Yamada -
Culpa a eles.

LV - E o que fazem?
Yamada -
Se refugiam em fantasias do tipo "vou ser uma estrela do beisebol ou do rock" ou "me casarei com um príncipe encantado" -no caso delas-; ou, os mais realistas, se ancoram no lar paterno.

LV - As mulheres "parasite singles" vêem o casamento como uma saída?
Yamada -
Sim, mas não têm consciência de que os jovens que podem escolher, seus príncipes encantados, tendem a se casar com mulheres de nível econômico e social parecido, porque já não esperam que deixem de trabalhar, como antes. Algumas têm expectativas desmesuradas, em parte porque gastam tudo o que ganham graças ao fato de morar com os pais. São boas consumidoras. Lembro um caso em que a mulher fazia três viagens ao estrangeiro por ano. E queria que seu futuro marido lhe garantisse essas mesmas viagens. Tinha 35 anos e continuava solteira.

LV - Os pais se sentem fracassados?
Yamada -
Não gostam de falar no assunto. São muito fechados. Os pais são a previdência social desses 2 milhões de jovens. Garantem a eles casa e comida. O problema será quando eles desaparecerem e os filhos já tiverem passado dos 40 anos. Começamos a ter os primeiros casos. Todo mês se descobre algum jovem que tentou ocultar a morte de seus pais para continuar recebendo a pensão.

LV - O Japão está perdendo uma coesão social única? Está mais parecido com os outros?
Yamada -
O país como um todo não perderá a cultura do esforço, simplesmente terá um grupo numeroso que vive um pouco à margem da sociedade onde até agora não existe criminalidade. Enquanto os pais viverem não há problema. Mas temo que depois sim, haverá, como acontece em outros países desenvolvidos. Um dos riscos é que esses jovens sem emprego fixo tendem a ser muito nacionalistas, pensam que o mundo globalizado é o que lhes tirou o emprego seguro e estável de que gozaram as gerações anteriores de japoneses. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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